“Um povo sem memória é um povo sem futuro”, diz a frase escrita nas arquibancadas do Estádio Nacional de Santiago. O local, utilizado como prisão política e centro de tortura pela ditadura de Augusto Pinochet nos anos 1970, se tornaria palco de um “jogo fantasma” durante a classificação do Chile à Copa do Mundo de 1974. E o estádio, que ressalta o seu passado sombrio para que as violações nunca sejam esquecidas, nesta terça-feira receberia outra partida de futebol alienada. Enquanto os arredores do gramado ferviam, em meio à revolta que se desenrola no país há mais de três meses, Universidad de Chile e Internacional se enfrentavam pela segunda fase preliminar da Libertadores. O jogo, que ocorreu sem sofrer grandes impactos, terminou empatado em 0 a 0 e concedeu aos colorados a chance de resolver no Beira-Rio.

Entretanto, não dá para dizer que esta foi uma partida “normal”. Depois da morte de um torcedor do Colo-Colo na última semana, atropelado pela polícia, o futebol voltou a ser tomado pelos protestos no Chile. A Conmebol ameaçou punições se o duelo não ocorresse e impôs seu interesse à frente de tudo. Para ajudar a segurança, o horário do pontapé inicial foi antecipado ao fim da tarde. E a bola até rolou no Estádio Nacional com apenas uma curta interrupção, no fim do segundo tempo, o que não significa que os presentes ficaram contidos. Obviamente, não se calariam, em seu direito de manifestação. Com o número de ingressos reduzido para facilitar ao policiamento e muitos setores vazios, os protestos aconteceram através de cânticos e faixas, transformando-se no fim em embates e depredações.

Antes que o clima esquentasse, o jogo começou no horário marcado. O Internacional tinha paciência e tocava a bola a partir da defesa, por mais que a Universidad de Chile tentasse pressionar a marcação. Damián Musto era uma peça importante aos gaúchos, ao recuar e ajudar nesta cadência. E os colorados não demoraram a criar sua primeira oportunidade, aos 13 minutos. Edenílson apareceu livre dentro da área, mas sua cabeçada facilitou a defesa do goleiro Fernando de Paul. A equipe de Eduardo Coudet impunha o seu tempo, com força pelos lados.

As chances do Inter surgiam aos poucos, mesmo que não rendessem grandes esforços a De Paul. A zaga da Universidad de Chile travou por duas vezes Paolo Guerrero, enquanto Víctor Cuesta desviaria uma bola para fora. O ritmo da partida cairia e, do outro lado, La U criou seus problemas. Pablo Aránguiz assustou ao puxar contra-ataque e, aos 32, Joaquín Larrivey desperdiçou a melhor oportunidade. O cruzamento da esquerda encontrou o centroavante sozinho, mas ele cabeceou para fora. Os colorados permaneceram bons minutos adormecidos, até Guerrero cobrar uma falta com perigo, já nos acréscimos.

Nas arquibancadas do Estádio Nacional, os protestos já aconteciam concomitantemente, de maneira pacífica – segundo relatos da jornalista Anita Efraim. O presidente Sebastián Piñera era o alvo dos cânticos dos torcedores, assim como de faixas questionando o seu governo. “Piñera, assassino igual a Pinochet” era o grito que ecoava no setor da barra brava, onde se acumulavam os 15 mil presentes. Já nos arredores do estádio, as manifestações se intensificaram durante o intervalo e terminaram repelidas por confrontos com a polícia.

Em outro universo dentro de campo, o segundo tempo recomeçou e guardou boas chances. Cuesta pegou torto na pequena área para o Inter, enquanto Ángelo Henríquez exigiria uma defesa decisiva de Marcelo Lomba antes dos dez minutos. E a partida se tornaria mais favorável aos colorados com 20, quando Walter Montillo deu uma entrada dura em Moisés, recebendo o segundo amarelo. Com um jogador a menos, os azules não seriam apenas espectadores e ameaçaram em tiro de Aránguiz que Moledo desviou. De qualquer maneira, os lances mais claros eram dos visitantes, por mais que a pressão não tenha aumentado.

De Paul realizou uma defesa espetacular aos 22 minutos, em cabeçada à queima-roupa de Edenílson. E o Inter tinha a iniciativa, mas cada vez menos a partida parecia alheia ao que acontecia ao seu redor. Os incidentes se notavam de maneira mais intensa nas arquibancadas. Concentrar-se na bola parecia uma missão difícil. Os colorados permaneciam mais ativos, sem encaixar seus ataques. Todavia, por todo o contexto além das quatro linhas, o empate sem gols era a tradução de um jogo que, com mais sensatez, não deveria ocorrer. Mas sensatez, afinal, não é o forte da Conmebol.

Por volta dos 40 minutos, a partida seria paralisada por causa de cadeiras arremessadas ao redor do campo, no setor atrás da meta de Lomba. Outros objetos choviam durante os protestos. O árbitro retomou o jogo e conseguiu realizá-lo até o fim. O que não cessou foi o fervor, com direito a invasões na pista de atletismo e confrontos dos espectadores com a polícia. Uma parte das tribunas ainda seria incendiada, enquanto os jogadores precisavam fingir normalidade no gramado. A transmissão da TV evitou tais cenas o quanto pode, mas não pode impedir os relatos dos presentes. Já na saída do estádio, membros do Inter admitiram seu incômodo e o diretor de futebol Rodrigo Caetano (em entrevista a Eduardo Deconto, repórter do Globo Esporte) apontou que o jogo poderia ter sido encerrado antes.

A Conmebol certamente está satisfeita por ter um resultado ao final de 90 minutos em Santiago, assim como os clubes se aliviam pela segurança dos atletas ter sido mantida em campo. Mas os riscos foram imensos, sobretudo a quem estava nas arquibancadas. Desnecessários. O empate sem gols deixa a situação aberta ao reencontro no Beira-Rio. Pelo menos, a “atmosfera mais adequada ao futebol” deverá permitir aos jogadores se concentrarem em seu serviço. E os chilenos certamente não pararão os seus protestos, num cenário que torna o futebol secundário.