A maior marca do futebol turco não está dentro de campo. Não são os seus craques ou as camisas pesadas de seus clubes. O que torna a Süper Lig especial é mesmo a paixão de seus torcedores. O fanatismo nas arquibancadas do país impressiona, especialmente entre os três grandes clubes do país. E os exemplos não são poucos: o recorde de decibéis da torcida do Galatasaray, a despedida do Alex no Fenerbahçe, o McDonald’s que teve suas cores mudadas por causa do Besiktas. Em alguns episódios, o fundamentalismo futebolístico passa dos limites e descamba para a violência. No entanto, a consciência pode ser maior. Como nos protestos na Praça Taksim, quando o Istambul United uniu as torcidas rivais contra a centralização do governo de Recep Tayyip Erdogan.

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Mais de um ano se passou desde os protestos e os poderes de Erdogan não diminuíram – em julho, após 11 anos como Primeiro Ministro, venceu as eleições presidenciais. Já as tensões ligando política e futebol cresceram. Envolvidos nas manifestações, 22 membros de um grupo de ultras do Besiktas foram presos por “formarem uma organização terrorista para derrubar o governo”. E, em abril, o governo lançou um programa que, segundo as declarações oficiais, serve para diminuir a violência nos estádios. Mas que é visto pelas torcidas como uma nova maneira de repressão política e, por isso mesmo, tem esvaziado substancialmente os estádios no Campeonato Turco.

A princípio, o Passolig não parece uma ideia tão ruim. Formulado a partir de 2011, o sistema de ingressos eletrônicos tornou-se obrigatório em 2014/15 e pede o cadastro completo de todos os que frequentam os estádios na Süper Lig. Seria uma medida interessante para coibir a violência nos estádios, não fosse o ambiente de repressão que envolve justamente as torcidas. A nova medida passou uma maneira de restringir o valor do estádio como espaço público e facilitar o controle do governo sobre seus potenciais opositores. Afinal, a vigilância sobre as arquibancadas já tinham aumentado desde os protestos no Parque Gezi, com a instalação de câmeras e sistemas de segurança obrigatórios. No primeiro clássico sob o Passolig, Besiktas e Fenerbahçe levaram 20 mil pessoas a um estádio com capacidade para 76 mil.

Contra o Sivasspor, a torcida do Galatasaray cobriu parte do estádio para protestar
Contra o Sivasspor, a torcida do Galatasaray cobriu parte do estádio para protestar

À mesma medida em que tem mais ferramentas para controlar as massas, o governo passou a se eximir das responsabilidades sobre a segurança. O cadastro dos torcedores do Passolig passaram a ser feitos pelo Aktifbank – que, em uma grande “coincidência”, é administrado justamente pelo genro de Erdogan. Interesses comerciais no mínimo duvidosos, já que uma conta bancária e um cartão de créditos também precisam ser adquiridos para o uso do sistema eletrônico. E quem ficaria responsável pelos custos? Como sempre, o público, que passou a gastar mais para ver os jogos. A taxa dos serviços cobrada pelo banco apenas para se ter acesso ao Passolig equivale ao preço de até cinco ingressos entre os clubes menores da primeira divisão.

Diante do cenário, os torcedores passaram a boicotar os jogos do Campeonato Turco. A média de 12 mil pessoas por partida da última temporada caiu para 6,6 mil nesta. Números puxados principalmente por Fenerbahçe e Galatasaray. Se em 2013/14 os dois grandes levavam juntos 70 mil pessoas por duelo em casa na Süper Lig, em 2014/15 esses números não vão além dos 26 mil e ficam abaixo dos 30% da capacidade máxima de seus estádios. Não à toa, o clássico do primeiro turno na Turk Telecom Arena não teve 37,5 mil torcedores, 25 mil a menos do que o de abril passado, duas semanas antes do início do Passolig. Já o líder de público é o modesto Konyaspor, levando 15,8 mil pessoas aos seus jogos.

Para deixar as insatisfações ainda mais evidentes, os torcedores também têm saído às ruas. Neste final de semana, centenas de pessoas protestaram em diversas cidades do país, especialmente de Istambul. Exibiram faixas contra a Passolig e a postura do governo. Como era de se esperar, as passeatas acabaram dispersadas pela polícia, através de jatos d’água e bombas de gás lacrimogêneo.

Para tentar reverter o esvaziamento dos estádios, a federação turca e oAktifbank têm diminuído até mesmo o valor dos ingressos. Nada que sirva para tapear o público. A Süper Lig passou por duros golpes nos últimos anos, sobretudo pelo escândalo de manipulação de resultados ocorrido em 2011/12. Obviamente, a violência nos estádios precisa ser combatida, mas não através de repressão velada e jogos de interesse corruptos, que custam também a liberdade de expressar a paixão e mais dinheiro aos bolsos das famílias.

Embora o ambiente na Turquia seja pouco propício ao diálogo, os torcedores tentam se fazer ouvir. Nem que para isso ecoe o silêncio em alguns dos estádios mais barulhentos do mundo. Se o futebol é a válvula de escape para a realidade, ele também pode ser a ferramenta para tentar transformá-la.