Tudo isso para nada: Ligue 1 absolve Neymar e Álvaro González diante de “falta de provas suficientes”

Depois de tanta polêmica e de uma intensa troca de acusações de racismo e homofobia, Neymar e Álvaro González acabaram absolvidos pelo comitê de disciplina da Liga de Futebol Profissional da França. A decisão foi anunciada na noite de quarta-feira (30).

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Em um comunicado oficial divulgado em seu site, a LFP explica que, após examinar o processo e ouvir jogadores, representantes dos clubes, PSG e Olympique de Marseille, concluiu que não havia provas suficientes para “estabelecer a materialidade dos comentários discriminatórios de Álvaro González contra Neymar durante o jogo e nem de Neymar contra Álvaro González”.

Durante o clássico entre PSG e Marseille em 13 de setembro, Neymar foi um dos cinco jogadores expulsos após ter dado um “cascudo” em Álvaro em meio a uma confusão entre atletas das duas equipes. Saindo de campo, Neymar repetiu a acusação que havia feito ao longo do jogo, começando ainda no primeiro tempo: o zagueiro espanhol teria feito comentários racistas.

A pedido da TV Globo, especialistas em leitura labial confirmaram a versão do brasileiro de que Álvaro teria dito “mono” (“macaco” em espanhol). Em uma tentativa de não ir sozinho ao buraco, o Marseille passou a acusar Neymar de ter feito insultos homofóbicos a Álvaro, e imagens mostradas pela emissora espanhola Gol, com ajuda também de especialistas em leitura labial, apontavam o brasileiro gritando “puto maricón” ao defensor do OM.

PSG e Marseille, cada um levaram essas imagens ao julgamento, e a suposta ofensa de Neymar a Hiroki Sakai, chamando o japonês de “chinês de merda”, não foi incluída na análise da LFP. Por fim, o presidente da comissão de disciplina da liga, Sébastien Deneux, explicou ao L’Équipe nesta quinta-feira (1) que todos os materiais apresentados na examinação das imagens e áudios não puderam estabelecer com clareza os insultos de ambos os lados.

“Fizemos duas observações. A primeira é que nenhum relatório oficial, árbitro ou delegado foi capaz de estabelecer os elementos relacionados a esses comentários ou insultos discriminatórios. A segunda conclusão, que emerge tanto do trabalho realizado pelo instrutor como das audiências realizadas, é que as declarações feitas por Neymar e Álvaro são contrárias em quase todos os aspectos e que nenhuma delas estabeleceu clara, distinta e precisamente a natureza dos comentários trocados. No relatório de investigação, mais uma vez, infelizmente constatamos que as conclusões do perito (em leitura labial) foram demasiado aleatórias e não constituíram um elemento suficientemente tangível para permitir a imposição de sanções. A confiabilidade dos relatórios dos especialistas em leitura labial é de 30%. Havia, portanto, alguma dúvida. E esta dúvida, sendo um princípio jurídico bastante elementar, deveria beneficiar os jogadores. O comitê decidiu, portanto, não sancioná-los”, contou Deneux.

Neymar e Álvaro estavam sendo julgados por supostos comentários discriminatórios e corriam o risco de levarem uma punição de até dez jogos de suspensão. Com a decisão desta quarta, e com Neymar já tendo cumprido os dois jogos que recebera pela agressão física a Álvaro, ambos estão liberados para as próximas rodadas da Ligue 1.

A decisão da LFP atrai críticas à instituição, acusada por vezes de ser conivente com casos de discriminação, e a própria punição máxima potencial, de apenas dez partidas, foi alvo de críticas por parte de alguns torcedores e pessoas da crônica francesa, apontando que Gelson Martins, do Monaco, foi suspenso por seis meses por empurrar um árbitro, o que indicaria o peso que a liga dá a casos de racismo e outros tipos de discriminação.

Ciente deste cenário, Deneux, presidente do comitê de disciplina, afirmou: “Nossas decisões são quase sempre comentadas. Suponho que esta também será. Mas eu pessoalmente não tenho medo de nada. Fizemos nosso trabalho. É muito melhor ter tentado estabelecer a verdade. É muito mais responsável fazer o que fizemos, mesmo que isso signifique chegar a esta decisão, do que simplesmente ter encerrado o caso há duas semanas”.