Conquistar os três principais títulos do país é um desafio para qualquer grande time do mundo. Na Europa, a chamada Tríplice Coroa (em inglês é chamado de “treble”) é uma honra para poucos. O Bayern Munique é o sétimo time a colocar o seu nome nesta galeria, com os títulos da Bundesliga, Copa da Alemanha e Liga dos Campeões em 2013. É um desafio para grandes times e algo que fica marcado para sempre na história. Celtic, Ajax, PSV, Manchester United, Barcelona e Internazionale conseguiram conquistar a liga e copa do seu país e a Liga dos Campeões em uma mesma temporada. O feito é tão complicado que nunca um time conseguiu repetir a façanha. E é algo que muitos dos grandes esquadrões da história não conseguiram. Confira a história de cada um dos seis campeões que conquistaram a Tríplice Coroa:

Celtic, 1966/67
Celtic foi o primeiro time a conquistar a Tríplice Coroa na Europa, em 1967 (Foto: AP)
Celtic foi o primeiro time a conquistar a Tríplice Coroa na Europa, em 1967 (Foto: AP)

A melhor temporada do Celtic na sua história. Os Hoops conseguiram o título escocês, da Copa da Escócia e fechou as glórias com a conquista da Copa das Campeões sobre a Internazionale, então campeã europeia. Na verdade, os escoceses conseguiram uma glória ainda maior. Simplesmente conquistaram todos os títulos que disputaram naquele ano, incluindo a Copa da Liga e a Copa Glasgow. Na Copa da Liga, decidiu o título com o arquirrival Rangers e venceu por 1 a 0. Na Copa da Escócia, venceu o Aberdeen por  2 a 0, além de vencer a Copa Glasgow com uma vitória por 4 a 0 sobre o fraco Partick Thistle. No Campeonato Escocês, ficou com três pontos a mais que o Rangers.

A grande conquista do Celtic veio mesmo na Copa dos Campeões. O time enfrentou Zurich, Nantes, Vojvodina e Dukla antes de chegar à final. Eram outros tempos, quando a competição era disputada inteiramente em jogos eliminatórias de ida e volta. A final já era no formato usado atualmente: um jogo, em estádio escolhido previamente. Naquela temporada, a final foi no Estádio Nacional, em Lisboa. A adversária dos Hoops tinha sido bicampeã em 1964 e 1965, contra Real Madrid e Benfica.

A Internazionale tinha Armando Picchi, Giacinto Facchetti e Sandro Mazzolla e era comandada por um técnico famoso por armar sistemas defensivos muito fortes, o argentino Helenio Herrera. E quando Mazzola marcou 1 a 0 para a Inter, aos sete minutos, parecia que os nerazzurri levariam mais uma taça europeia para casa. Comandados por Jock Stein, os Hoops contaram com gols do lateral esquerdo Tommy Gemmell e do atacante Stevie Chalmers para virar o jogo para 2 a 1. A primeira taça europeia de um time escocês, algo difícil de imaginar acontecer atualmente. Mas uma glória que será eterna e está entre os campeões da Tríplice Coroa.

Ajax, 1971/72
Ajax conquistou a Copa dos Campeões em 1972 e completou a Tríplice Coroa (Foto: AP)
Ajax conquistou a Copa dos Campeões em 1972 e completou a Tríplice Coroa

Comandado pelo gênio Johan Cruyff, o Ajax venceu a Eredivisie com alguma sobra, fazendo 63 pontos contra 55 do Feyenoord. Na final da Copa da Holanda, o time venceu o Den Haag por 3 a 2. Os holandeses venceram o Nentori Tirana, da Albânia, na primeira fase. Depois, foi a vez de despacharem o Basel, da Suíça. Nas quartas de final, o adversário foi o Celtic e o time resolveu tudo no primeiro jogo, ao vencer por 3 a 0. Na semifinal, o Atlético de Madrid, que venceu o primeiro jogo em casa por 1 a 0, mas tomou 3 a 0 na Holanda e acabou eliminado.

Na final, o Ajax de Rinus Michels teve o Panathinaikos, da Grécia, como adversário. O jogo foi no estádio de Wembley, em Londres. Com gols no início e no final do jogo (Dick van Dijk aos cinco minutos do primeiro tempo e Arie Haan, aos 42 do segundo), o Ajax venceu por 2 a 0 e conquistou sua primeira Copa dos Campeões da Europa. Seria a primeira de uma dinastia. Aquele time histórico conquistou as duas Copas dos Campeões seguintes e entrou para uma rara galeria de tricampeões consecutivos.

PSV, 1987/88
PSV, de Guss Hiddink, conquista a Copa dos Campeões em 1988
PSV, de Guss Hiddink, conquista a Copa dos Campeões em 1988

Comandado por Guus Hiddink, o PSV conseguiu chegar à conquista da tríplice coroa na temporada 1987/88. O time tinha Ronald Koeman como um de seus destaques e isso já é um indício do foi aquele time. Seguro na defesa, o PSV era difícil de ser batido, mas também não era um jogador que encantasse. O time levava poucos gols e naquela temporada na Holanda conseguiu o título muito graças a essa qualidade. Fez 59 pontos contra 50 do Ajax,mas o número que impressiona é a relação entre gols feitos e gols sofridos. O time marcou 117 vezes na liga, média de 3,4 gols por partida, e sofreu apenas 28, média de 0,82 gols sofridos por jogo.

Antes da conquista da Eredivisie, veio a Copa da Holanda. Em uma final contra o Roda JC, os comandados de Hiddink venceram por 3 a 2, graças a gols de Gerets (duas vezes) e Lerby. Na Copa dos Campeões, o time avançou passando por Galatasaray na primeira fase, Rapid Viena na segunda, Bordeaux nas quartas de final e fez uma semifinal dura com o Real Madrid. Empatou em Madri por 1 a 1 e em casa por 0 a 0, avançando nos gols fora de casa. Na final, mais um 0 a 0, desta vez contra o Benfica. A decisão foi para os pênaltis e o time de Eindhoven venceu por 6 a 5, graças a um erro de Veloso – o único, aliás. O time entrava então na lista de campeões com a Tríplice Coroa.

Manchester United, 1998/99
Solskjaer, o assassino com cara de bebê, comemora o gol do título da Liga dos Campeões, em 1999
Solskjaer, o assassino com cara de bebê, comemora o gol do título da Liga dos Campeões, em 1999

Depois de um longo tempo sem ingleses vencendo a Liga dos Campeões, o time de Alex Ferguson conseguiu o triunfo de maneira inacreditável. Não por acaso, o time foi soberano em seu país naquela temporada. Venceu a Premier League em uma feroz disputa com o Arsenal, ficando com um ponto a mais que o adversário – 79 a 78. O time, que tinha nomes como Peter Schmeichel, Gary Neville, Jaap Stam, Paul Scholes, Ryan Giggs, David Beckham e Dwight Yorke, venceu também a Copa da Inglaterra, em uma final com o Newcastle, vencida por 2 a 0.

Na Liga dos Campeões, o time começou na fase preliminar e teve que passar pelo Lodz, o que fez sem dificuldade. Na fase de grupos, enfrentou Brondby, Barcelona e Bayern Munique e acabou em segundo lugar, atrás dos alemães. Nas quartas de final, enfrentou a Internazionale. Venceu em casa e empatou fora para avançar. A semifinal foi contra outro time italiano, a Juventus.

Em casa, o time só empatou, e com um gol aos 47 minutos do segundo tempo, 1 a 1. Antonio Conte, atual técnico da Juve, fez o gol bianconero aquele dia. Giggs empatou quando o jogo parecia destinado a uma derrota. O “Fergie Time” já vinha bem de muito longe. Na volta, a Juventus abriu 2 a 0 e tudo parecia perdido. Aquele time de Alex Ferguson não gostava de desistir. E ainda no primeiro tempo, empatou o jogo em 2 a 2 e inverteu a vantagem. Nos gols fora, o time estava se classificando. Mais do que isso, no final da partida York aproveitou uma saída de bola errada, passou pelos zagueiros, driblou o goleiro e foi derrubado. A bola sobrou para Andy Cole marcar e levar o time à final.

A final teve contornos dramáticos. O jogo no Camp Nou, em Barcelona, teve o Bayern Munique abrindo o placar com Mario Basler, aos seis minutos de jogo. E o placar ficou assim durante todo o tempo regulamentar. Ferguson colocou em campo Teddy Sheringham e Ole Gunnar Solskjaer. E eles seriam fundamentais. Primeiro, depois de um escanteio, Giggs chutou e Sheringham desviou para empatar o jogo. Quando a prorrogação parecia inevitável, outro escanteio, toque de cabeça no meio e a bola sobrou para Solskjaer desviar quase em cima da linha e marcar o gol da inacreditável virada: 2 a 1, título e tríplice coroa garantida para os Diabos Vermelhos.

Barcelona, 2008/09
O histórico time do Barcelona em 2009 encantou o mundo e ganhou a Liga dos Campeões em 2009
O histórico time do Barcelona em 2009 encantou o mundo e ganhou a Liga dos Campeões em 2009

A primeira temporada de Pep Guardiola como técnico do Barcelona não poderia ter sido melhor. O time que tinha Lionel Messi finalmente pronto para brilhar explodiu. O estilo com posse de bola, passes incessantes e um time envolvente conseguiu todos os títulos possíveis. O time conseguiu fazer 87 pontos na liga contra 78 do Real Madrid, ganhando o campeonato com certa facilidade. Na Copa do Rei, o time enfrentou o Athletic Bilbao na final e venceu com facilidade por 4 a 1.

A Liga dos Campeões era o grande desafio. O time teve que jogar a fase eliminatória para chegar à fase de grupos, mas isso não foi um problema. O time passou pelo Wisla Krakow com tranquilidade para se classificar para o Grupo C. Também não teve dificuldades, já que os adversários eram Sporting, Shakhtar Donetsk e Basel. Foi o primeiro do grupo com quatro vitórias, um empate e uma derrota. Nos mata-matas, vitória fácil sobre o Lyon nas oitavas de final e um atropelamento contra o Bayern Munique nas quartas. Ali, já era possível ver que o time do Barcelona parecia algo especial.

Na semifinal, uma dura batalha contra o Chelsea. O empate por 0 a 0 em casa pareceu deixar os ingleses mais perto da vaga. E ainda mais quando Essien colocou os Blues em vantagem, aos nove minutos. O Chelsea reclamou muito da arbitragem, que não teria marcado três pênaltis para a equipe. A classificação do Barcelona só veio de forma dramática, em uma jogada pela esquerda que acabou em um chute de fora da área de Iniesta. Golaço e passaporte garantido para a final. A decisão seria contra outro inglês, o Manchester United, em Roma. Os Diabos Vermelhos eram os então campeões e pareciam ser favoritos. Mas o time de Xavi, Iniesta, Messi e Eto’o fez uma grande partida, venceu por 2 a 0 e mostrou que era um time muito forte. A Tríplice Coroa estava garantida.

Internazionale, 2009/2010
A Inter de Milito conquistou a Europa e a Tríplice Coroa em 2010  (AP Photo/Victor R. Caivano)
A Inter de Milito conquistou a Europa e a Tríplice Coroa em 2010 (AP Photo/Victor R. Caivano)

A Internazionale era dominante na Itália. Quando começou a temporada, era tetracampeão italiano (três deles em campo, o primeiro foi herdado da Juventus). Sob o comando de José Mourinho, a Internazionale conseguiu um feito que talvez ninguém esperasse em nível europeu. Os grandes destaques da equipe eram o trio brasileiro na defesa, o goleiro Júlio César, o lateral Maicon e o zagueiro Lúcio, o articulador do time, o holandês Wesley Sneijder, o atacante Samuel Eto’o, que se desdobrou em várias posições, e o artilheiro, Diego Milito, que fez a melhor temporada da sua carreira.

A Copa da Itália, decidida uma semana antes da Liga dos Campeões, reuniu os dois principais times do país naquele momento, Inter e Roma. O jogo foi em Roma, palco pré-definido da decisão. Com gol de Diego Milito, o time de Mourinho levantou a primeira taça da temporada. O título da Serie A veio em uma disputa cabeça a cabeça com a Roma. Os nerazzurri terminaram com 82 pontos, contra 80 dos giallorrossi, graças a uma vitória na última rodada contra o Siena. Tanto na Copa quanto na Serie A, os gols decisivos foram de Milito.

Na Liga dos Campeões, o time não teve um início muito promissor. A estreia na competição foi um empate por 0 a 0 com o Barcelona no Giuseppe Meazza, com a Inter se defendendo muito e podendo agradecer aos céus pelo empate. Depois, empataria com o Rubin Kazan na Rússia e com o Dynamo Kiev em casa. A situação era complicada e só melhorou porque a Inter venceu o Dynamo Kiev no returno, 2 a 1, em um jogo que Sneijder e Milito brilharam. Veio a derrota para o Barcelona no Camp Nou, até esperada, e depois a vitória sobre o Rubin Kazan por 2 a 0. Classificação assegurada.

Nas oitavas de final, o adversário foi o Chelsea. Venceu em casa por 2 a 1, o que parecia deixar o Chelsea em uma boa situação – bastava uma vitória por 1 a 0 para classificar. A vitória por 1 a 0 em Londres veio, mas foi da Inter. Samuel Eto’o marcou o gol que decretou a passagem às quartas de final. Nessa fase, o time teve um pouco mais de facilidade: enfrentou o CSKA Moscou e venceu os dois jogos por 1 a 0. Mas o que esperava pelo time na semifinal seria o maior desafio daquela equipe.

O adversário era o Barcelona, então campeão europeu e favorito. Jogando em casa no jogo de ida, os nerazzurri conseguiram fazer o melhor jogo da temporada. E isso mesmo depois de sair perdendo por 1 a 0. Sneijder, Maicon e Milito marcaram os gols que deram uma boa vantagem à Inter para o jogo de volta. Em Barcelona, o time foi para se defender. E mais ainda quando perdeu ThiagoMotta, expulso ainda no primeiro tempo. A defesa de handebol da equipe formou uma parede que impediu o time de Messi de entrar na área. Até Eto’o e Milito marcavam forte, atrás do meio-campo. O gol do Barcelona até saiu com Piqué, aos 39 minutos, mas acabou sendo tarde demais. A Inter decidiria o título.

A final, no Santiago Bernabéu, em Madri, consagrou o time. Mais fácil que a semifinal, o time venceu o Bayern Munique por 2 a 0, dois gols de Milito, e levantou a sua terceira taça continental na história e a última peça que faltava na Tríplice Coroa. O time que repetiria o feito seria justamente o derrotado daquele dia em Madri, o Bayern, três anos depois.

Bayern Munique, 2012/13
O capitão Lahm levanta a taça da Copa da Alemanha, completando a tríplice coroa (AP Photo/Michael Sohn)
O capitão Lahm levanta a taça da Copa da Alemanha, completando a tríplice coroa (AP Photo/Michael Sohn)

Depois de ver o Borussia Dortmund dominar a Bundesliga por duas temporadas e perder a Liga dos Campeões em casa em 2012, o Bayern Munique entrou na temporada 2012/13 para tirar a pecha de perdedor que insistiam em colocar no time. A prioridade era recuperar o trono doméstico, mas quem iria duvidar da capacidade do time também na Liga dos Campeões? O time de Jupp Heynckes tinha sido finalista em 2012 e, com Van Gaal, foi finalista em 2010. Estava acostumado com fases decisivas. Faltava ganhar o título europeu. Não falta mais.

Os bávaros foram avassaladores em toda a temporada. Na Bundesliga, fez uma campanha inacreditável. Em 34 jogos, 91 pontos, 98 gols marcados e só 18 sofridos. Campeão com sete rodadas de antecedência, uma tranquilidade poucas vezes vista antes. O segundo colocado, Borussia Dortmund, terminou com 66 pontos, 25 pontos atrás do campeão. No âmbito doméstico, o time recuperava a salva de prata. Faltava buscar a Europa. E o time se mostrou muito forte logo de cara.

Depois de uma fase de grupos que teve uma derrota surpreendente para o BATE Borisov em Belarus, o time se classificou com uma certa facilidade, em primeiro lugar, em um grupo que tinha também o Valencia e Lille. Foram quatro vitórias, um empate e uma derrota.  Nenhuma surpresa, mas o time precisava mostrar a mesma força no mata-mata. E o adversário foi o Arsenal, que sentiu na pele o poder de fogo dos alemães. No jogo de ida, 3 a 1 para o Bayern em pleno estádio Emirates, em Londres. Com a classificação praticamente garantida, o time relaxou no jogo de volta e quase se complicou, perdendo por 2 a 0 para os ingleses.

Nas quartas de final, a Juventus, melhor time italiano, dono de uma defesa respeitável. Não teve nem chance. Foram duas vitórias por 2 a 0, em Munique e em Turim, e uma classificação absolutamente tranquila. Assim, o time chegou à semifinal para enfrentar o Barcelona com ares de favorito, por tudo que vinha fazendo na temporada. Mas o Barcelona era o time histórico, que reverteu uma situação difícil diante do Milan nas oitavas de final e sofreu para passar pelo Paris Saint-Germain.

O primeiro jogo deixou claro que o Bayern era uma potência. Os 4 a 0 em Munique podem até ter sido um exagero, mas mostrava o que o time era capaz de fazer em um bom dia. Na volta, 3 a 0 em pleno Camp Nou e a ratificação como o time da temporada. Faltava a final. E o adversário não poderia ser pior. O Borussia Dortmund, talvez aquele que mais conhecia o modo como o Bayern jogava – e que sabia como vencer. Só que o Bayern mostrou que estava em uma temporada inabalável e jogou bem para vencer por 2 a 1, graças a um gol de Arjen Robben aos 44 minutos do segundo tempo. Uma redenção para quem tinha sido o vilão de 2012.

Por fim, a Copa da Alemanha neste sábado. O time até sofreu mais do que o esperado, mas venceu e terminou a temporada perfeita. Terá um novo comandante a partir da próxima temporada. Mas a responsabilidade será enorme. Jupp Heynckes deixa o clube com todos os títulos possíveis conquistados na temporada. Pep Guardiola poderá até igualar o feito, mas será uma tarefa muito árdua.