Marcelo Bielsa mal começou o seu trabalho no Lille, mas a passagem pelo norte da França já possui suas histórias singulares. E com uma pitada de loucura, para variar. Neste domingo, os Dogues entraram em campo buscando a segunda vitória na Ligue 1. Tinham uma missão delicada, visitando o recém-promovido Strasbourg, diante de uma torcida sedenta por ver seu time de volta na primeira divisão. O que acompanharam, de fato, foi um dos jogos mais insanos da temporada – não só por causa de Bielsa, embora a influência do técnico na surpreendente sucessão de fatos seja inegável. Ao final, os anfitriões venceram por 3 a 0, em belíssima festa no Stade de la Meinau.

A confusão começou no primeiro tempo, em um infortúnio sem tamanho do Lille. Primeiro, Thiago Mendes precisou ser substituído aos 12 minutos, lesionado. O mesmo aconteceu sete minutos depois, quando Kevin Malcuit saiu e deu espaço para Thiago Maia. Não foram as substituições, porém, que impediram Bielsa de queimar a sua terceira alteração ainda no primeiro tempo, aos 38 minutos, por motivações táticas. Sacou o ala Fode Ballo, que já tinha cartão amarelo, na tentativa de imprimir o seu estilo ofensivo sem correr o risco de ficar com um jogador a menos. Justamente o que aconteceu na etapa complementar, por causa da falta de controle do goleiro Mike Maignan.

Destaque da partida até então por suas boas defesas, aos 18 minutos do segundo tempo Maignan se estranhou com Benjamin Corgnet, meia do Strasbourg. Impensadamente, jogou a bola na nuca do adversário e recebeu o necessário cartão vermelho. Sem escolha, o Lille precisou designar um jogador de linha para vestir as luvas. O centroavante Nicolas de Préville assumiu a missão e, apesar do gol sofrido aos 29, anotado por Jonas Martin, chegou a salvar os Dogues em um lance no mano a mano. Para não perder força no ataque, o Lille mudou de goleiro outra vez, recolocando De Préville como homem de referência e deslocando o líbero Ibrahim Amadou para os paus. Acabou tomando os dois últimos tentos depois dos 37, de Dimitri Liénard e Jérémy Grimm, que desencadearam a comemoração dos anfitriões.

Apesar de tudo, Bielsa não demonstrou arrependimentos pela terceira substituição. Sua postura na coletiva de imprensa ressaltou uma frieza enorme sobre os acontecimentos da partida, sem entrar no vitimismo de culpar qualquer agente externo: “Sou o responsável pelo resultado. Mesmo tendo um time melhor que o nosso adversário no papel, não conseguimos impor essa diferença de qualidade. O treinador do Strasbourg soube neutralizar nossas intenções. Mesmo assim, considero que a terceira alteração foi necessária, eu tinha a impressão que poderíamos ficar expostos a uma expulsão em uma partida muito desfavorável. Agi assim porque pensei que era indispensável no momento”.

Além disso, o argentino não condenou Maignan por seu erro. “Eu não posso aprovar o que ele fez, mas compreendo. Mais que criticar, precisamos encontrar as respostas e corrigir estas situações. Mas esse para mim não foi o momento-chave do jogo, nosso adversário merecia a vantagem independentemente do que aconteceu com nossos goleiros. Não merecíamos o 0 a 0 até aquele momento. Em nenhum instante conseguimos impor nosso estilo de jogo. Existiram muitos imprevistos, mas não podemos justificar a derrota por isso”, finalizou Bielsa. Mais uma vez, sua visão particular sobre o futebol.