*Por Charley Moreira

Quais estratégias um treinador de futebol pode adotar para esconder seu time do adversário? Numa época em que todo detalhe faz a diferença nas vésperas dos jogos, os treinamentos fechados à imprensa, tão comuns na Europa, tornaram-se uma tendência no Brasil. Não por acaso, todas as 20 equipes que disputaram a primeira divisão do Campeonato Brasileiro de 2018 fizeram pelo menos um treino secreto na temporada.

As atividades sem a presença da imprensa viraram um aliado dos técnicos na tentativa de evitar que suas estratégias e jogadas ensaiadas cheguem ao oponente. Por isso, os clubes se preocupam cada vez mais em reduzir o acesso dos jornalistas nos centros de treinamento, sobretudo em vésperas de jogos importantes.

No início deste ano, o treinador Fábio Carille, que acertou recentemente seu retorno ao Corinthians após nove meses à frente do time saudita Al-Wehda, havia reclamado de uma “sabotagem” ao Timão por profissionais da imprensa que cobrem o dia a dia da equipe. “Ano passado, amigos de outras equipes vieram falar: ‘Tomamos um gol que eu sabia que ia acontecer, o pessoal que acompanha o Corinthians passou’”, disse Carille, após a vitória alvinegra por 2 a 0 contra o Palmeiras, em Itaquera, pelo Campeonato Paulista.

Para reduzir o risco de vazamento de informações, grandes clubes do Brasil adotaram nova postura em relação à cobertura jornalística nos centros de treinamento. Os paulistas Corinthians, Palmeiras, Santos e São Paulo diminuíram o número de entrevistas coletivas durante a semana. Atlético-MG e Cruzeiro tiraram o direito de escolha aos jornalistas sobre qual jogador seria entrevistado na coletiva. Corinthians, Flamengo e Grêmio limitaram informações sobre escalação e lista de atletas relacionados. Ceará e Fortaleza fecharam quase todos os treinos de 2018. Tudo na tentativa de evitar que a imprensa divulgue possíveis trunfos dos técnicos.

No entanto, se por um lado os clubes, junto a seus treinadores, adotam essa postura visando mais privacidade, por outro, muitos jornalistas se incomodam com esse tipo de procedimento. Neste ano, um repórter chegou a contestar, em entrevista coletiva após Atlético-MG e Chapecoense ficarem no 3 a 3, em Belo Horizonte, pelo Brasileirão, as poucas informações cedidas sobre os jogadores na Cidade do Galo.

A proposta de vetar os jornalistas de acompanharem as atividades no CT começou a ser aplicada pelo técnico Thiago Larghi desde quando este assumira o posto de Oswaldo de Oliveira, em fevereiro. Porém, como o Galo estava vivendo um momento de pressão à época, a diretoria do clube liberou, quatro dias depois da partida com a Chape, a entrada dos profissionais no CT para assistirem ao treino inteiro – antes, eles tinham acesso somente ao aquecimento dos jogadores.

“Todo o empenho é válido. A partir do momento que o Thiago entende assim, temos que respeitar e aproveitar para criarmos situações que possamos surpreender nas partidas. Vamos, mais uma vez, ter paciência, a imprensa, como também a torcida, que estamos tentando fazer nosso melhor trabalho”, avaliou o volante atleticano Adilson, em entrevista coletiva na Cidade do Galo.

Gustavo Hofman detalhou um treino da seleção brasileira e gerou incômodo aos torcedores (Foto: Reprodução/Instagram @gustavohofman)

O veto à presença da imprensa nos centros de treinamentos parece incomodar, também, os torcedores brasileiros. No ano passado, o jornalista Gustavo Hofman, que cobre a seleção brasileira para a ESPN Brasil, recebeu uma onda de críticas depois que relatou em detalhes uma sessão de treinamento do técnico Tite, em São Paulo.

No seu blog, hospedado no site da ESPN, Hofman descreveu jogadas de bola parada e movimentações táticas no treino da seleção, que se preparava para pegar o Uruguai. Quando o assunto ganhou proporções maiores, o repórter começou a ser hostilizado nos comentários da matéria e nas redes sociais. Para Tite e sua comissão técnica, houve uma “quebra de confiança” na cobertura do jornalista. Depois desse episódio, a imprensa pôde acompanhar apenas 15 minutos dos treinamentos do Brasil.

“Acho que é uma questão cultural. Historicamente, no Brasil, os treinos sempre foram abertos. Boa parte da imprensa sempre trabalhou com treino aberto, além do costume profissional de todos. Com essa nova tendência de treinos fechados, há uma ruptura com o que havia, então vai gerar reclamações, profissionais que não vão gostar dessa situação”, explica Hofman.

Ele ainda garante que “não houve nenhum problema com qualquer jornalista da cobertura [da seleção]” e ressalta que “a parte do treino em que eu relato as jogadas de bola parada era aberta, tinha torcida na arquibancada no CT do São Paulo”.

Hofman também indaga: “Treino é para quem? Jornalista e torcedor ou jogador e treinador? Defendo totalmente a realização de treinos fechados pelos clubes. Logicamente, é necessário um contraponto com a imprensa, com [entrevistas] coletivas, algumas atividades abertas e a possibilidade de realizar matérias especiais. Além do mais, essa situação nos obriga a sermos mais criativos nas pautas cotidianas”.

Se o brasileiro não está habituado com essa nova onda de privacidade adotada pelos clubes, o mesmo não se pode dizer dos europeus. A jornalista Clara Albuquerque, correspondente do Esporte Interativo na Itália, está bem mais acostumada com os treinamentos sem a presença da imprensa. Há quase dois anos baseada em Turim, cidade da Juventus, ela nunca teve acesso aos treinos diários da equipe bianconera ou de qualquer outro time que esteja cobrindo.

Nas prévias de jogos da Champions League, a imprensa tem apenas 15 minutos para fazer imagens e tirar fotos dos jogadores no aquecimento. O mesmo procedimento acontece nas principais ligas do Velho Continente. Na visão de Clara, os jornalistas do Brasil têm certa “antipatia” a treinos onde são proibidos de acompanhar. “O jornalista brasileiro está acostumado a outro modelo. É natural que exista resistência na mudança. Até porque os treinos abertos facilitam o trabalho da imprensa”, afirma a baiana.

A tendência é que os clubes brasileiros limitem cada vez mais o acesso da imprensa nos CTs em 2019. Mas como os jornalistas devem se adaptar a essa mudança, de modo que continuem abastecendo os torcedores com informações do time e sem diminuir a quantidade de conteúdo produzido? De acordo com Clara, será preciso pensar fora da caixinha. “Com treinos fechados, é preciso pensar em outras pautas e até mesmo um outro modelo de reportagens para o dia a dia”, conclui.

Influência europeia

Hábito no futebol europeu, os treinos secretos ganharam destaque na imprensa brasileira durante a Copa do Mundo de 2010, realizada na África do Sul. À época, o então treinador da seleção canarinho, Dunga, blindou os jogadores da mira aguçada dos jornalistas, repetindo a prática dos clubes europeus. Quatro anos depois, Luiz Felipe Scolari, técnico do Brasil no Mundial de 2014, foi mais liberal: permitiu treinos da Canarinho sob olhares de imprensa e torcida na Granja Comary, CT da seleção brasileira. A conduta, entretanto, gerou muitas críticas à preparação da equipe na Copa disputada em terra tupiniquim.

O experiente jornalista Paulo Vinícius Coelho, o PVC, explica a situação no livro Escola Brasileira de Futebol, no capítulo onde faz um raio x do 7 a 1, goleada que a Alemanha aplicou sobre o Brasil na semifinal do torneio. “Dizia-se que ninguém treinava com toda a imprensa e a torcida assistindo. Ninguém viu os treinos sérios da Alemanha porque, após quinze minutos de troca de passes, o técnico Joachim Löw sempre bloqueava o acesso dos jornalistas. Mas beira a leviandade afirmar que, por esse motivo, a Alemanha treinava e o Brasil, não.”

Na Rússia, Tite permitiu que os jornalistas acompanhassem apenas 15 minutos do aquecimento da seleção (Foto: Lucas Figueiredo/CBF)

Já na Copa do Mundo da Rússia, realizada este ano, o atual comandante da seleção brasileira, Tite, e sua comissão técnica criaram um planejamento semelhante ao da Alemanha quatro anos atrás. A imprensa acompanhava apenas 15 minutos do aquecimento dos atletas e, depois, os profissionais se retiravam do local da atividade.

Alisson, goleiro do Liverpool e do Brasil, não vê problema em treinos abertos ou fechados. “As duas situações são válidas”, disse o arqueiro, em entrevista coletiva realizada em Sochi, no dia 12 de junho. “Hoje foi treino aberto, gostamos de ter o carinho do torcedor, o contato com eles, era momento de ter um contato maior. Mas para a nossa concentração é importante ter treino fechado, trabalhar e usar alguma jogada diferente para tentar surpreender adversários”, acrescentou.

A tentativa de copiar o planejamento da seleção alemã em relação à cobertura da imprensa pode ter dado certo, mas, em campo, o Brasil não conseguiu repetir o desempenho dos alemães, que faturaram a taça em 2014. Afinal, a Canarinho caiu nas quartas de final diante da Bélgica. Mas o insucesso do selecionado brasileiro na Rússia não pode ser usado como desculpa por jornalistas e torcedores para a volta de atividades abertas. Isso porque a França, campeã da edição 2018, limitou ao máximo o acesso da imprensa às atividades em solo russo. Assim, fica evidente que reduzir o acesso de jornalistas na tentativa de esconder informações do adversário é um caminho sem volta. Gostem ou não.

* Charley Moreira é formado em Jornalismo pela Centro Universitário Estácio de Belo Horizonte, ex-coordenador de futebol internacional da VAVEL Brasil, administrador da AC Milan Brasil e colaborador da Calciopédia.