Texto publicado originalmente em 25 de dezembro de 2015

Poucas histórias sobre o futebol são tão emblemáticas. A Trégua de Natal de 1914, em plena Primeira Guerra Mundial, se tornou um símbolo sobre a força evidente do esporte para mudar o mundo. Obviamente, há uma série de lendas e exageros envolvendo o episódio, atendendo aos mais diferentes interesses. Mas é fato que a bola (ou qualquer tentativa de se reproduzir uma bola) se tornou um dos propulsores da paz entre os inimigos. Em “terra de ninguém”, britânicos e alemães cruzaram as trincheiras para trocar presentes, abraços e alimentos. Também para jogar futebol.

Existem 29 relatos documentados de 1914 que confirmam a presença do futebol em meio à trégua, ainda que nenhum deles aluda à propagada história de que alemães e britânicos disputaram um amistoso entre si. A afirmação mais precisa, diante dos elementos que existem, é que os bate-bolas se espalharam por diferentes regiões do front. Não exatamente partidas, porque as condições do terreno nem sempre eram as melhores. Mas os soldados deram uma pausa no derramamento de sangue para brincar. Como meninos.

Independente das proporções exageradas que o “conto natalino” tomou nos dias atuais, não dá para negar a sua simbologia. Foi o primeiro grande momento em que o futebol deixou expressa a sua força para interferir na sociedade. Para mudar a realidade. Depois disso, várias foram as guerras que tiveram seus rumos alterados pelo futebol – infelizmente, nem sempre para o bem da população.

Abaixo, reproduzimos a carta de um soldado britânico de Manchester, que jogou futebol nas trincheiras. O trecho foi publicado na época pelo jornal The Guardian. Singelo, ajuda a dar uma ideia sobre o sentimento que tomou o front. De certa forma, também sobre a paz que o futebol ajudou a proporcionar.

Na noite passada, voltamos a nossas velhas trincheiras. Eu cheguei muito tarde, mas tinha que seguir em frente, como sempre faço. Mas fiz isso de maneira especial, porque seria Natal no dia seguinte, e eu gostaria de ver o estado das trincheiras através do meu setor. Se não estivesse tão frio, seria terrível. Mas a crosta estava tão congelada que era confortável. Em alguns pontos, afundava a perna até perto do joelho na lama.

Às 23 horas do dia 24 de dezembro, havia uma paz absoluta. Alguns tiros e giros de uma metralhadora, mas não mais. Começaram a cantar ‘The King’, então você ouvia: “Amanhã é Natal. Se você não lutar, nós não iremos”. E a resposta vinha de volta: “Tudo bem”.

Um oficial conheceu um bávaro, fumou um cigarro e conversou com ele no meio do caminho entre as trincheiras. Então alguns homens começaram a confraternizar da mesma maneira e realmente a paz existiu hoje. Homens conversaram juntos, disputaram uma partida de futebol com lata de carne e houve até um homem que cortou os cabelos de um alemão!