A manutenção de Álvaro Morata e Jesé Rodríguez para a disputa da última temporada parecia um indício de que, finalmente, o Real Madrid passaria a olhar com mais carinho para suas categorias de base. Como era de se esperar, Morata não teve tanto espaço assim, afinal Karim Benzema desempenhou muito bem sua função e abriu pouca brecha para concorrência. Ainda assim, era importante mantê-lo no elenco para, quem sabe aos poucos, dar mais chances ao jovem promissor. Mas tudo isso caiu por terra com a venda do garoto à Juventus, confirmada neste sábado. O Real segue sendo um clube apenas para jogadores já formados, e os próprios termos do acerto de Morata com os bianconeri evidenciam isso.

A Juventus desembolsou cerca de € 20 milhões para contratar Morata. Aos 21 anos, o atacante assinou por cinco anos com o clube italiano, em que terá a concorrência de Llorente e Tevez no ataque. Potencial para eventualmente tomar o lugar do primeiro, Morata tem, e é bem possível que isso aconteça. Como a Juve está frequentemente participando de competições europeias, dá para esperar também que o espanhol consiga bastante bagagem no período em que defender a equipe de Turim. O valor pago pelos italianos dá a entender que o time agora comandado por Allegri não vê Morata apenas como uma opção de banco a curto ou médio prazo, mas, sim, como alguém capaz de se tornar um protagonista ou pelos menos um coadjuvante importante. E é bastante possível que seja isso mesmo que o Real Madrid esteja esperando dessa transferência. Que os outros desenvolvam os próprios atletas dos madridistas, mesmo que isso custe financeiramente ao clube posteriormente.

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Uma das cláusulas colocadas no contrato de Morata é de que no futuro, mais especificamente ao final das temporadas 2015/16 e 2016/17, os merengues tenham prioridade na recontratação do atacante. Se o espanhol estourar em Turim, o Real vai atrás dele. Esse processo não é nenhuma novidade para o time de Madri. Foi assim com Dani Carvajal, vendido em 2012 ao Bayer Leverkusen e recontratado apenas um ano depois, após ótimo desempenho na Bundesliga. Uma outra cláusula deixa ainda mais clara a intenção do Real com a negociação: quanto mais partidas o jogador fizer pela Juventus, maior o valor da futura recontratação, podendo chegar até a € 30 milhões. Um incentivo e tanto para que Allegri o escale.

Embora possa parecer uma estratégia inteligente, vendo da perspectiva de que pelo menos dinheiro ao clube o jogador rendeu, no melhor dos cenários para o Real, em que Morata de fato se concretize como um grande jogador, seu retorno inevitavelmente parecerá um mau negócio. Se a Juve pagou € 20 milhões agora em sua contratação, futuramente o potencial retorno ao Santiago Bernabéu sairá necessariamente mais caro que isso, exatamente como foi com Carvajal.

Valorizar a base nunca foi um aspecto de destaque no Real Madrid. As canteras do clube da capital são capazes, sim, de revelar bons jogadores, como Juan Mata, Sergio Ramos, Soldado e Juanfran nos últimos anos, mas fica difícil criar uma tradição e uma ideia de que a categoria seja importante para o clube se ele não a utiliza de forma direta como outras equipes. Parece que o clube madrileno está destinado a sempre desembolsar muito dinheiro para formar suas equipes. A possibilidade de desenvolver o time sem gastos desnecessários existe, mas a cultura de demonstrar poder através de contratações astronômicas é o que sempre prevalece por lá, e isso seguirá afetando a transição dos jogadores da base ao time profissional.