Detentor de todos os títulos, cinco da Europa e 18 da Inglaterra, naquela época ainda o maior vencedor do país ao lado do Manchester United, dono de um patrimônio imaterial representado por milhões de torcedores apaixonados, de um estádio lendário e de uma história rica preenchida por jogadores da estirpe de Kevin Keegan e Kenny Dalglish, no começo da temporada 2010/11, o Liverpool estava à beira da falência. Tom Hicks e George Gillett haviam contraído £ 282 milhões em dívida desde que compraram o clube, em 2007. A maioria das notas promissórias (£ 237 milhões) era possuída pelo Banco Real da Escócia. Em abril de 2010, a paciência da entidade financeira acabou. Um diretor independente assumiu a presidência para tocar a transição. O prazo para os pagamentos foi estendido até outubro, mas, quando o décimo mês chegou, um comprador ainda não havia sido encontrado. Restaram duas opções: cobrar os empréstimos, o que poderia colocar a empresa que administrava os Reds sob administração e arriscar a perda de nove pontos na Premier League, como havia acontecido com o Portsmouth; ou refinanciar os débitos, enquanto Hicks e Gillett seguiam a involuntária procura por compradores. Dizia muito sobre o momento do clube que muitos torcedores preferiam encarar a falência do que continuar sob as ordens dos americanos. “Construído por Shankly, destruído pelos ianques” era a faixa definitiva nas arquibancadas de Anfield.

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O Liverpool, há muito tempo, havia perdido o seu rumo. O último título inglês havia sido conquistado em 1990, mesma época em que o histórico presidente John Smith, que supervisionou o período mais vencedor da história do clube, decidiu vestir as pantufas da aposentadoria. Um ano depois, David Moores assumiu as rédeas e, apesar da escassez de títulos, administrava um clube saudável financeiramente. Com a chegada de Roman Abramovich ao Chelsea, em 2003, o panorama mudou, e ele percebeu que não tinha os meios necessários para que o clube fosse glorioso novamente e decidiu vendê-lo. Um xeique de Dubai fez a primeira tentativa, mas o negócio emperrou. Em 2007, Hicks e Gillett concretizaram a aquisição por £ 174 milhões. Chegaram falando todas as coisas certas: grande tradição, torcida espetacular, vamos nos divertir, novo estádio, blá, blá, blá. O projeto por uma casa nova para 60 mil pessoas nunca saiu do papel e a administração dos americanos, que romperam entre si no meio do caminho, com cada um tocando seus próprios planos para o Liverpool individualmente ao mesmo tempo, foi uma tragédia. Na época das negociações com o Banco Real da Escócia, os Reds estavam em seu ponto mais baixo da história desde que frequentaram a segunda divisão na década de cinquenta.

A deterioração foi acelerada. Quando Hicks e Gillett chegaram, em fevereiro 2007, o Liverpool estavam se preparando para disputar a segunda final de Champions League em três anos. Perdeu a reprise de Istambul para o Milan, mas o time era promissor. O primeiro mercado sob nova direção trouxe Fernando Torres para Anfield. O segundo, Javier Mascherano. Os donos estavam pagando as contas com empréstimos e não com recursos do próprio bolso. Os resultados de Rafa Benítez eram excelentes, mas mesmo assim Tom Hicks vazou à imprensa que estava pensando em substituí-lo por Jurgen Klinsmann, que à época ainda não tinha treinado um clube na carreira. Com todos os problemas, o Liverpool foi segundo colocado da Premier League em 2008/09. As cisões internas, porém, cobrariam o preço. A temporada seguinte terminou com um sétimo lugar, sem vaga na Champions League. Em “decisão mútua”, Benítez ficou sem emprego. Xabi Alonso já havia saído, e a debandada continuou com Mascherano indo para o Barcelona. Para os seus lugares, vieram Alberto Aquilani e Christian Poulsen. Benítez foi substituído por Roy Hodgson, de bom trabalho no Fulham, mas cujo último título havia sido o Campeonato Dinamarquês de 2001. Não precisava ser um especialista para perceber que o Liverpool havia descido um degrau – ou dez.

A história nos leva ao dia 15 de outubro de 2010. O Liverpool preparava-se para disputar o dérbi de Merseyside, depois do seu pior começo de temporada em décadas. Hodgson havia conseguido apenas uma vitória nas sete primeiras rodadas da Premier League. A última partida havia sido uma derrota, em Anfield, para o Blackpool, e o pentacampeão europeu estava na zona de rebaixamento. Havia sido infligido por feridas mortais e precisava urgentemente de tratamento. Hicks e Gillett recusavam-se a levá-lo ao hospital. Batalhavam na Justiça para manter controle das ações. Tentaram manobras, como remover dois diretores do conselho para evitar que uma venda fosse aprovada. Mas perderam. O novo dono do Liverpool emergiu de uma firma de advocacia chamada Slaughter and May, no centro de Londres. John Henry, dono do Boston Red Soxs, havia completado a compra por £ 300 milhões e eliminado as dívidas pendentes. O clube de Shankly e Paisley, de Keegan e Dalglish, de Owen e Gerrard agora era da New England Sports Ventures, que mudaria de nome para Fenway Sports Group.

Moneyball 
Dalglish apresenta Carroll e Suárez (Foto: Getty Images)

Na penúltima cena do filme Moneyball (2011), Billy Beane, interpretado por Brad Pitt, visita o Fenway Park e recebe uma proposta milionária do dono do Boston Red Sox. E diz para ele: “Qualquer um que não estiver desmembrando seu time agora mesmo e o reconstruindo usando seu modelo é um dinossauro”. O roteiro dos vencedores do Oscar, Steven Zaillian, por A Lista de Schindler, e Aaron Sorkin, por A Rede Social, foi baseado em fatos reais. A proposta de fato existiu e, como na ficção, Beane a recusou para continuar o seu trabalho no Oakland Athletics, franquia com pouco orçamento que havia conseguido chegar aos playoffs, com uma sequência histórica de 20 vitórias, baseando-se em uma política diferente de recrutamento, que se apoiava mais em números e estatísticas do que em intuição. Henry não conseguiu o homem que queria, mas quebrou a Maldição do Bambino e conquistou o primeiro título de World Series do Red Sox em 86 anos. Fã da estratégia do Moneyball, tentou levar alguns dos seus conceitos para o futebol e inclusive tinha Beane como o seu “primeiro conselheiro para assuntos de futebol” em Anfield.

Henry contratou Damien Comolli para executar a sua visão. Como diretor de futebol do Tottenham, o francês havia contratado, entre outros jogadores, Gareth Bale. E, além de tudo, era próximo de Billy Beane, fã dos Spurs. “Conversamos longamente, desde 2006, sobre a aplicação de dados tanto no futebol quanto no beisebol. Tudo que venho tentado fazer vem do que o Oakland Athletics vem fazendo em termos de coletar e usar dados”, disse Comolli, quando ainda estava no White Hart Lane. Ele parecia mesmo a pessoa certa, mas a sua primeira janela de transferências em Anfield, também a primeira vez em que os novos donos foram às compras, foi um histórico desastre – com uma decisão muito acertada. Começou com a demissão de Roy Hodgson, o que pouca gente lamentou. O Liverpool havia escapado das últimas posições, mas ainda amargava o meio da tabela. Kenny Dalglish era embaixador do clube, nomeado na era Benítez, e aceitou retomar o cargo de técnico, ao qual havia renunciado em circunstâncias chocantes em 1991, até o final da temporada. Luis Suárez foi contratado do Ajax. O último dia da janela, porém, foi o caos. Torres conseguiu a transferência que buscava, vendido por £ 50 milhões para o Chelsea. Desesperado por uma reposição para o ataque, os Reds gastaram £ 35 milhões em Andy Carroll.

A segunda janela foi pior ainda. Seja pelo apego ao Moneyball ou por uma interpretação equivocada de estatísticas, o Liverpool desembolsou quase € 60 milhões em Stewart Downing, Jordan Henderson e Charlie Adam. Com um grande (de tamanho) centroavante contratado, a busca foi por jogadores que pudessem abastecê-lo. Pelos números, Downing era um dos homens que mais cruzava na Inglaterra; Henderson, um dos que mais criava oportunidades; e Adam era ótimo na bola parada. O que escapou o olho analítico do novo diretor de futebol é que Downing completava apenas 24% dos seus cruzamentos e tinha uma taxa de conversão de chances criadas de apenas 9%. Henderson, apesar de promissor, teve apenas quatro assistências em 37 partidas na campanha anterior. Os números são importantes, e são utilizados por todos os clubes grandes hoje em dia, mas precisam ser aplicados corretamente.

“Eu não acho que ninguém usou alguma vez a palavra Moneyball no Liverpool, mas muitas outras pessoas a usam”, disse o diretor Ian Ayre, à Sports Illustrated, em 2013. “Acho que a mudança fundamental em torno da contratação de jogadores é que tomamos uma visão de que ela precisa ser mais uma ciência. Seu maior gasto não pode ser baseado no capricho de um indivíduo. O que acreditamos, e continuamos a fazer, é envolver várias pessoas no processo. Apesar do que muitos pensam e leem, não são vários caras sentados atrás de um computador definindo quem comprar. É uma combinação de observação da velha guarda com análise estatística de jogadores ao redor da Europa e do Mundo. Trazendo esses dois processos juntos, você tem uma visão muito mais educada do que deveria ou não comprar”. Ayre contou, nessa mesma entrevista, que a nova diretoria do Liverpool passou por um período de aprendizagem. “A realidade é que houve duas fases desde a transição de poder. Na primeira fase, como em toda grande transição desse tipo, falamos sobre o conhecimento de futebol, e isso leva tempo. Então, provavelmente passamos um ano com os donos precisando confiar, até certo ponto, no que outras pessoas falavam que eles deveriam fazer. Depois daquele ano, chegamos a uma situação em que a poeira havia abaixado e as pessoas começaram a ver o que estava ou não estava funcionando”.

Eventualmente, para ser justo, eles pegariam o jeito da coisa. A nova política do Liverpool seria mais bem calibrada – e equilibrada, entre números e observação. Além de Suárez, traria jogadores como Daniel Sturridge e Philippe Coutinho por preços módicos. E, apesar dos problemas iniciais, Henderson virou capitão da equipe e nome incontestável. Mas, naquela temporada, ele marcou apenas duas vezes e deu dois passes decisivos. Downing não deu sequer uma assistência. Carrol fez quatro gols. E Comolli reembolsou o dinheiro mau gasto com o seu emprego: foi demitido em abril. Com todos os problemas, Dalglish, efetivado, havia conseguido dar um jeito no time. Saiu do buraco cavado por Hodgson e terminou a Premier League em sexto lugar. Na temporada seguinte, foi oitavo, mas chegou à final das duas copas inglesas. Conquistou a Copa da Liga, primeiro título do Liverpool desde 2006, mas perdeu a decisão da FA Cup. Ao fim da campanha, a diretoria do Liverpool tomou uma decisão que, certa ou errada naquele momento, a assombrou por algum tempo, uma medida que ninguém nunca havia tomado e que não pegou bem com os torcedores: demitiu Kenny Dalglish.

Comitê de transferências 
Brendan Rodgers com Philippe Coutinho (Foto: Getty Images)

John Henry e sua turma foram criticados pelo tratamento dado a Dalglish, a maior lenda viva do clube. Mas não estavam exatamente errados. Muito vencedor nos anos oitenta, o escocês já tinha 60 anos e não treinava nenhum clube desde 2000 quando, após a demissão de Hodgson, aceitou assumir o Liverpool emergencialmente. Com todo o respeito que merecia, não encaixava na visão que os americanos queriam introduzir ao clube. Brendan Rodgers era outra história. Jovem, moderno e com a fama de desenvolver jovens jogadores, como os que a Fenway Sports Group queria contratar. Mas foi difícil convencer o norte-irlandês. As duas primeiras abordagens foram rechaçadas. Apenas na terceira Rodgers aceitou o cargo. O problema era a estrutura do futebol. A diretoria do Liverpool queria trazer Louis van Gaal para o lugar de Damien Comolli, misturando experiência e juventude. Rodgers queria total controle dos assuntos do time principal e acabou vencendo a queda de braço. Mas não seria soberano nas transferências. Ao lado dos olheiros Barry Hunter e Dave Fallows, trazidos do Manchester City, do executivo-chefe Ian Ayre e do chefe de desempenho e análise Michael Edwards, seria formado o comitê de transferências.

Este grupo de pessoas esteve muito presente na boca da imprensa e do público durante a era Rodgers, principalmente na reformulação do time após a venda de Luis Suárez. E, como vocês já podem imaginar, não foi para receber elogios. Funcionava assim: nenhum jogador era trazido sem o aval do treinador, mas houve várias ocasiões em que ele não conseguiu convencer os outros membros do comitê a buscarem os alvos que desejava. Em outras ocasiões, era obrigado a escolher entre uma lista que constavam a terceira ou a quarta opção para reforçar uma posição. A reposição de Suárez é o melhor exemplo. Rodgers queria Alexis Sánchez. Quando o chileno foi para o Arsenal, precisou escolher entre Mario Balotelli e Samuel Eto’o. Ficou com o italiano. Naquela mesma janela, suas prioridades para a defesa eram o lateral esquerdo Ryan Bertrand e o zagueiro Ashley Williams. Os nomes, porém, feriam a política de contratar jovens da diretoria. Chegaram Alberto Moreno e Lovren.

Rodgers foi o que mais chegou perto de conquistar a Premier League pelo Liverpool, desde o título inglês de 1990. Em sua primeira temporada, recebeu a permissão para contratar dois jogadores com os quais havia trabalhado no Swansea: Fabio Borini e Joe Allen. O Liverpool começou mal a temporada, com apenas três vitórias nas primeiras 14 rodadas. Foi eliminado cedo nas duas copas inglesas e perdeu para o Zenit, no primeiro mata-mata da Liga Europa. Em janeiro, vieram reforços mais importantes. Daniel Sturridge e Philippe Coutinho reforçaram o ataque, e os Reds tiveram uma boa reta final de Premier League. Mas o sétimo lugar não garantiu vaga em competições europeias. E Luis Suárez, pelo segundo dos seus três incidentes dentários, foi suspenso por dez partidas. Durante o mercado de transferências, tentou forçar a barra para sair. O Arsenal acenou com a famosa proposta de £ 40 milhões + £ 1, o que acionaria a cláusula de rescisão do uruguaio. Mas não houve negócio, e Suárez ficou em Anfield. De fora, vieram Iago Aspas e Luis Alberto que passariam a maior parte da temporada no banco de reservas. Simon Mignolet assumiu o gol, e Mamadou Sakho chegou no dia do fechamento da janela.

A ausência de competições europeias acabou se provando uma benção para o Liverpool. Rodgers encaixou um ótimo time titular, com Gerrard em um papel mais recuado, acompanhado de Lucas Leiva ou Henderson. O ataque entrosou-se rapidamente com Suárez, Coutinho, Sturridge e o jovem Sterling. Sem precisar poupar jogadores, já que também foi eliminado rapidamente das copas inglesas, o Liverpool tinha as pernas mais frescas da Inglaterra e emendou uma sequência de 11 vitórias na Premier League, incluindo um eletrizante 3 a 2 contra o Manchester City, adversário direto pelo título. Mas, a três rodadas do fim, esbarrou no ônibus estacionado por Mourinho em Anfield, e Gerrard escorregou. Demba Ba aproveitou para fazer 1 a 0, e Willian ampliou. A partida contra o Chelsea é considerada o momento em que o Liverpool deixou o título escapar. Permitiu ao City igualar os 80 pontos do Liverpool. Mas o desastre contra o Crystal Palace foi ainda mais significativo. Os Reds abriram 3 a 0 e levaram o empate, com três gols depois dos 34 minutos. O City abriu dois pontos de vantagem e precisaria perder, em casa, do West Ham, para não ser campeão. Ganhou facilmente por 2 a 0.

A decepção foi dolorosa. No entanto, não dava para ignorar que algo acontecia em Anfield. O Liverpool tinha uma equipe jovem, talentosa e empolgante. Um ataque avassalador. Havia sido vice-campeão inglês e retornado à Champions League pela primeira vez desde a era Rafa Benítez. Era apenas uma questão de construir em cima do sucesso. Bastava não errar na janela de transferências e, se você conhece a história, já deve estar rindo a esta altura. Depois da Copa, Suárez foi para o Barcelona, por € 80 milhões. Mas o dinheiro foi muito mal investido. Vieram oito jogadores, todos da linha preferida da nova administração: jovens com potencial. O erro de cálculo é que o time havia perdido um dos melhores jogadores do mundo. A não ser que um desses oito fosse um fenômeno, a equipe evidentemente cairia de rendimento. O que mais deu certo do pacotão foi Emre Can, titular na atual temporada com Klopp. Lallana demorou para engrenar e, quando conseguiu, começou a sofrer com lesões. Lovren joga frequentemente na defesa, sob críticas ferozes dos torcedores. Markovic mal teve oportunidade antes de embarcar em uma Eurotrip, emprestado para todos os cantos do continente. Balotelli foi um fracasso, Divock Origi teve alguns momentos, mas saiu por empréstimo, e Rickie Lambert não durou mais do que um ano.

A temporada em que o Liverpool deveria dar um passo à frente acabou sendo um retrocesso. Desfigurado, sofreu na primeira metade da temporada, com seis derrotas nas primeiras 12 rodadas. E foi eliminado na fase de grupos da Champions League. Ficou atrás do Basel e teve uma participação vergonhosa no jogo de volta contra o Real Madrid. Ao levar ao Santiago Bernabéu uma equipe reserva, praticamente abriu mão do resultado e deixou claro que não estava à altura do desafio. Rodgers eventualmente conseguiu arrumar o time, e os Reds terminaram em sexto. Mas o fim da campanha foi uma humilhante derrota por 6 a 1 para o Stoke City. A última partida de Gerrard pelo Liverpool.

The “Normal One”  
Klopp (Foto: Getty Images)

Houve vários motivos para demitir Brendan Rodgers, em outubro de 2015. A campanha da temporada anterior foi o mais forte deles, quando ele se mostrou incapaz de reconstruir a equipe que havia perdido Suárez e subir o patamar que se esperava. Outro problema foi a questão Gerrard. Em janeiro, o capitão anunciou que não renovaria o seu contrato com o Liverpool, mas disse, dias depois, que teria ficado se tivesse recebido uma proposta de extensão no começo da temporada. Por que, então, isso não aconteceu? A culpa pode não ter sido de Rodgers, mas também não houve garantias de que o experiente meia teria um tempo de jogo razoável no futuro, apesar de a temporada 2013/14 havia sido uma das melhores da sua carreira. Gerrad também disse que ficaria se lhe fosse oferecido um papel na comissão técnica. De qualquer forma, também não pegou bem com a torcida. E, no mercado, estava um homem que parecia perfeito para levar o clube adiante. Um treinador carismático, experiente e vencedor, com as características perfeitas para desenvolver o projeto da Fenway Sports Group.

Quando Jürgen Klopp anunciou que encerraria sua longa passagem pelo Borussia Dortmund, os rumores foram imediatos. Rodgers seria demitido, e Klopp seria contratado pelo Liverpool. Houve uma detalhada revisão da temporada feita pela diretoria. A decisão foi pela permanência do norte-irlandês. Houve mudanças na comissão técnica em torno dele, mas Rodgers ganhou uma sobrevida. Inclusive com mais poder no mercado de transferências. Benteke, Clyne e Milner foram suas escolhas – Roberto Firmino, nem tanto. Outro começo ruim de temporada, porém, foi determinante. O Liverpool conseguiu apenas três vitórias nas primeiras oito rodadas da Premier League. O empate por 1 a 1 com o Everton foi a gota d’àgua. Apenas quatro dias depois da demissão, Klopp foi anunciado. Chegou pedindo paciência. Acreditava ser possível ganhar títulos em quatro anos e se chamou de “Normal One”, em contraste a Mourinho, o “Special One”. E passou a mensagem: “Temos que mudar quem duvida para quem acredita”. O resto da temporada foi empolgante, com vários placares bailarinos, como 3 x 3 contra o Arsenal e 5 x 4 com o Norwich. Mas a incapacidade de administrar resultados motivou tropeços indesejáveis, contra Sunderland, Southampton e Newcastle – os Reds chegaram a abrir 2 a 0 nesses três jogos e terminaram com dois empates e uma derrota -, o que custou a vaga na Champions. Conseguiu chegar a duas finais, na Copa da Liga e da Liga Europa. E perdeu as duas.

O passo mais importante veio na sua primeira temporada completa à frente do Liverpool, com uma equipe mais ao seu feitio, esboçou uma briga pelo título, até um mês de janeiro desastroso despedaçar as esperanças. Mas terminou a Premier League em quarto lugar e conseguiu classificação à Champions League, feito que repetiria nesta temporada. Além de chegar à decisão europeia. Como a Fenway Sports Group, Klopp também gosta de moldar talento bruto, em vez de gastar altas somas pelo produto pronto. Não que nunca tenha feito isso: Virgil Van Dijk chegou com 26 anos, por quase € 80 milhões. Mas Klopp tem a característica que casa perfeitamente com os planos de John Henry. Ao longo de três anos de trabalho, reformulou a equipe quase completamente. Mandou muitos jogadores embora, arrecadando € 243 milhões (segundo dados do Transfermarkt) para os cofres do Liverpool. Grande parte foi a venda de Coutinho para o Barcelona, por € 120 milhões à vista, mais € 40 milhões em variáveis. Contratou 11 peças, por um total de € 254 milhões – sem contar as luvas dos contratos de Matip e Solanke, que estavam soltos no mercado. Quase elas por elas. Nesse processo, montou o ataque mais temido da Europa, devolveu o Liverpool à decisão da Champions League, onze anos depois da última, e foi o homem que, enfim, conseguiu concretizar a visão dos americanos que salvaram o clube da falência naquele outubro de 2010.

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