Trabalho de Roger foi decepcionante, mas o Galo também precisa saber o que quer

O técnico foi demitido depois de um trabalho questionável tanto no desempenho quanto nos resultados

Roger Machado era o técnico mais cobiçado do Brasil no final do ano passado. O Palmeiras, que havia acabado de se tornar campeão brasileiro, o queria para substituir Cuca. O Fluminense também estava interessado. No entanto, o Atlético Mineiro foi mais rápido e compôs uma combinação promissora: seu elenco caro e estrelado com um técnico que havia feito um grande trabalho no Grêmio. Não deu certo. Após a derrota para o Bahia, em casa, na última quarta-feira, Roger foi demitido, depois de uma passagem decepcionante por Belo Horizonte.

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A campanha no Brasileirão está muito longe do que se esperava. Dos três clubes apontados como favoritos antes do início do torneio, o Atlético Mineiro é, de longe, o pior deles, com cinco vitórias, cinco empates e cinco derrotas, na 11ª posição. Está a 17 pontos do líder, embora quase todo mundo esteja mais ou menos próximo da zona da Libertadores. Pior do que isso, é a ausência de um coletivo que funcione de maneira aceitável, principalmente no ataque.

A missão de Roger era organizar uma equipe cujos melhores resultados nos últimos anos, com Cuca, Levir Culpi e Marcelo Oliveira, foram conquistados com um estilo de jogo que deixava o torcedor com o coração no céu da boca. Defesa aberta e abafa na frente, sempre com muita intensidade. O gaúcho era uma boa escolha para isso porque havia conseguido fazer o Grêmio jogar coletivamente, com troca de passes e equilíbrio, apesar de recursos modestos. No Galo, encontraria mais talentos à disposição.

Mas, no aperto, o Atlético Mineiro voltou a apostar no abafa. É a equipe que mais erra cruzamentos no Campeonato Brasileiro, com 356, média de 23.7 por partida. Chegou a incríveis 63 bolas cruzadas na derrota por 1 a 0 contra o Atlético Paranaense, apenas oito corretamente. Contra o Bahia, o padrão se repetiu: 44 errados, apenas nove certos. A prática está distante do discurso de jogo apoiado e trabalhado que Roger adotou desde sua chegada a Minas Gerais, como mostra este texto do colega Vinicius Grissi.

Seu maior erro talvez tenha sido não conseguir se adaptar ao elenco que tinha em mãos. A dupla de ataque principal – Fred e Robinho – não consegue liderar a pressão constante à saída de bola do adversário. No Grêmio, funcionou mesmo com Douglas, outro veterano, mas era apenas um, e o resto da equipe comprou a ideia de preservá-lo, até porque suas características auxiliavam na armação e na construção consciente no setor ofensivo. Os meias do Galo, como Cazares, Otero, Marlone e Valdivia, mesmo Elias, são mais agudos, de velocidade e chegada na área.

A equipe que terminou a fase de grupos da Libertadores em evolução, com boas vitórias sobre o Libertad – embora também tenha tido problemas de criação nesta partida -, estagnou, e Roger vinha conseguindo lidar com a pressão crescendo nos grandes jogos. Principalmente contra o Cruzeiro, que venceu na final do Mineiro e no primeiro turno do Brasileirão. Desde aquele 3 a 1, no entanto, ganhou apenas do Atlético Goianiense, em cinco partidas, e saiu atrás nas oitavas de final da Libertadores, com derrota por 1 a 0 para o Jorge Wilstermann, fora de casa.

O Atlético Mineiro precisa pensar com cuidado o próximo passo. A primeira medida é decidir o que quer da vida. Desde a saída de Cuca, tem apostado na tática da tentativa e erro. Foi de Paulo Autuori para Levir Culpi, de Aguirre para Marcelo Oliveira, e de Oliveira para Roger. Todas as trocas representarem rupturas de estilo de jogo. E se é isso que a diretoria pretende, precisa ter paciência. E não digo com um técnico específico: se os resultados clamarem por uma demissão, o que geralmente é questionável, que pelo menos o profissional seguinte tenha um perfil parecido ao do seu antecessor.

E Roger não pode ser descartado. Tem muitos bons predicados, mas precisa entender o que deu errado no Atlético Mineiro. Era uma chance de se firmar entre os principais nomes da prancheta no país e o resultado foi decepcionante, tanto no desempenho, quanto nos resultados.