Totti: “Me ofereceram tudo para ir para o Real Madrid, um salário alto, a camisa 10”

Craque da Roma comentou sobre uma das propostas do Real Madrid, que aumentaria seu salário e lhe daria a camisa 10.

O maior ídolo da história da Roma, Francesco Totti, deu uma boa entrevista à revista Libero, da qual é capa (você vê abaixo). O antigo camisa 10 da Roma contou sobre uma proposta da Lazio quando ainda estava na base, sobre a relação com Antonio Cassano, sobre ganhar um título com a Roma e sobre as propostas para ir ao Real Madrid.

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“Foram ao menos duas vezes. Lembro de uma delas, acho que em 2003. Me restava um ano de contrato. Tive alguns problemas com o presidente e o Real Madrid me oferecia o que quisesse para estar ali. Me pagavam € 12 milhões líquidos e mais metade dos direitos de imagem. Era um total assim como 20, 25 milhões. E muito dinheiro para a Roma”, contou o italiano.

“Eu, entre umas coisas e outras, tinha a intenção de ir, com uns 80% de possibilidades. Além disso, não era o melhor momento com a Roma. Me ofereceram muito, qualquer coisa, também a camisa 10 de Figo, que iam vender para a Inter (Figo só foi para a Inter dois anos depois, em 2005). Ali estava Raúl, o capitão, símbolo do Real Madrid, que era quem mais ganhava. Qualquer jogador que chegava tinha que ganhar menos que ele”, continuou.

“Eu pensei muito. Ilary [sua então namorada, que se tornaria sua esposa] me disse que abandonaria seu trabalho e vinha comigo. No final, Sensi [ex-presidente da Roma] falou comigo, esclarecemos tudo… E eu fiquei. Foi uma escolha de coração em que pesava muito a minha família, os amigos, a torcida, a Roma. Tive a sensação de fazer algo diferente do que normalmente fazem os demais, que não recusam clubes deste tipo”, contou ainda o ex-jogador.

“Me sentia um grande jogador e, ao mesmo tempo, diferente. Com amor por uma camisa. Jogar com eles, pertencer a este grupo era fantástico. Logo, se não se jogava de início, pois não tinha problema. O Real Madrid não é um clube normal. Todo mundo gostaria de ter jogado ali com eles”, continuou o lendário jogador romanista.

Torcedor desde pequeno

“Sempre fui torcedor da Roma. Foi meu sonho colocar essa camisa, o número 10, a braçadeira de capitão. Quando alcancei, quis conversar sempre muito bem. Esta é a sorte que tive e respeito a outros muitos. Se acrescentar que estou na cidade mais bonita do mundo… Mar, montanha, sol, amigos, família… Eu não trocaria por nenhuma outra”.

Proposta da Lazio ainda nas categorias de base

“Minha mãe era torcedora da Lazio por causa da minha avó. Eu estava no Lodigiani, chamaram meus pais e meu irmão Riccardo para comentar estas opções. Eu não tive dúvida, porque meu pai e meu irmão eram torcedores da Roma. Escolhi a Roma, mas eles queriam a Lazio porque pagavam. Por sorte, foi a melhor escolha possível”.

Um abusado Cassano – mas não com Totti

“Cassano é como um irmão menor. Veio para a Roma por mim, porque disse que eu era seu ídolo. Tinha proposta da Juve, que queria ir, mas escolheu a Roma. Queria jogar comigo, estava apaixonado pelo meu futebol. Não teve uma infância fácil, assim quando chegou à Roma eu o levei à casa dos meus pais”, declarou o ex-jogador.

“Tirando eu, Batistuta ou Samuel, os demais ele massacrava. Zebina, Delvecchio, Tommasi… Quando eles erravam um passe, ele dizia ‘Vai trabalhar na farmácia’. Te fazia compreender que personalidade tinha. Ele era jovem e encarava com gente que treinava há anos”, continuou.

“É claro que ele errava, porque há de se respeitar sempre. Mas o conhecíamos e já sabíamos como era. Simplesmente o aceitamos. Às vezes era inclusive exagerado, porque não tinha limites, filtros, freios. Quando começava, não parava. Com Capello discutiu milhões de vezes. Correram atrás um do outro no campo de treinamento. Eu vi cenas incríveis, mas Fabio o amava porque sabia que era um fenômeno. Capello queria bons jogadores, com caráter, e Cassano era um”, contou ainda o antigo jogador da Roma.

Aposentadoria

Totti se aposentou em 2017, depois de uma temporada atribulada em que se desentendeu com a diretoria e o treinador. O jogador mais foi aposentado do que se aposentou, o que gerou críticas da torcida à diretoria em relação à gestão que foi feita desse final de carreira do camisa 10, assim como também aconteceu logo depois, com Daniele De Rossi.

“Sou coerente comigo, com meu físico e minha cabeça. Sei que há um início e um fim. Mas há jogadores como Messi, Ronaldo, eu… Com direito a decidir. Eu estaria muito bem na Roma ainda hoje, mas não porque sou Totti, mas por causa do ambiente, jogadores, experiência, marketing, tudo. E ele também não precisaria jogar todos os jogos, mas um sim, três não, 20 minutos em um, as Copas…”, explicou.

Ganhar um título na Roma é especial

“É especial porque se ganha a cada 20 anos. Infelizmente é uma realidade. Quando a Juve ganha, celebra só uma noite, a de domingo. Na segunda, tudo acaba. Já nós, como ganhamos com Capello, comemoramos em Roma por três ou quatro meses. Uma festa sem parar. Porque não estamos acostumados. Não somos o Real Madrid ou o Barcelona, fortes também na Europa. Se ganhamos três ligas seguidas, talvez na terceira acaba essa euforia”.

O treinador é fundamental

“Cada um tem uma opinião. Para mim o treinador é fundamental, mais como um gestor do que como capacidade de treinar. Se você tem um elenco de 20 estrelas, não é difícil dizer a um deles que precisa fazer uma diagonal. Eu, se fosse treinador, diria: ponha a sua camisa e jogue. O que Zidane pode dizer a Sergio Ramos? Que faça isso ou outra coisa? Não. Eu tenho que gerir o grupo. Ao estilo Mourinho, pronto, inteligente. Se assume toda a responsabilidade e libera a equipe. Para mim, esse é o conceito de grande treinador”.

Admiração por Zidane

“Acho que Zidane é um dos cinco jogadores de todo o mundo que fizeram uma torcida enlouquecer. Completo, era elegante, faia o que queria. Tinha uma cabeça, uns pés, um espírito diferente do resto. Eu olhava, admirava e dava graças à vida por me dar essa oportunidade”, contou Totti, elogiando um jogador que, embora mais velho, foi seu contemporâneo.

Falta de privacidade

“Por uma parte é bonito [ser Totti], mas por outra é complicado. Sobretudo na vida privada. Quando você joga, se expõe, mas é isso. É o seu trabalho, você assumiu, ponto final. Mas a vida privada, como disse ao longo da entrevista, é bem limitada. Eu teria que ir a Cuba, longe do mundo. Porque em cidades como Londres, Madri, Barcelona quando vou de férias é um massacre enorme. Também na China. Espero que dentro de 10 anos seja mais tranquilo. Até me esquecerem em Roma, eu não sei, ainda engordo ou perco o cabelo. Eles podem não me reconhecer”, disse o jogador, como se Totti algum dia fosse ser esquecido, sendo o maior ídolo da história da Roma.

Um dado curioso da sua falta de privacidade é que Totti nem sempre pode aproveitar coisas da própria cidade. “O Coliseu eu entrei pela primeira vez há uns três ou quatro anos. Parece surrealista porque tenho mais de 40 anos aqui. E o mesmo com a Via del Corso, onde fará quase 30 anos que fui”, contou.