É pouco provável que você saiba quem é Joe Lewis. Uma consulta à Wikipedia revela que se trata de um empresário da área de câmbio que ficou muito rico ao apostar contra a Libra em 1992. Curiosamente, a página sobre ele não revela que ele é o dono do ENIC Group, portanto, dono do Tottenham Hotspur.

Ninguém é obrigado a saber quem é o dono de cada time grande da Inglaterra, mas é provável que a maioria dos torcedores saibam quem são Abramovich, os Glazers, Stan Kroenke, John Henry e o Xeique Mansur (ou Mansour bin Zayed Al Nahyan, nome completo sem o cargo, por assim dizer). Do Tottenham, porém, fala-se de Daniel Levy, que não é o dono do time.

“Senhor jornalista, é isso o que se chama no jargão da sua profissão de ‘nariz de cera’, dois parágrafos no início do texto com informação totalmente desnecessária?” Não, amigo, calma. Vou chegar lá, vou falar do time. É importante mencionar Joe Lewis e sua ausência por um motivo simples: há muitos e muitos anos diz-se na Inglaterra que Lewis não faz questão de ser dono do Tottenham, e que só não vendia o time porque White Hart Lane não ajudava no valor do clube.

Pois bem: o Tottenham agora tem um dos estádios mais bacanas (e lucrativos) da Europa. Por cima disso, tem um time que, sem gastar quase nada, é vice-campeão da Europa e vai jogar a Champions League pela quarta vez consecutiva. Se a questão era conseguir um bom preço pelo ativo, pode não haver momento melhor.

É muito difícil imaginar que o Tottenham possa conseguir se manter no mesmo nível gastando o que tem gasto. Muito se falou sobre, nesta temporada, o clube não ter contratado ninguém, mas não é só isso: quando comparamos o que cada um dos “Big 6” da Inglaterra gastaram a mais do que arrecadaram em transferências, o Tottenham gastou nada mais que £ 26 milhões. O Liverpool, o segundo que gastou a menos, gastou £ 183 milhões – 8,7 vezes a mais. O City, o que mais gastou, gastou £ 561 milhões – 26,7 vezes o valor gasto pelo Tottenham.

Se é verdade que os Spurs tinham gasto um bom dinheiro pouco antes disso com jogadores como Eriksen, também é verdade que vinham de uma arrecadação monstruosa com Bale, Modric, Berbatov e Carrick, entre outros.

O resultado disso é que, enquanto o Liverpool tem Salah, Mané e Firmino em campo e um banco bem estofado, o Tottenham não tinha reserva para Harry Kane (Llorente não conta, obviamente) e teve que jogar com Winks meia-bomba por também não ter reservas para o meio-campo.

Daniel Levy se tornou famoso na Inglaterra pelo faro para achar talentos como Bale, Modric, Vertonghen e Alli, mas também por ser um vendedor implacável, tirando dos compradores a maior quantidade de dinheiro possível – o United pagou £ 34 milhões por Berbatov, que chegara dois anos antes por £ 14 milhões; Bale, comprado por £ 13 milhões, saiu por £ 90 milhões. Pode ser, e tem sido, suficiente para se estabelecer entre os seis grandes, para manter uma regularidade na Champions, mas não basta se o time quiser ganhar títulos.

O Tottenham precisa de reserva para Kane, mas também precisa de mais um par de craques que possa desequilibrar o jogo com frequência – a não ser que alguém acredite que Lucas passará a ser esse cara. O brasileiro, assim como Son, foi fundamental nesta temporada, especialmente na semifinal da Champions League, mas, como o companheiro sul-coreano, não é um jogador que comparece toda rodada para garantir os pontos que levam a títulos.

Nos últimos anos, Liverpool e Manchester City têm transformado o dinheiro gasto em dominância. O Chelsea também tem resultados para mostrar, e esse ano ganhou a Liga Europa, além de encerrar a liga à frente dos Spurs. Arsenal e Manchester United têm gasto muito e entregado pouco, e é aí que está o problema: não há mal que dure para sempre, e ambos não vão continuar ruins para sempre.

Manter-se no Big 6 pode até não ser difícil para os Spurs, mas a meta já não é mais só essa. O Tottenham precisa gastar, e não há nada que indique que Joe Lewis está disposto a abrir a carteira – até porque ela não tem o tamanho das carteiras dos citados acima. Para o torcedor, a esperança é que ele finalmente faça o que quer fazer há tempos. Com estádio novo e final de Champions, no currículo, é provável que tenha chegado a hora.

Gastos com transferências na Premier League
por temporada, em milhões de libras
18/19 17/18 16/17 15/16 14/15 Total
Man City 69 285 192 187 79 812
Chelsea 189 234 119 81 124 747
Man Utd 74 178 166 140 175 733
Liverpool 163 156 72 136 136 663
Arsenal 73 137 101 23 107 441
Tottenham 0 109 75 63 43 290
Saldo entre compras e vendas de jogadores
18/19 17/18 16/17 15/16 14/15 Total
Man City 23 200 160 126 52 561
Chelsea 46 137 124 48 131 486
Man Utd 67 -3 92 21 82 259
Liverpool 133 54 21 -3 -6 199
Arsenal 129 -18 -5 31 46 183
Tottenham -4 15 28 -15 -3 21

Fonte: Transfermarkt.co.uk