O incidente de Hugo Lloris no final de semana, no jogo entre Everton e Tottenham, segue dando o que falar na Inglaterra. A decisão do Tottenham de deixar o francês seguir na partida após sofrer uma concussão irritou uma entidade especializada em lesões cerebrais e o médico-chefe da Fifa, Jiri Dvorak, que classificaram o clube como “irresponsável”. A série de más decisões dentro do White Hart Lane prosseguiu. Primeiro, André Villas-Boas elogiou a teimosia do goleiro, em vez de desencorajar uma atitude tão arriscada. E para o jogo desta quinta pela Liga Europa, a presença de Lloris não foi descartada pelo treinador até o último instante, o que desrespeita uma orientação da Fifa para que o atleta que sofrer alguma concussão fique fora de partidas por cinco dias. Brad Friedel acabou sendo escalado, mas apenas o fato dos Spurs terem considerado utilizar Lloris incomodou muita gente.

O técnico português tem lidado com a repercussão do caso da pior maneira possível. Além de não se dizer arrependido por ter mantido Lloris em campo e de ter elogiado a postura do goleiro de querer continuar, saiu em defesa dos também irresponsáveis médicos e fisioterapeutas do Tottenham e, mais recentemente, atacou Romelu Lukaku, afirmando que o belga poderia ter tirado o pé no lance: “Não questiono a integridade do Lukaku, mas ele poderia ter, perfeitamente, pulado”.

Fica claro que a intenção do português é de transferir a responsabilidade para o outro lado. Roberto Martínez, treinador do Everton, saiu em defesa de seu atacante. “Tudo que o Romelu (Lukaku) fez foi seguir a corrida, não dá para ele desaparecer”, afirmou, em declaração publicada pelo Independent.

Ainda assim, Martínez foi um pouco corporativista ao comentar a totalidade do caso e disse que a situação coloca os treinadores em posição complicada. “Não acho que deveria ser decisão do técnico tirar o jogador ou não. Se há uma forte opinião por parte dos médicos de que quando um jogador sofre uma concussão ele deve sair, então acho que deveríamos investigar isso e tornar isso uma regra.“

O espanhol foi adiante e fez inclusive uma sugestão: “Seria muito mais fácil se houvesse uma regra com um entendimento em comum de que, quando isso acontecesse com um jogador, ele deveria sair e isso não contaria como substituição”.

A ideia de Martínez parece uma boa maneira de garantir que os cuidados adequados sejam sempre tomados. De fato, se uma regra geral fosse criada, o jogador não teria outra alternativa senão deixar o campo e buscar o melhor tratamento imediato. Sem essa regra, a decisão acaba ficando por conta de treinadores, jogadores e membros da comissão técnica, que, em casos de fatalidade posterior, podem acabar sendo vistos como culpados.

Se a saída por concussão não contar como substituição, melhor ainda, pois impossibilita que qualquer desculpa técnica seja usada para a manutenção em campo de um jogador que tenha sofrido um dano cerebral. É preciso aproveitar este momento, em que o tópico está quente em uma das principais ligas do mundo, para se discutir o que pode ser feito. Por sorte, não houve nada com Lloris, mas não seria loucura imaginar que pudesse acontecer. Melhor não correr mais riscos, não é verdade?