Quem acompanhava o segundo tempo em Amsterdã, quando Lucas Moura marcou pela segunda vez, questionou-se: será possível que acontecerá de novo? O mundo do futebol ainda tentava absorver o que havia acontecido em Liverpool no dia anterior quando o Tottenham começou a esboçar outra reviravolta para os livros de história. O relógio correu por mais de meia hora sem que ela se concretizasse. Mas, aos 50 minutos do segundo tempo, aconteceu de novo. Lucas completou sua tripleta com o gol da vitória por 3 a 2 que colocou os Spurs na final da Champions League pela primeira vez na história.

O vocabulário extra-oficial do futebol inglês conta com o termo “spursy”, um adjetivo para momentos em que um clube, geralmente o Tottenham Hotspur, decepciona os seus torcedores. Um dicionário on-line define como “ter o sucesso ao alcance, mas, no final das contas, jogá-lo fora”. Para ficar apenas em exemplos recentes, como na temporada passada, quando o Tottenham tinha a faca e o queijo na mão contra a Juventus e foi eliminado nas oitavas de final levando dois gols em quatro minutos. Como em diversas ocasiões em que ameaçou entrar na briga pelo título da Premier League apenas para tropeçar contra equipes que deveria ter vencido.

O que aconteceu em Amsterdã tem o potencial de rechaçar esse rótulo, talvez apagá-lo dos dicionários on-line da internet, porque foi exatamente o contrário. Primeiro porque o sucesso poucas vezes pareceu ao alcance. Em uma análise geral das duas partidas da semifinal, o Ajax provavelmente foi melhor em três quartos delas. E porque o Tottenham alcançou o sucesso, talvez o maior da sua história, quando ninguém esperava que ele o alcançaria.

Nenhum centavo foi gasto em reforços nessa temporada. Lucas Moura foi um negócio de ocasião no começo do ano passado. Harry Kane não estava em campo. O Ajax tinha vantagem de 3 a 0 no placar agregado – como o Barcelona – até os 10 minutos do segundo tempo. O Tottenham ainda estava eliminado quando o cronômetro marcou 50. E, mesmo assim, conseguiu encontrar o gol decisivo, o gol da catarse, o gol do êxtase, o gol improvável, o gol que tantas vezes faltou ao longo da sua história.

Nada disso parecia provável no primeiro tempo. O Ajax novamente impôs o seu estilo de jogo e criou duas grandes oportunidades em cinco minutos. Lloris defendeu a primeira, em chute cruzado de Tadic, mas não evitou o gol de cabeça de De Ligt. Não fazia uma tremenda diferença para o Tottenham. Ainda precisava de dois gols para avançar. Havia apenas perdido a possibilidade de prorrogação.

Mesmo inferior naquele momento, o Tottenham parecia muito mais alerta do que no jogo de ida, e acertou a trave com Son, logo na sequência. A presença do sul-coreano, suspenso em Londres, na escalação inglesa foi um grande benefício, fazendo uma rápida dupla de ataque com Lucas. Os Spurs finalizavam bastante na primeira hora de jogo, em contraste com a partida anterior. Mas estava tudo aberto, dois times trocando golpes. E o Ajax teve mais precisão no soco: Ziyech recebeu dentro da área e emendou um chute belo chute cruzado para superar Lloris e abrir 2 a 0.

Pochettino não tinha alternativa a não ser ir para cima. Tirou o volante Wanyama e colocou o atacante Fernando Llorente. Uma mudança tática e de dinâmica: havia agora um pivô dentro da área para segurar a bola e passá-la aos companheiros. E funcionou. O Tottenham desde o início da etapa foi muito mais perigoso do que antes e logo aos 10 minutos descontou, com Lucas aparecendo de surpresa dentro da área, praticamente desarmando o colega Dele Alli, e tocando na saída de Onana.

Lucas teve presença de espírito também no segundo gol ao recuperar o rebote de uma defesa monumental de Onana, que ainda tentou agarrar a sobra, mas foi atrapalhado por Schöne. O brasileiro, dentro da área, cercado, conseguiu limpar a marcação e buscar o espaço para finalizar com qualidade: 2 a 2.

Muito se falou da falta de experiência do time do Ajax, formado por muitos jovens e mesmo veteranos que não estão muito acostumados a participar de partidas deste calibre. A maneira como os holandeses eliminaram Real Madrid e Juventus, duas equipes teoricamente mais “cascudas”, diminuiu essa dúvida. Mas também é fato que o time da casa não soube lidar muito bem com os dois gols que sofreu em tão pouco tempo.

O jogo entrou no modo anarquia. O Ajax parecia um pouco desesperado, um pouco desorganizado. Ziyech quase acalmou os ânimos na sequência com um chute de primeira que passou perto da trave. De Ligt evitou o que seria outro gol de Lucas com um desvio providencial. Lloris fez uma grande defesa. Ziyech acertou a trave. Onana fez também uma grande defesa em cabeçada de Vertonghen. Lloris parou Ziyech.

E, então, exatamente no momento em que o relógio mostrava cinco minutos de acréscimo, a totalidade do que o árbitro havia concedido, Lucas Moura pegou de perna esquerda da entrada da área, depois de uma dividida de Alli e o pivô de Llorente. A bola entrou no canto esquerdo de Onana, longe demais do seu alcance.

O gol decisivo, o gol da catarse, o gol do êxtase, o gol improvável, o gol que tantas vezes o Tottenham procurou e, finalmente, encontrou.

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