Lucas Torreira chegou ao Arsenal como uma aposta, mesmo que viesse de ótimos meses com a Sampdoria e de uma Copa do Mundo afirmativa pelo Uruguai. Questionavam se o jovem conseguiria se adaptar ao nível competitivo da Premier League, se a baixa estatura não poderia ser uma limitação no novo contexto, se a fase de transição dos Gunners não barraria seu potencial. Pouco a pouco, o uruguaio refutou todas as desconfianças e se candidata ao posto de melhor contratação do campeonato até este momento. Toma conta na meia-cancha do renascido time de Unai Emery. E com um clássico para chamar de seu, arrebentando durante a virada por 4 a 2 sobre o Tottenham.

Entre suas muitas virtudes, Torreira possui duas principais: a qualidade com que conduz a saída de jogo e a persistência para recuperar cada bola que passa pela faixa central. Tudo isso se viu neste domingo, no Emirates. Foram 48 passes ao longo do dérbi, limpando os trilhos para que os demais companheiros pudessem brilhar – Granit Xhaka que o diga, beneficiado pelo novo parceiro. O uruguaio desafogava a construção dos ataques, principalmente por sua precisão nos passes longos e nas inversões, assim como pela agilidade ao trabalhar em espaços reduzidos. Imprimiu velocidade com suas arrancadas rumo ao campo ofensivo e apareceu por todos os lados de área a área Além disso, fez um pouco de tudo na marcação. Recuperou a posse de bola nada menos que 12 vezes, ao longo dos 90 minutos. O camisa 11 é extremamente agressivo, sem descambar para deslealdade. Toma a frente dos adversários, dá carrinho, não foge das divididas.

E, diferencial desta vez, Torreira apareceu um bocado para finalizar. Executou três arremates, entre eles o que rendeu seu primeiro gol pelo clube, o último do clássico. Aproveitou a enfiada de bola dada por Pierre-Emerick Aubameyang para definir tal qual um atacante, saindo nas costas da zaga antes de bater por baixo do goleiro. Um prêmio ao empenho máximo do camisa 11 na partida, essencial dentro da reação dos Gunners. Se há uma mudança de espírito no clube, não só de jogo, em relação ao que se via nas temporadas anteriores, a garra do charrua contribui bastante. Um exemplo disso foi dado no lance em que, mesmo espremido por Dele Alli e Christian Eriksen na lateral, não deixou de brigar pela bola.

O tento, em especial, rendeu uma comemoração apaixonada de Torreira. Tirou a camisa, gritou alto, vibrou demais. Dá outros motivos para a torcida do Arsenal tratá-lo como novo xodó, por tudo o que oferece em campo. A energia do uruguaio é algo fundamental ao seu estilo de jogo, mas que também conquista fãs. Une-se a isso a boa fase e a maneira como ele contribui ao salto de qualidade do coletivo. Por fim, agora ele possui uma atuação maiúscula no clássico a favor de sua idolatria. Aos 22 anos, o jovem tem bola para envergar a camisa 11 dos Gunners por muito tempo. E, ao que parece, moldar a equipe nesta transformação com Unai Emery. O novato se encaixa muito bem nas propostas do treinador, entre combatividade sem a bola e dinamismo com ela.

Por sua baixa estatura e pela forma como parece se multiplicar em campo, Torreira costuma ser comparado com N’Golo Kanté. De fato, possui algumas características próximas à do francês, embora demonstre outras capacidades para escrever a sua própria história. E este início de impacto em Londres indica que pode se estabelecer na Premier League, assim como se desenvolver ainda mais durante as próximas temporadas. O investimento de €30 milhões agora soa como uma pechincha dos Gunners. A valorização nestas primeiras 14 rodadas da campanha, começando como reserva e fazendo valer seu espaço entre os titulares depois de setembro, é incontestável. A ponto de o Guardian já traçar paralelos com Gilberto Silva, o último a tomar conta de verdade da cabeça de área em Highbury. A inteligência tática do garoto permite que ele entenda como poucos a sua função e se adapte rapidamente às mudanças táticas, como aconteceu neste domingo.

Torreira possui uma trajetória singular no futebol. Nascido em Fray Bentos, uma cidadezinha de 23 mil habitantes no interior do Uruguai, ele sequer atuou profissionalmente no país. Começou na nanica Institución Atlética 18 de Julio, tentou a sorte na base do Montevideo Wanderers e, de lá, saiu diretamente ao Pescara. Encarar desafios nunca foi problema a quem se mudou para Montevidéu aos 16 anos, vivendo com a irmã, ou atravessou o Atlântico dois anos depois para se testar no futebol europeu. O Arsenal, depois do peso de uma Copa do Mundo com a Celeste, é mais um passo nesta ascensão meteórica. E, rodada após rodada, Torreira demonstra por suas atuações que ela não deve se encerrar tão cedo.