O ar estava tenso, era quase sólido. Tenso porque, no dia em que um Palmeiras x Corinthians não tiver tensão, pode ter certeza que o futebol morreu. Mas tenso também por causa dos acontecimentos nos dias que antecederam o jogo. A disputa entre os clubes pela presença ou não de torcida visitante no primeiro Derby do Allianz Parque colocou a segurança da partida em questão. Por isso, não surpreendeu ninguém que, no final das contas, houve confusão antes do clássico. Ainda assim, ela só reforçou a pergunta: o futebol se livra de quem com torcida única?

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Difícil argumentar que a resposta seja “a violência nos estádios”. Os principais casos de briga neste domingo foram entre torcedores do mesmo clube ou entre torcedores e a PM. Segundo a versão da Polícia Militar ao jornal LANCE!, alguns corintianos tentaram pular a barreira que os separava dos rivais quando se aproximavam do Parque Antártica. Mas os dois principais focos de confusão envolveram apenas uma torcida. Os palmeirenses entraram em confronto com a Polícia Militar na rua Turiassú. Enquanto isso, dentro do estádio, torcedores do Corinthians brigavam entre si.

Fora isso, a chegada das organizadas ao Allianz Parque foi tranquila, também de acordo com a PM. Ela foi preparada para o cruzamento da rua Teixeira e Souza com a Padre Antonio Tomás. Uma via normalmente pacata foi povoada por 28 policiais, em certo momento, para proteger 17 torcedores, além de cavalos e viaturas. Até às 15h15, eles esperavam o começo do jogo no lado de fora, quando foram obrigados a entrar.

As organizadas chegam ao Allianz Parque (Foto: Bruno Bonsanti/Trivela)
As organizadas chegam ao Allianz Parque (Foto: Bruno Bonsanti/Trivela)

Entraram porque, logo em seguida, a Gaviões da Fiel chegou com uma faixa lembrando o confronto entre palmeirenses e corintianos na avenida Inajar de Souza, em 2012, no qual aproximadamente 500 homens abraçaram a selvageria e dois deles perderam a vida. Muito longe do estádio. Como também estavam em outro lugar corintianos que invadiram um trem do metrô, na noite do último sábado, para bater em um são-paulino que estava se dirigindo ao Pacaembu. Nem havia jogo do Corinthians, apenas eleições.

Retomando a pergunta, qual dessas situações seria evitada se apenas palmeirenses pudessem comprar ingresso para o primeiro Derby do Allianz Parque? O clima para o jogo seria provavelmente mais tranquilo, com menos tensão para os torcedores e para os policiais. Por outro lado, a violência moveria-se para outro lugar, onde ela já acontece na maioria das vezes, e o Estado assinaria o seu atestado de incompetência. Sem contar um outro fator importante.

“Sou solteiro, tenho 33 anos, advogado, e tenho uma vida de dedicação ao Corinthians, desde moleque”, conta Rodrigo Jesus da Silva, dono de um dos 1,5 mil ingressos que o Palmeiras disponibilizou para a torcida visitante neste domingo. Quando era mais jovem, moleque, pensou em se inscrever na Gaviões da Fiel, mas nunca teve tempo. Ficou mais velho, passou a discordar de várias posições da organizada, e hoje nem cogita mais essa ideia.

“Por mais que a polícia e o Ministério Público tenham a maior parte da culpa por tudo que acontece, as torcidas também têm culpa. Não existe nenhum santo nessa história”, afirma. “E depois de uma certa idade você quer ver o jogo na sua, não quer ficar perto da muvuca. Eu vou, vejo meu jogo e torço. Não quero saber de confusão”. Advogado com a liberdade de montar os seus próprios horários, ele sempre tenta dar um jeito de acompanhar o Corinthians em viagens para jogos decisivos. Foi assim no Mundial de Clubes do Japão e na final da Copa Libertadores contra o Boca Juniors em Buenos Aires. “Acompanhar o Corinthians é um dos prazeres da vida. Se ganhar hoje (domingo), é para a história”, completa. Se houvesse torcida única, Rodrigo não teria visto a primeira vitória do seu time no novo estádio do maior rival. Nem teria a oportunidade de dar entrevista à reportagem da Trivela para contar sua parte nessa história pouco antes de entrar no Allianz Parque.

Nem Eduardo César. “Eu tenho 41 anos, sou caminhoneiro e, fora a estrada, o que eu gosto é ver o Corinthians no estádio”, afirma o torcedor corintiano mais assíduo de todos, de acordo com o ranking do Fiel-Torcedor. Ele descobriu que era o líder dessa contagem em 2009, na época da final da Copa do Brasil contra o Internacional. Desde então, sempre comprou os ingressos para assistir às partidas. Acompanhou Rodrigo ao Japão e à Argentina. Gosta tanto de ver os jogos que restringe a sua atuação profissional ao estado de São Paulo para não ficar longe do seu clube do coração durante muito tempo. Diferente do amigo, ele nunca teve interesse em aderir a uma organizada. “Eles têm a maneira deles de torcerem, todo um protocolo para seguir, e eu acho que cada um tem que torcer da sua maneira. Eu canto quando dá, nem tenho mais idade para pular e cantar os 90 minutos”, explica.

Eduardo e Rodrigo antes da partida no Allianz Parque (Foto: Bruno Bonsanti/Trivela)
Eduardo e Rodrigo antes da partida no Allianz Parque (Foto: Bruno Bonsanti/Trivela)

Eduardo e Rodrigo não receberam nenhuma instrução quando compraram o ingresso e não têm o privilégio de serem escoltados pela polícia até a porta de entrada. Escondem as camisas do Corinthians dentro de uma pequena sacola, pesquisam os pontos de táxi da região e olham por cima dos ombros atentos às possíveis emboscadas. Nem conhecem os arredores do estádio direito. “É a primeira vez que eu venho em dia de jogo, então eu temo uma emboscada. Espero que a polícia tenha isolado tudo bonitinho”, afirma Rodrigo. “A gente sempre fica meio cabreiro”, acrescenta Eduardo, “mas eles fazem emboscadas mais para torcedores organizados. Já vi um metrô cheio de palmeirenses, e entrou um corintiano, e os caras não fizeram nada. O torcedor comum, de certa forma, ainda deixam passar. Óbvio que sempre tem um ou outro mais exaltado”.

Os dois andaram para o portão de visitantes ainda sem as camisas, vestidas apenas depois de passarem pela barreira policial com o ingresso em mãos. Não criaram nenhuma confusão até passar pelas catracas, como outras dezenas de corintianos que aguardaram a abertura dos portões no cruzamento da Teixeira e Souza com a Padre Antonio Tomás. A questão não está em qual torcida pode ou não entrar no estádio, mas nas pessoas, torcedores comuns ou organizados. Todos os clubes têm milhares de Rodrigos e Eduardos, que até se arriscam para ver seu time jogar na casa do rival pelo simples fato de amar futebol. Esses milhares de torcedores têm todo o direito de assistir ao seu time em qualquer estádio, e não serem obrigados pelas autoridades a ficarem presos em casa. Quem quer brigar é que deveria ser preso, e não na sua casa. Lembra os corintianos que brigaram com os são-paulinos no metrô no último sábado? Eles já foram soltos.