Torcida do New York City está possessa com o clube por causa de Lampard. E com razão

11 mil carnês de temporada já haviam sido vendidos para ver a estrela, mas Lampard prorrogou sua permanência em Manchester até julho

A ida de Frank Lampard por empréstimo para o Manchester City, até a estreia do New York City, na Major League Soccer, em março, parecia sensata. Aos 36 anos, o meia inglês não poderia se dar ao luxo de ficar quase um ano sem jogar futebol competitivo, se quisesse manter a boa forma. Era uma investimento do City Football Group e ninguém conseguia citar um bom motivo para que ficasse encostado. Serviria para rechear o elenco de Manuel Pellegrini, envolvido em quatro competições, sem prejudicar as contas do Fair Play Financeiro. E de repente, tudo mudou.

LEIA MAIS: Em poucos minutos, Lampard justifica Manchester City ter prorrogado seu empréstimo

Esse acordo virou uma dor de cabeça para os donos do New York City a partir do anúncio de que Lampard ficará no Etihad Stadium até o final da temporada inglesa e se reunirá a David Villa e companhia apenas em julho. Os torcedores do novo clube da cidade que nunca dorme estão possessos. Sentem que o seu orgulho nova-iorquino foi ferido por terem sido tratados como segunda opção. Suspeitam que não são a prioridade do City Football Group e que estão sendo tratados como um clube de segunda linha. Consideram-se traídos porque compraram 11 mil pacotes para a temporada inteira esperando ver o time completo desde o início.  A organizada Third Rail publicou um manifesto repudiando a decisão e não seria surpresa se as pessoas começassem a pedir reembolso pelos carnês já adquiridos. E o problema deles é muito mais simbólico do que prático, porque Lampard perderá apenas os primeiros jogos da temporada regular da MLS (e neste ano, 12 dos 20 clubes passam aos playoffs).

Simbolismo também é importante. Descobriram, por exemplo, que Lampard nunca teve contrato com o New York City, nem com a Major League Soccer. Seu acordo era com o grupo que controla os dois clubes e ele assinou com o Manchester City, como jogador livre, até o final da temporada. Havia no contrato uma cláusula de rompimento que seria ativada em 31 de dezembro, mas foi derrubada pela Premier League antes do Ano Novo, à pedido do clube. Ou seja, não houve uma extensão de empréstimo. Sequer houve um empréstimo. Lampard nunca foi do New York City.

O tiro saiu pela culatra porque o arranjo deu certo demais. Lampard tornou-se um jogador importante para o Manchester City, com 19 partidas, embora apenas seis como titular. Marcou sete gols, alguns decisivos, como o do empate contra o Chelsea e o da vitória em cima do Sunderland. Tão relevante que o discurso de Manuel Pellegrini sempre foi de mantê-lo. Questionado após a confirmação da sua permanência, deixou no ar que gostaria de oferecê-lo contrato para mais uma temporada. Se Pellegrini insistir nessa ideia, os donos do City Football Group terão que escolher entre as exigências do treinador do seu principal patrimônio e as dos ainda poucos torcedores de um clube que dá os seus primeiros passos. Quem vencerá a queda de braço?

Não nos enganemos: a Major League Soccer está cada vez melhor, mas ainda precisa aguardar o final da carreira de grandes estrelas para conseguir recrutá-las. Frank Lampard, possivelmente o maior jogador da história do Chelsea, foi para o New York City pensando em chutar mais algumas bolas antes de começar a pensar em qual praia passará seus primeiros dias de aposentadoria. De repente, porém, viu ao seu alcance a oportunidade de estender o seu currículo de glórias. Na 20ª rodada do Campeonato Inglês, o Manchester City tem os mesmos 46 pontos que o time de Stamford Bridge. Chances reais de título. Está também nas oitavas de final da Liga dos Campeões contra um Barcelona cambaleante. Outra chance de troféu, menor, mas plausível.

Não ajuda que a Major League Soccer esteja se defendendo com um argumento tão frágil que poderia ser cortado com uma faca de manteiga. O comissário da liga Don Garber afirmou em entrevista à Sports Illustrated que tem certeza do comprometimento do City Football Group com o projeto, por causa do tamanho do investimento que está sendo feito, e disse que “em toda a história do programa de jogadores designados (os que podem receber acima do teto salarial, geralmente estrelas estrangeiras), eles sempre chegaram em julho”, e o caso de Lampard não é “nada diferente do que aconteceu com Robbie Keane, Thierry Henry e David Beckham”.

Nada diferente? Sério? Nadinha? Porque Lampard foi o principal garoto propaganda de um clube que surgiu do nada ano passado. Em março de 2014, começou uma grande campanha publicitária, com outdoors e vídeos, da qual foi o principal personagem, para promover a estreia do novo clube. O combinado era um empréstimo de seis meses para manter a forma, e a promessa sua presença em campo desde a primeira rodada. Muitos torcedores podem ter decidido torcer para o New York City por serem fãs do meia inglês. Alguns certamente compraram ingresso para vê-lo. Todos se sentem enganados, com razão, porque, de repente, tudo mudou.

Desde o começo do projeto, havia algumas desconfianças. Principalmente se o New York City não seria apenas um clube satélite do Manchester City, uma forma de tentar fintar o Fair Play Financeiro, uma barriga de aluguel para jovens revelações, um depósito de jogadores encostados. Sempre foi o discurso dos donos de que nada disso era verdade. O principal desafio deles era mostrar que o projeto era sério e que estavam trabalhando, de fato, para construir um clube vencedor dos Estados Unidos. Demoraram para conquistar a confiança da torcida e agora o processo começa novamente.