A habilidade de Everton é ainda mais impressionante ao vivo. Ela transmite algo que a combinação de vermelho, verde e azul da TV não traz a nossos olhos. Cebolinha pega a bola, e, de repente, uma energia toma conta do estádio. Você tem certeza que ele vai passar por seu marcador. Existe alguma energia que sai do corpo franzino, mas resistente, do ponta do Grêmio e penetra a torcida ao redor, uma onda que empilha expectativas. E ele passa mesmo. Por trás dos dribles precisos, do jogo ofensivo contundente e da energia que traz a seus times, a relação com a torcida gremista tem também seu papel. E ficou claro que, na noite de quarta-feira (27), pelas quartas de final da Copa América, uma significativa parte do público estava lá para ver seu Cebolinha jogar, e não para ver a Seleção e seus craques europeus.

Desde o momento em que pousei em Porto Alegre e tive meus primeiros contatos com os moradores locais, a relação com o substituto de Neymar na seleção brasileira se destacou para mim. Não havia pôsteres da Copa América no desembarque do Salgado Filho. Nas ruas ao redor do aeroporto e também do estádio, poucas sinalizações indicavam que um torneio importante de seleções acontecia na cidade. O que se sobressaía mesmo vinha das conversas, e elas todas voltavam a um nome: Everton.

“O Cebolinha na Seleção é como ter o Grêmio na Copa América. Como ele vai jogar em casa, acho que ele vai tentar jogar o máximo possível, tentar mostrar para a torcida, tentar fazer gol, vai pra cima. Se eu tivesse uma camisa do Grêmio recente, seria do Everton. Se eu fosse comprar uma camisa da Seleção, seria do Everton. Ele agora é nossa estrela”, descreveu André, de 21 anos.

O carinho da torcida pelo ponta é de um tipo especial, não facilmente visto por aí. Não se trata apenas de idolatria, mas, sim, de orgulho. Mesmo não sendo originalmente do Rio Grande do Sul, tendo vindo de Fortaleza, Cebolinha já está há cinco anos no Grêmio, tendo ingressado nas categorias de base do clube aos 17 anos. Começou a se destacar com Renato Gaúcho. Com cabeça boa e personalidade, foi esperando suas oportunidades e, quando elas vieram, abocanhou com a mesma tenacidade com que parte para cima dos adversários. A maneira como o jogador conduziu sua ainda curta carreira até aqui é motivo de admiração por parte dos gremistas.

Além do bom futebol, foi esse perfil trabalhador, simples e dedicado que conquistou o torcedor. E que, por fim, fez muita gente ir até a Arena na quarta-feira para ver seu garoto brilhar, agora com a camisa amarela da Seleção. É o caso, por exemplo, de Alexandre, de 29 anos.

“Sinceramente, eu não iria vir a nenhum jogo da Copa América. Mas, depois de o Brasil ganhar o último jogo, e considerando o quanto o Cebolinha está jogando esses últimos jogos, comprei o ingresso para poder ver o último jogo dele aqui na Arena”, contou o sócio do Grêmio, presente em maioria dos jogos do clube.

A torcida gremista não esqueceu de seus outros ídolos (Leo Escudeiro/Trivela)

A impressão de Alexandre foi a de muita gente na noite de quarta de final da Copa América: aquela poderia ser a última oportunidade de ver Cebolinha na Arena do Grêmio. Já havia murmurinhos de que algum clube europeu tentaria sua contratação na janela de transferências deste meio de ano, e as atuações estreladas do ponta na competição sul-americana até aqui apenas aumentaram o assédio sobre o jogador. Ciente disso, a torcida particular por Everton foi um destaque do duelo. A tal conexão que normalmente falta entre público e seleção estava presente por meio da relação dos gremistas com seu garoto.

O primeiro sinal disso apareceu durante o anúncio da escalação nos telões do estádio: Cebolinha foi de longe o nome mais aplaudido e vibrado, com Arthur também ganhando gritos de incentivo. Os primeiros toques na bola de Everton causavam um frenesi capaz de contagiar até o mais distante torcedor presente na Arena, aquele que lá estava pelo evento, não pelo esporte.

O que falei sobre o efeito Everton na torcida no início do texto era algo quase palpável. Uma energia que partia do jogador, tomava conta das arquibancadas e voltava para o campo compondo a sinergia ideal para que o jogador se sentisse – e parecesse – imparável. E assim nasceram alguns dos principais lances de uma seleção brasileira que, de outro modo, foi bastante estéril.

Outro ponto que chama a atenção na relação entre o camisa 19 e a torcida é como esta torce por seu sucesso. A opinião unânime, ao menos nos torcedores que ouvi, é que Everton deu seu melhor durante todos os anos de Grêmio e merece ser feliz de qualquer forma que seja. “Eu vim aqui aplaudir o Cebolinha. É triste ver a despedida dele, mas é um cara que merece ir para longe. Merece ir para a Europa, porque ele construiu isso”, diz Alexandre.

Cássio, torcedor de 27 anos também presente em muitas partidas do Grêmio, reforça o coro, aceitando não de forma resignada, mas feliz, a iminente partida: “Provavelmente seja (a última partida de Cebolinha na Arena). Mas ao Cebolinha é só sucesso que desejamos. É o que a gente deseja quando um cara fez um bem ao time. Ele é motivo de orgulho para o gremista”. Torcedor que é torcedor, no entanto, quer em primeiro lugar o bem de seu clube, e isso certamente faz parte dos motivos por trás da reação à saída do jogador. “Vai vir muita grana para o caixa do Grêmio, e isso é importante também”, completou Cássio.

O ambiente

Não poderia ter sido diferente: um jogo da Seleção em Porto Alegre tinha que ser marcado por ao menos um pouco de clubismo. Cerca de 20 minutos antes do início da partida, quando teve seu nome anunciado nos telões, Alisson recebeu vaias do público que já estava presente nas arquibancadas. E foi justamente a relação do goleiro com os rivais que virou, ao fim, um símbolo do pacto que a torcida havia feito com a Seleção: durante as cobranças de pênaltis, todo o estádio gritava “Alisson! Alisson! Alisson!”

Se até a partida de quartas de final a impressão era de que a torcida estava muito distante da equipe, talvez com exceção feita ao jogo na Arena Corinthians, contra o Peru, o duelo contra o Paraguai mostrou um perfil diferente. O torcedor aparentemente foi ao estádio consciente de seu papel no confronto. Vaiou forte os primeiros ataques do Paraguai e as faltas em Everton, pressionou o goleiro Gatito nos tiros de meta (sem gritos homofóbicos, o que também vale o destaque) e se levantava em quase todos os lances em que a Seleção chegava ao terço final.

O tradicional rádio de pilha veio nos transportar a tempos mais simples (Leo Escudeiro/Trivela)

Independentemente disso, no entanto, se fazia presente em reação ao que acontecia no gramado, o que explica o silêncio um pouco mais longo durante o primeiro tempo. O público estava pronto para torcer e fazer sua parte, mas faltou a Seleção cumprir sua metade do acordo.

Ao fim da primeira etapa, parte do estádio ensaiou uma vaia, mas foi logo abafada por todo o restante dos presentes, que aplaudiram mais alto e enviaram a energia que o time precisava para o segundo tempo.

O encerramento dos 90 minutos, com um 0 a 0 especialmente frustrante, não foi o suficiente para atrair as vaias. Os aplausos foram mais uma vez fortes, afinal, o trabalho ainda não estava feito.

A sensação final foi, evidentemente, de êxtase pela classificação, mas decepção pelo futebol apresentado. Especialmente os torcedores vindos de outro estado se frustraram. Vieram de longe e queriam ver um jogo mais aberto, solto e bem-sucedido da Seleção. As críticas saíram dos gramados e se estenderam aos arredores: o trânsito carregado, o difícil acesso e informações equivocadas passadas por parte dos funcionários que estavam lá justamente para esclarecer as coisas foram reclamações de todos os torcedores ouvidos pela reportagem.

A Copa América não parece ter pegado e envolvido o torcedor como poderíamos esperar, mas na noite desta quarta não faltou ligação: ela só esteve mais concentrada entre uma torcida e sua menina dos olhos.

A Trivela foi a Porto Alegre a convite da GOL.