A crise do Schalke 04 não se restringe apenas ao que acontece dentro de campo. Os Azuis Reais atravessam sua pior sequência na história da Bundesliga, com 15 rodadas sem vitória. Ainda assim, os dirigentes conseguem piorar muito a situação do lado de fora, com “soluções” para a crise financeira que soam como mesquinharia. Depois que o clube exigiu uma “justificativa” para os torcedores que pediram o reembolso dos ingressos das partidas com portões fechados, nos últimos dias a direção resolveu demitir motoristas (sobretudo idosos) que ganhavam baixos salários para “cortar despesas” – como bem conta o grande Gerd Wenzel, em sua coluna na Deutsche Welle. Os ultras não ficaram de braços cruzados e escreveram uma forte carta de protesto.

“A temporada inteira é uma declaração moral de falência. Uma liquidação dos valores do Schalke, que geralmente são usados para fins de marketing, mas em outros assuntos acabam pisoteados. A associação está cada vez mais perdendo credibilidade e identificação. O sentimento familiar que torna este clube tão especial parece existir apenas entre os torcedores. Estamos chocados em ver que os responsáveis pelas decisões se afastaram há muito tempo de nossos valores e ideais. Enquanto isso, a maioria dos associados está atordoada com o que se tornou nosso clube”, escreveram os Ultras Gelsenkirchen, nesta segunda.

“Uma coisa é certa: não deixaremos levarem o clube, muito menos destruí-lo. O clube deve retornar à sua declaração de missão e cumprir a responsabilidade social que possui. Para a nova temporada, pedimos um objetivo claro e, em conexão com isso, um novo começo e um retorno às antigas virtudes e valores básicos, bem como à nossa declaração de missão. Uma reavaliação de nossa situação financeira também parece essencial. Não queremos mais desculpas. Se você não vive os valores do Schalke, precisa deixar o clube”, finalizaram.

As maiores críticas recaem sobre Clemens Tönnies, empresário que preside o Schalke 04 desde 2001. No início da temporada, o dirigente já teve sua saída exigida pelos ultras, após declarações racistas em evento fora do clube. Apesar disso, a diretoria do Schalke não tomou uma atitude e o próprio Tönnies determinou uma licença temporária de algumas semanas, antes de retornar ao cargo. Com os problemas financeiros na agremiação, o cartola pressionou bastante para o retorno da Bundesliga durante a pandemia e até mesmo ofereceu os laboratórios de sua empresa, do ramo frigorífico, para produzir testes de coronavírus em massa aos jogadores. Agora, por conta das péssimas condições sanitárias, a companhia virou um foco da doença e registrou 1,5 mil infectados apenas entre os seus funcionários.

Depois da publicação da carta, nesta terça, os ultras do Schalke colocaram diversas faixas de protesto nos arredores da Veltins Arena. Pediam que a diretoria respeitasse os valores do clube e exigiam a saída de Tönnies. Além disso, a torcida organiza uma grande manifestação ao redor do estádio durante a última rodada da Bundesliga, no próximo sábado. No momento em que o Schalke enfrentará o Freiburg fora de casa, os torcedores realizarão um ato na Veltins Arena para reclamar da má gestão e das atitudes mesquinhas da direção.

“Quase todos nós temos ficado bravos com nosso clube nas últimas semanas, meses, anos. Logicamente, muitas vezes é sobre o desempenho dentro de campo, mas acima de tudo por aquilo que acontece do lado de fora. Ao mesmo tempo, um sentimento de frustração, resignação e indiferença se espalhou entre muitos torcedores, mesmo entre aqueles que atuavam ativamente nas questões do cube. É triste, mas é verdade. Portanto, acreditamos que agora é hora de nos levantarmos novamente, na esperança de salvar nosso amado clube de ser destruído por conselheiros incompetentes e obcecados pelo poder”, declara a convocação do protesto.

“Levante-se e dê exemplo conosco. Por nosso clube e contra as estruturas encrustadas nos comitês. Levante-se se você é pelo Schalke! Mostre que a comunidade de torcedores do Schalke segue viva. Ainda temos uma chance, mas somos fortes apenas juntos! Obviamente, uma manifestação sozinha não pode mudar nada, mas ajuda a indicar os rumos. Pode fortalecer nossa comunidade e mandar uma grande mensagem. Muitas organizações de torcedores já nos deram seu apoio. Vamos mostrar que somos mais! Não somos apenas contra a atual situação, estamos conversando com muitos torcedores sobre conceitos ao futuro”, finalizam.