Apenas quatro pontos separaram o Newcastle do Hull City, primeiro dos rebaixados para a segunda divisão ao fim da temporada passada. O desempenho ruim em campo, no entanto, não é o único motivo de descontentamento da torcida dos Magpies. Atualmente, talvez seja até o menor deles. Cansados da administração de Mike Ashley, magnata que comprou o clube há quase oito anos, os torcedores têm se unido em campanhas pela saída do empresário, e a última delas é carregada de simbologia e promete fazer algum barulho. Um grupo resolveu lançar uma camisa alternativa à oficial do clube, para aqueles que seguem apoiando a instituição, mas não aquele no comando dela.

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Uma série de grupos de torcedores do Newcastle está por trás da iniciativa, entre eles Newcastle United Supporters Trust, AshleyOut.Com, Mike Ashley Out Campaign, Gallowgate Shots, True Faith and THE MAG. A camisa foi lançada nesta terça-feira e teve seu primeiro lote vendido em apenas duas horas. A principal diferença em relação à camisa oficial do Newcastle está na ausência da famigerada patrocinadora Wonga. A empresa de empréstimos pessoais tem como prática os payday loans (“empréstimos do dia de pagamento”, em tradução literal), que são pagos apenas quando o cliente recebe seu salário. Ela se apresenta como alternativa para pessoas com dificuldades financeiras, mas os juros são tão grandes que, uma vez envolvido, o cliente encontra enorme dificuldade para se livrar dessa dependência, já que precisa de novos empréstimos para pagar os antigos. Há grupos que militam contra empresas desse tipo no Reino Unido, e, para o torcedor do Newcastle, ver a imagem de seu clube atrelada a tal marca é de embrulhar o estômago.

Além disso, a camisa alternativa inclui uma insígnia da cidade de Newcastle upon Tyne, para reforçar a relação do clube com sua comunidade. Algo que, para os torcedores, se perdeu durante a administração de Mike Ashley. O escudo do time, claro, não está na réplica feita pelos torcedores. Ashley nunca permitiria que grupos contrários à sua administração usassem a imagem do clube. No entanto, a presença do magpie, pássaro símbolo do Newcastle, no peito não deixa dúvidas sobre a identidade do manto.

A lista de razões pelas quais a torcida do Newcastle detesta tanto Mike Ashley é extensa. Começa pelo interesse financeiro e pela aparente displicência do empresário com os interesses esportivos do clube, passa pelas seguidas contratações fracassadas de diretores e técnicos, como John Carver, que era assistente e assumiu a equipe no final da campanha passada, pelo patrocínio da Wonga e pelo tratamento conferido a atletas queridos pelos torcedores, como Jonas Gutiérrez. O argentino se recuperou de um câncer na última temporada e, em uma história digna de uma ficção emocionante, salvou o time do rebaixamento com um gol, mas acabou dispensado, mesmo tendo sido destaque da equipe e sendo adorado pelos fãs do time.

O comunicado oficial do lançamento da camisa diz que o objetivo é oferecer uma alternativa para aqueles que querem se sentir novamente representados no manto do Newcastle. Que querem vestir as cores do clube, carregar o pássaro símbolo da equipe em seu peito, sem precisar dar dinheiro a Mike Ashley ou à Sports Direct, sua empresa. O empresário ainda não está perdendo dinheiro com o clube, e o novo acordo de televisão da Inglaterra torna essa possibilidade ainda mais distante. E é por isso que a pressão da torcida se faz ainda mais necessária. Para que pelo menos a linha de trabalho de Ashley vise mais o bem-estar e o reforço da identidade do clube em vez de seu próprio lucro.