A torcida do Colônia já teria motivos suficientes para carregar Hans Schäfer no coração por todo o sempre. O atacante representou por quase duas décadas o sentimento pelo clube. Nascido na cidade, profissionalizou-se pelos Bodes em 1948 e vestiu a camisa alvirrubra por 17 anos. Foi o primeiro jogador a ultrapassar as 500 aparições pela agremiação e ainda hoje se mantém como o maior artilheiro da história, autor de 306 tentos. Além disso, foi o capitão em dois dos três títulos nacionais do Effzeh. Grandeza que se transformava em orgulho, quando se pensava também na seleção nacional. Afinal, o ponta esquerda foi o representante do Colônia no Milagre de Berna, e participou da construção de dois dos três gols na mítica virada sobre a Hungria na final da Copa de 1954. Não haveria outra palavra para definir o veterano além de “lenda”. E assim a torcida honrou a memória de seu maior ídolo nesta semana, em tributo ao seu falecimento, ocorrido no início do mês, aos 90 anos de idade.

No último domingo, o Colônia disputou a primeira partida em casa pela Bundesliga desde a morte de Schäfer, em 7 de novembro. E organizou uma homenagem belíssima ao mito alvirrubro. Um cortejo tomou as ruas da cidade antes do confronto com o Hertha Berlim. A multidão era puxada por um bandeirão com o rosto do atacante, cantando em sua homenagem. Às portas do Estádio Rhein-Energie, os torcedores ergueram os seus cachecóis e seguiram celebrando a memória do veterano. Tributo que se estendeu também às arquibancadas, com faixas e a bandeira tremulante pela lenda. Em 2014, comemorando os 5o anos do primeiro título do clube na Bundesliga, o Effzeh já havia feito um mosaico com a figura de Schäfer erguendo a Salva de Prata. Ele foi o primeiro a ter a honra de receber o troféu, na edição inaugural da liga nacionalizada.

Filho de um barbeiro, Schäfer cresceu aprendendo o ofício do pai, ao mesmo tempo que exibia seu talento no futebol. A trajetória quase sofreu uma interrupção abrupta, quando o adolescente acabou convocado à guerra já nos últimos anos, se juntando à bateria aérea da Luftwaffe. Sobrevivente das batalhas, retornou para casa após a derrota na Segunda Guerra Mundial para, enfim, se dedicar exclusivamente ao esporte. E assim, despontou rumo ao Colônia, fazendo sua estreia pelos Bodes em 1948, aos 21 anos. Não demorou a se firmar como um dos protagonistas do time, que ganhava projeção na Oberliga.

Schäfer era um ponta completo. Combinava capacidade física e habilidade, abrindo clarões pelo lado esquerdo do campo com seus dribles ou na base da velocidade. Além disso, era um jogador voluntarioso. E, acima de tudo, tinha um faro apurado para o gol, especialmente por seu chute potente. Em 1951, ganhou sua primeira convocação ao Nationalelf. E seria parte importante no time de Sepp Herberger durante a Copa do Mundo de 1954. Marcou o primeiro gol dos alemães na Suíça e anotou quatro gols em três partidas até as semifinais. Já na decisão, no Wankdorf, o atacante passou em branco contra a poderosa Hungria. Mas não deixou de ajudar a derrubar os Mágicos Magiares. No segundo gol, que empatou a decisão, o camisa 20 disputou uma bola pelo alto com Gyula Grosics, em lance interpretado por alguns como falta. Com o caminho livre, Uwe Rahn marcou. Já aos 39 do segundo tempo, Schäfer iniciou a virada. Roubou a bola de Jószef Bozsik no campo de ataque e cruzou à área. Na sobra, Rahn assinalou o gol do triunfo histórico.

Na volta para casa, Schäfer foi bastante festejado em Colônia. E permaneceu como uma das bandeiras da seleção alemã ao longo de sua carreira profissional. Em 1958, assumiu a braçadeira de capitão, mesmo com a permanência de Fritz Walter no elenco. Titular em todos os jogos, anotou três gols na campanha do Nationalelf, que acabou na quarta colocação do Mundial. O mais memorável aconteceu na semifinal, em sem-pulo que abriu o placar contra a Suécia, apesar da virada dos anfitriões rumo à decisão. Por fim, o atacante participou de sua terceira Copa do Mundo em 1962, novamente dono da braçadeira e intocável na equipe de Sepp Herberger. Despediu-se com 15 partidas no torneio, 17° com mais aparições pela Alemanha em Mundiais – igualado a Rudi Völler e Lukas Podolski. Além disso, seus sete gols mantêm o veterano no Top 10 alemão na artilharia das Copas.

E o moral na seleção alemã, obviamente, se sustentava pela importância que tinha no Colônia. O atacante liderava os Bodes na antiga Oberliga Oeste, sempre entre as principais equipes. Curiosamente, o melhor momento do clube só veio nos momentos finais da carreira – mas não que ele deixasse de gastar a bola. Em 1961/62, os alvirrubros ficaram com a taça nacional ao golearem o Nürnberg por 4 a 0 na decisão. O capitão abriu o placar no Estádio Olímpico de Berlim, diante de 82,7 mil torcedores. Na temporada seguinte, o Colônia seria vice-campeão, derrotado pelo Borussia Dortmund na final. Como consolação, Schäfer acabou eleito o melhor jogador do país em 1963. Por fim, na primeira edição da Bundesliga, veio a consagração definitiva. O ídolo participou de 22 partidas, anotando 12 gols. Aos 36 anos, eternizou sua imagem com a Salva de Prata nas mãos. Aposentaria-se na temporada seguinte.

Desde então, Schäfer se transformou em uma figura compreensivelmente cultuada pela torcida do Colônia. Sua trajetória representava o maior exemplo de dedicação aos alvirrubros. E, exceção feita ao suado título de 1976/77, os Bodes não voltariam a repetir as glórias alcançadas pelo lendário capitão. Continuaram, contudo, cultivando a paixão que desabrochou naqueles tempos marcantes. Após morte do mito, os torcedores iniciaram uma campanha para que um dos setores do Estádio Rhein-Energie seja batizado com seu nome. Nada mais justo.


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