Por Yuri Casari

Toda vez que você tira uma foto com sua câmera ou grava uma cena com sua filmadora, dependendo da marca do aparelho, há uma possibilidade bem grande de que você tenha uma ligação, ainda que mínima, com a pequena cidade alemã de Jena. O local é conhecido por sediar a Carl Zeiss, uma das mais famosas indústrias de sistemas ópticos do planeta, e que, naturalmente, se tornou uma das principais fornecedoras de lentes para câmeras fotográficas ou filmadoras. Ela foi fundada em 1846 como uma fábrica para mecânica de precisão e ótica, e logo se tornou parte importante da economia da cidade. Em 13 de maio de 1903, trabalhadores da Carl Zeiss decidiram formar um clube de futebol, assim como muitas outras agremiações formadas pelo mundo graças à união dos trabalhadores.

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Com o passar dos anos, o clube passou por diversas mudanças de nome e por um período de paralisação devido à Segunda Guerra Mundial. Após o conflito, e com a separação da Alemanha em duas, Jena ficou no lado socialista. Ainda como SC Motor Jena, o clube conquistou seu primeiro título de primeira divisão da DDR, em 1963. Em 1966, foi renomeado, dessa vez retornando às origens: FC Carl Zeiss Jena.

Com o novo-velho nome, a equipe se tornou em um dos principais formadores de valores para a seleção da Alemanha Oriental, com dois títulos da liga nacional, seis vice-campeonatos e quatro copas nacionais, além de uma campanha de destaque na Recopa Europeia da temporada 1980/81.

Após a reunificação, entretanto, assim como a maioria dos demais clubes da DDR, o Carl Zeiss foi relegado às divisões inferiores da Alemanha. Disputou a segunda divisão por oito anos e o máximo que alcançou na Copa da Alemanha foi a semifinal em 2008, quando foi derrotado pelo Borussia Dortmund por 3 a 0, para 80.708 torcedores, maior público da história da competição. Recentemente, o Carl-Zeiss acabou caindo mais um degrau na pirâmide do futebol alemão. Na temporada 2011/12, depois de três anos na 3.Bundesliga, o clube caiu para a quarta divisão, na Regionalliga Nordost, onde está até hoje em dia, apesar de ter batido na trave algumas vezes na briga pelo acesso.

O desempenho modesto dentro de campo é um contraponto à rotina da cidade. Jena é um município de cerca de 110 mil habitantes, formada em 20% por estudantes universitários, com indústrias tradicionais e institutos de pesquisa e educação reconhecidos internacionalmente por sua qualidade.

O estádio do Carl Zeiss também ressalta esse contraste entre uma sociedade emergente e um futebol decadente. O estádio público Ernst Abbe Sportfeld, nome dado em homenagem a outro grande cientista óptico radicado na cidade, é bastante antigo, foi fundado em 1924 e sofreu poucas alterações ao longo do tempo. Em meados de 2006, o prefeito Albrecht Schröter, que possui mandato até 2018, do SPD, Partido Social-Democrata da Alemanha, chegou a prometer a reforma do estádio para atender a necessidade do clube, que na época militava na segunda divisão e sonhava com a elite. Mas o rebaixamento para a terceira divisão em 2008 levou tudo água abaixo.

Entretanto, a população continuou a pressionar o poder público por soluções, inclusive criando uma associação para a causa. Em 2015, enfim, o parlamento de Jena decidiu pela construção de uma nova praça esportiva com capacidade aproximada de 15 mil espectadores. No momento, o projeto aguarda o aval para a construção, para então buscar um investidor. De acordo com o planejamento, o estádio atual deve ser demolido em 2018, e a expectativa é de que o FCC possa estar atuando no local ainda em 2019. O custo da obra está calculado em torno dos 22 milhões de euros.

Porém, no meio de todas essas idas e vindas da história, uma coisa quase nunca mudou: a torcida do Carl Zeiss sempre se posicionou na curva sul do estádio, a Südkurve. De acordo com os próprios torcedores, é ali que o coração do time bate, impulsionado mais recentemente pelos ultras da Horda-Azzuro, torcida organizada fundada em 2001. “A Südkurve é uma tradição, é onde a torcida do FCC está. E no último ano teve uma importância ainda maior. Se tornou uma marca registrada do clube. Algo único e de grande valor para nós”, afirma Clemens Vöckler, assessor de imprensa do movimento CrowdFANding.

E é justamente em torno desse setor que o conflito entre os torcedores e o conselho da cidade inicia. O projeto atual inclui extinguir o setor tradicional, implantando no lugar o setor de visitantes e passando o Südkurve para o norte. Isso já aconteceu entre 1998 e 2007, por conta de uma alegação das autoridades de que isso tornaria o estádio mais seguro. Argumento esse que é utilizado novamente para a concepção do novo projeto. Em 2015, a torcida do time demonstrou possibilidades para que o projeto fosse alterado e mantivesse a tradição. Mas novamente as autoridades encontraram empecilho, afirmando que os custos subiriam de maneira estratosférica, pois seria necessário a criação de diversas melhorias ao redor do estádio, para uma melhor acomodação dos torcedores visitantes, principalmente durante a chegada deles aos jogos.

Foi então que surgiu a ideia de tentar assumir um protagonismo que desse aos torcedores poder sobre essa decisão. A partir disso, foi criada uma plataforma de crowdfunding exclusiva para projetos envolvidos com futebol, chamada de CrowdFANding.  Inicialmente, a plataforma será usada apenas para o projeto do novo estádio de Jena, e posteriormente, será aberta a usuários do mundo todo. A ideia central foi criar uma ferramenta que conecte torcedores, e os ajude a alcançar objetivos comuns. “Torcedores do mundo todo possuem problemas com autoridades, federações, investidores, que possuem muito dinheiro e poder. Um torcedor, ou até mesmo um grupo, pouco pode fazer frente a isso. Mas se uma multidão de fãs de futebol se unirem, podem conseguir muito”, afirma Clemens.

E diferente do que poderia se imaginar, a direção do Carl Zeiss vê a iniciativa com muito bons olhos. “Nós estamos muito felizes por termos tantos fãs e adeptos. Nós entendemos nossos torcedores, sabemos o quanto a Südkurve representa pra eles. Apoiamos eles a tentar tudo o que for possível para preservar a casa deles. A torcida não apenas exige, ela toma para si a responsabilidade”, nos contou o assessor de imprensa da equipe, Andreas Trautmann. De acordo com Andreas, o apoio não se limita a palavras, mas também a ações. “Nós comunicamos e compartilhamos todas as informações do projeto e também o material feito nas redes sociais. E claro que nosso time – jogadores, dirigentes – contribuem com o crowdfunding de diferentes maneiras”, completa. Clemens também destaca a relação entre clube e torcida no momento. “O clube está 100% conosco. Possuem mais dívidas que dinheiro, mas nos ajudam com as redes sociais, cessão de salas de conferência, e com muita boa vontade. Há uns dias, os jogadores coletaram 1.350 euros para o projeto”, conta.

Mas a ótima ideia esbarra em um problema. Não há a certeza sobre qual o valor necessário para que a área do Südkurve seja salva. As autoridades, embora insistam na inviabilidade financeira, não informam quanto custaria a alteração no projeto. “Nós acreditamos que com o apoio de pelo menos 3 mil pessoas e um montante de cerca de 250 mil euros, tenhamos argumentos suficientes para ter voz nessa discussão, de onde alocar os torcedores visitantes e a Südkurve”, diz Clemens.

Apesar disso, o sonho do financiamento coletivo não é apenas um desejo de torcedores malucos. O grupo conta com o apoio direto do Fraunhofer Institute, uma organização que possui mais de 60 institutos por toda a Alemanha e trabalha em diferentes campos da ciência aplicada, empregando mais de 20 mil pessoas, especialmente cientistas e engenheiros. “Eles nos ajudam com know-how em uma área muito nova no futebol, que é a do torcedor como participante ativo. Eles contribuíram com a criação da plataforma CrowdFANding, além de estarem fazendo pesquisas para o nosso projeto e também em como o financiamento coletivo pode ser bem-sucedido em projetos esportivos de torcedores”, explica Clemens.

Até o momento, o crowdfunding dos torcedores do Carl Zeiss arrecadou 95 mil euros, ultrapassando o mínimo estabelecido de 50 mil euros, e já recebeu doações de 17 países diferentes. Aliás, saiu do Brasil a primeira participação do exterior. Admirador do futebol alemão (e especialmente de torcidas “barulhentas”), Igor Cabral, de Belo Horizonte, ficou sabendo do movimento através da Südkurve München, um grupo de torcedores do Bayern. “O nosso grupo da Südkurve faria uma doação conjunta, mas as taxas de transferência bancária internacional são muito caras. Para não ficar sem ajudar, eu doei direto para eles via paypal. Acabei sendo o primeiro doador de fora da Europa por mero acaso”, explica.

Para Igor, o financiamento coletivo é uma forma de atingir objetivos, mas também de reforçar a importância do torcedor no espetáculo do futebol. “Acho que o crowdfunding cumpre dois papéis fundamentais: o papel objetivo, que é levantar o valor necessário para realizar os projetos, e o papel subjetivo, que é uma demonstração de que os torcedores têm apoio e não são meros consumidores de um conteúdo comoditizado. Nós fazemos parte do esporte e somos capazes de influenciar o futuro dele. Mais do que isso, eu diria que nós torcedores somos a razão de ser do futebol”, complementa.

Da mesma forma, Clemens acredita que o sucesso do projeto pode ser totalmente viabilizado pela paixão, e é por isso que a plataforma será extendida para todos, pois eles entendem que será uma ferramenta importante para a batalha diária de torcedores por aquilo que tanto se dedicam. “Todo torcedor está disposto a dar 150% para alcançar seu objetivo, e esperamos que ele consiga com o CrowdFANding”, finaliza.

Veja a festa que acontece na Südkurve:

A campanha na recopa europeia de 1980/81

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Foto: Imago

Logo na primeira fase do torneio continental, o Carl Zeiss Jena realizou uma virada extraordinária sobre a Roma, que contava com um meio-campo histórico formado por Paulo Roberto Falcão, Carlo Anceloti e Bruno Conti. Depois de perder a ida por 3 a 0, o que seria uma protocolar partida de volta, virou um massacre de 4 a 0, com dois gols de Bielau, um de Krause e outro de Lindemann.

Na fase seguinte eliminou o Valencia, da Espanha, e após um duro duelo contra o Newport, de País de Gales, o time alemão deixou o gigantesco Benfica para trás nas semifinais. Entretanto, o sonho acabou de forma dramática. Em 13 de maio de 1981, dia do 78º aniversário do clube, a equipe caiu diante do Dínamo Tblisi, então representante da União Soviética, e que contava com alguns dos maiores craques da história do futebol da Geórgia, como Chivadzi, Gutsaev, Kipiani e Shengelia (desses, apenas Gutsaev não recebeu o prêmio de jogador soviético do ano, durante a carreira).