Um dos grandes debates que vira e mexe emerge é a de torcida por clube ou seleção. A seleção da Alemanha vive uma situação complicada no seu próprio país. Torcedores andam insatisfeitos com a DFB (Deutscher Fussball-Bund, a Federação de Futebol Alemão) e a recepção da seleção em Wolfsburg, onde fará um amistoso com a Sérvia, foi com muitos protestos. Os grupos de torcedores ligados ao Wolfsburg, clube da cidade, assumiram a autoria dos protestos.

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Se você pensa que os protestos têm a ver com o péssimo desempenho da Alemanha na Copa de 2018, eliminada na primeira fase, ou mesmo depois, quando foi rebaixada na Liga das Nações. Os protestos têm a sua raiz nas estruturas do futebol alemão, onde os torcedores são bastante críticos com a gestão do esporte no país. E a insatisfação ficou bastante clara com mais de 40 faixas de protestos na cidade que fica no norte da Alemanha.

“Amor ao clube em vez de futebol de seleções sem sentido”. dizia uma das faixas. Essa foi uma das faixas mais leves. Outra chamava os dirigentes de “bastardos corruptos”. A forma como a DFB se relaciona com os torcedores é o principal ponto de reclamação. “Nós gostaríamos de aproveitar esta oportunidade para mais uma vez ressaltar as críticas e demandas feitas pelos grupos de torcedores alemães em relação à DFB”, afirma um comunicado da Nordkurve Wolfsburg, uma coalizão de grupos de torcedores do clube, com várias organizadas, e que assumiram a responsabilidade pelas faixas estendidas em frente à concentração da Alemanha na cidade.

As reclamações passam por vários itens, que os torcedores alemães têm tornado públicas regularmente nos últimos dois anos. Entre as reclamações, o horário de início dos jogos, a regra limitadora dos 50+1 (que impede que empresas possuam mais de 50% de um clube), punições coletivas, materiais de torcedores (bandeiras, instrumentos e sinalizadores, por exemplo), VAR e maior transparência no processo de decisão.

“As DFB, a DFL (Liga Alemã de Futebol, que gere a Bundesliga) e os clubes finalmente precisam começar a se comunicar conosco abertamente e frequentemente sobre questões relativas aos torcedores”, diz ainda o comunicado de torcedores do Wolfsburg, que quer menos decisões a portas fechadas em pontos chave do futebol alemão. “Esta é a única forma de construir uma opinião informada dentro dos clubes”.

A iniciativa dos torcedores do Wolfsburg passa longe de ser algo isolado. A DFB tem enfrentado protestos desse mesmo tipo em outros lugares e de outras formas. Em fevereiro de 2019, a Fanszene Deutschlands, um grupo que reúne diversas torcidas, incluindo os chamados ultras, anunciou que “Apenas começou”, se referindo aos protestos que se espalharam pela Alemanha. Esse tipo de protesto organizado por torcidas acontece sistematicamente desde que torcedores do Dynamo Dresden declararam guerra à DFB, em uma controversa partida em Karlsruhe em maio de 2017.

A DFB recebeu os Fanszenen Deutschlands em setembro de 2018, mas as conversas acabaram sendo interrompidas e os torcedores descreveram a abordagem da DFB como “ignorante, arrogante e nada profissional”. Apesar disso, as pressões surtiram efeito. Dois meses depois da reunião, a DFL confirmou que os jogos às segundas-feiras seriam abolidos, algo que muitos torcedores já pediam desde que eles foram implantados. Os torcedores, porém, estão insatisfeitos com muito mais.

A relação ficou ainda mais abalada desde que a revista alemã Spiegel revelou que a DFB decidiu tirar um amistoso contra o Peru de Frankfurt para Hoffenheim, uma cidade menor e mais rural, por temor pelos protestos de ultras do Eintracht Frankfurt. “O risco de sofrer um desastre que poderia ter um efeito negativo na candidatura da Eurocopa é alto demais”, diz um e-mail vazado do presidente da DFB, Reinhard Grindel, que já foi eleito para o Comitê Executivo da Fifa. “O cenário dos ultras em Frankfurt é muito imprevisível”.

Os dirigentes temiam que os protestos poderiam prejudicar a candidatura da Alemanha para sediar a Eurocopa de 2024, que ainda não tinha sido definida – a Alemanha venceria a disputa, graças especialmente à sua infraestrutura. A revelação das conversas, que emergiram graças ao Football Leaks, minou ainda mais a confiança dos torcedores em relação à DFB.

A Alemanha tem tido problemas para encher os estádios com jogos da seleção do país. Ainda havia ingressos para o jogo com a Sérvia no dia do jogo, assim como aconteceu em amistosos recentes contra a Rússia, em Leipzig (35.288 pessoas) e Holanda, em Gelsenkirchen (42.186 pessoas), que não ficaram esgotados.

O vexame na Copa do Mundo de 2018 não ajudou em nada, ao contrário. Depois da campanha na Rússia, a DFB anunciou medidas para reconstruir a relação dos torcedores com a seleção, que tem perdido apoio. Uma das medidas é diminuir os preços dos ingressos, com os mais baratos começando em € 15. Esses preços, porém, só começarão a ser praticados em junho, contra a Estônia, pelas Eliminatórias da Eurocopa 2020.