A Copa do Mundo de 2022 no Catar está causando muita controvérsia desde o começo. A mais recente foi a prisão de jornalistas da BBC pelo governo do país do Oriente Médio. As denúncias se somam, desde suspeitas em relação ao processo de escolha da sede que deu a Copa ao Catar até as condições de trabalho escravo no país. A Fifa insiste em defender que todas as medidas para averiguar essas questões estão sendo tomadas, mas tudo soa insuficiente. Ao mesmo tempo que torcedores se organizam para um protesto contra os patrocinadores da Copa do Mundo nas redes sociais, a Visa, uma das mais importantes patrocinadoras da Fifa, manifestou a sua preocupação com a Copa de 2022.

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Em comunicado no seu site, a Visa mostrou a sua preocupação com as denúncias que têm sido feitas em relação ao trabalho escravo no Catar:

“Nós continuamos incomodados com os relatos vindos do Catar relacionados à Copa do Mundo e às condições dos trabalhadores imigrantes. Nós expressamos a nossa grave preocupação para a Fifa e insistimos que tomem todas as ações necessárias para trabalhar com as autoridades e organizações apropriadas para remediar esta situação e garantir a saúde e segurança de todos os envolvidos”

Não é a primeira vez que a Visa se manifesta nesse sentido. Em novembro de 2014, em meio às denúncias em relação à Fifa (explicamos a situação na época falando sobre o relatório que inocentou a Fifa, o Catar e seus dirigentes), a empresa também mostrou preocupação e divulgou nota cobrando mais transparência da entidade. Os escândalos envolvendo a Fifa não são recentes e ano passado a entidade esteve atribulada em relação ao relatório de Michael Garcia, nunca efetivamente divulgado como pedido pelo próprio ex-promotor de Nova York. A empresa divulgou a sua posição no dia 24 de novembro.

“Nós estamos incomodados com os eventos recentes envolvendo a Fifa. Nas nossas discussões, nós deixamos claro que uma maior transparência e uma comunicação mais aberta e franca não é apenas fundamental, mas é a única maneira para o público recuperar a confiança na Fifa e em tudo que ela representa. É nossa expectativa que a Fifa irá agir de acordo e tomar as ações rapidamente para resolver estas questões de uma maneira significativa e visível para todos”.

A Coca-Cola também divulgou nesta quarta-feira um comunicado sobre a situação, depois de ser pressionada. “A Coca-Cola Company não tolera abusos dos direitos humanos em qualquer lugar do mundo”, disse um porta-voz da empresa. “Nós sabemos que a Fifa está trabalhando junto com as autoridades do Catar para tratar de questões trabalhistas e de direitos humanos. Nós esperamos que a Fifa continua levando estas questões seriamente e trabalhe em direção a mais progressos”.

Muitos já perceberam que a Fifa não tomará ações enquanto o dinheiro gerado pela Copa do Mundo continuar entrando nas contas da entidade. Por isso, muitos torcedores estão se organizando para uma campanha nas redes sociais cobrando uma posição exatamente dos patrocinadores da Fifa e da Copa do Mundo. Afinal, são eles que financiam, indiretamente, que a entidade mantenha a Copa no Catar.

A campanha usa a hashtag #FIFASlavery (“Slavery”, em inglês, significa escravidão) e está pronta na internet. A ideia é usar o Twitter para pressionar as empresas patrocinadoras a se posicionarem. O tuíte padrão acusa Adidas, Hyundai, Kia, McDonald’s, Budweiser, Coca-Cola e Visa, as empresas patrocinadoras, de apoiarem “a escravidão e mais” e coloca o link para a campanha no Change.org:

“ @adidas, @Hyundai, @Kia, @McDonalds, @Budweiser, @CocaCola, @Visa support slavery and more, I do not. #FIFASlavery http://hfht.co/r5MNH

A campanha criada na internet chama a atenção não apenas para o trabalho escravo. O texto inicial da petição online criada diz: “Parem de patrocinar escravidão, corrupção, misoginia e homofobia (Copa do Mundo Catar 2022). A carta, que se endereça a todas as empresas citadas no tuíte elaborado acima e mais a Gazprom, diz o seguinte:

“Os Direitos Humanos não deveriam ser violados e nós, torcedores de futebol, poderíamos simplesmente assistir futebol, pessoas estão morrendo, sendo colocadas na escravidão e tudo isso em nome do futebol. Adidas, Gazprom, Hyundai, Kia, McDonald’s, Budweiser, Coca-Cola e Visa são todos patrocinadores da Copa do Mundo e, portanto, patrocinam a violação dos Direitos Humanos”

Na campanha organizada pelos torcedores, há um link para o Human Rights Watch, uma organização não-governamental que faz relatórios sobre violações de direitos humanos no mundo todo. Há todo um capítulo só relacionado ao Catar. Os torcedores divulgaram os contatos de e-mail das empresas patrocinadoras e incitam que todos enviem uma mensagem cobrando uma posição sobre o assunto. A campanha nas redes sociais irá começar só no dia 15 de julho, às 6h (horário de Brasília).

O movimento é importante porque a Fifa parece mesmo ignorar todos os avisos sobre os problemas do Catar. Mais do que isso, parece disposta a passar por cima disso, desde que consiga faturar como tem faturado. Então, atacar quem dá dinheiro à Fifa parece uma estratégia mais interessante. Em menos de 24h que a campanha começou, duas empresa já se manifestaram sobre a questão dos direitos humanos, enquanto a Kia, através do seu escritório no Reino Unido, embora não tenha se manifestado especificamente sobre essa questão, disse que encaminhará ao setor responsável da Kia Global.

Uma campanha online, com a capacidade e o alcance que pode ter atualmente, pode gerar muita repercussão. E isso nós veremos quando acontecer, efetivamente. Mas parece que a Copa do Mundo do Catar ainda receberá muita pressão.