Você não precisa acompanhar futebol inglês há muito tempo para saber que a relação da ex-primeira ministra britânica Margaret Thatcher e os torcedores do país foi, digamos, turbulenta. E, caso isso não estivesse claro, torcedores do Liverpool presentes em Madri para a final da Champions League contra o Tottenham, neste sábado, decidiram não deixar dúvidas. Na capital espanhola, encontraram a Praça Margaret Thatcher e decidiram “renomeá-la” como “Praça Jeremy Corbyn”, em homenagem ao líder do Partido Trabalhista do Reino Unido.

Em 1988, Thatcher se tornou a primeira premiê britânica a fazer uma visita oficial à Espanha. A decisão de nomear a praça em homenagem a Thatcher aconteceu em 2014, quando o Partido Popular, de direita, estava no poder por meio do presidente Mariano Rajoy. Em 2015, a prefeita de Madri, Manuela Carmena, de esquerda, indicou sua intenção de revogar o nome, dizendo que não queria que “um espaço de uso público na cidade fosse batizado em homenagem à Dama de Ferro que escravizou os trabalhadores”.

Linha do tempo estabelecida, avancemos a esta sexta-feira, 31 de maio de 2019. Os torcedores do Liverpool, assim como os do Tottenham, vão tomando as ruas de Madri em meio ao esquenta para a decisão da Liga dos Campeões no Wanda Metropolitano. Um grupo foi parar justamente na Praça Margaret Thatcher, já com um plano em mente.

“Não aceitamos que esta mulher possa ser celebrada desta maneira em um país estrangeiro, onde não entendem o dano que ela causou de fato. Você sabe que Liverpool é Partido Trabalhista, sempre foi e sempre será. Então, pensamos em comemorar isso com o Jezza (Jeremy Corbyn) aqui”, disse em declaração publicada pelo Independent o torcedor Paul Doherty, envolvido na ação que incluiu a colocada do nome de Corbyn sobre a placa de Thatcher no local.

“Dominamos a Praça Thatcher, agora é Praça Corbyn.”

De fato, se a relação de Thatcher com os torcedores ingleses foi atribulada, com a torcida do Liverpool você podia cortar a tensão no ar com uma faca. Nos anos 1980, poderosos, incluindo a ex-primeira ministra, detestavam o futebol e categorizavam todo torcedor como hooligan. Outra coisa de que aquele governo não gostava era de sindicatos. Esses, por sua vez, tinham uma forte simbiose com as organizadas. E se algo era forte em Liverpool, essa coisa eram as torcidas de futebol e os sindicatos.

Por diferentes motivos, Heysel e Hillsborough, ambos envolvendo torcedores do Liverpool, tanto como algozes quanto como vítimas, foram símbolos da violência e do despreparo que cercavam o futebol inglês – e oportunidade de ouro encontrada por Thatcher e pelo Partido Conservador britânico para estrangular as torcidas e todo o ambiente do futebol, cenário que culminou no relatório Taylor.

Hillsborough, mais especificamente, foi um catalisador. A tragédia, que viu a morte de 96 pessoas, foi manipulada pelas autoridades, e um relatório em 2012, que culpou as autoridades, mostrou que a polícia e os serviços de emergência tentaram jogar a responsabilidade nos torcedores, enquanto fatores importantes, como o péssimo estado de conservação do estádio e a má distribuição de ingressos, foram ignorados.

Como o torcedor Paul Doherty aponta acima, Liverpool é uma cidade historicamente mais inclinada à esquerda política. Uma cidade marcada por suas indústrias e que foi alvo de políticas de Thatcher como o fechamento e a privatização de fábricas – sem falar nos conflitos no bairro de Toxthet, palco de violento protesto em 1981 que levou membros do governo a recomendarem à ex-primeira ministra que deixasse Liverpool “em declínio”.

Logo, seria inevitável que a praça Margaret Thatcher fosse marcada de alguma maneira pela viagem dos Reds a Madri.