Desde a última semana, o nome de Tony Parker passou a ocupar manchetes também no noticiário sobre o futebol. Presidente do Lyon há mais de três décadas, Jean-Michel Aulas declarou que o craque do basquete é a pessoa ideal para sucedê-lo à frente do clube. Ambos possuem uma longa relação e Parker, além de ser acionista majoritário do principal time de basquete da cidade, também virou sócio de Aulas em investimentos no futebol feminino nos Estados Unidos. Segundo o ex-armador, a consideração é uma “honra” e, embora ressalte que “precise aprender muito”, este é o tipo de oferta “que não poderia recusar”.

Na esteira da notícia, a revista SoFoot realizou uma ampla entrevista com Tony Parker. O ídolo do San Antonio Spurs, quatro vezes campeão da NBA e uma vez MVP das finais, falou sobre sua relação com o futebol. Resgatou suas melhores memórias do esporte, comentou a influência que os gramados tiveram em sua trajetória nas quadras e apontou suas inspirações mútuas – inclusive pela amizade com ex-jogadores, a exemplo de Thierry Henry. Além do mais, o atual presidente da Asvel Basket apresentou suas visões como dirigente e confessou que o Football Manager o instigou a seguir carreira na gestão esportiva. Abaixo, destacamos diversos trechos por tópicos, confira:

O início da paixão pelo futebol

“Não sei qual a razão do meu amor pelo futebol. As pessoas podem não saber, mas para mim é algo lógico. É o esporte número 1 na França e também iniciei minha carreira esportiva como jogador de futebol, atuei por três anos no Dieppe. Tenho muitos amigos no futebol, estive em muitos jogos. Fui à final da Copa de 2006, à final da Champions de 2009, à de 2011 também. Através de Henry e Zizou, sempre acompanhei de perto o futebol”

As primeiras memórias

“O futebol foi meu primeiro amor, especialmente quando você cresce na França. Lembro da Copa de 1990 como se fosse ontem. Foi a primeira que vi na televisão, aos oito anos, com a Itália de Totò Schillaci. Ainda me lembro de Camarões como a sensação e perdendo para a Inglaterra. Foi uma loucura. Essas imagens me marcaram quando eu era jovem, gostava muito de futebol. E mesmo que eu tenha mudado para o basquete depois das finais de Michael Jordan, ainda mantive meu amor pelo futebol”

A Copa de 1998

“Sou um grande fã da Copa de 1998. Na época da final, estávamos no exterior com o time júnior de basquete da França. Tivemos uma festa na Bulgária. Essa vitória sempre foi uma das minhas motivações para marcar o esporte francês da mesma maneira. Antes, a frase favorita dos franceses era ‘o importante é competir’. Nunca entendi essa frase. Para mim, o mais importante é vencer. Em 1998, finalmente vimos a França vencer. Isso me inspirou, inspirou outros atletas franceses e inspirou todo o país”

Os antigos ídolos

“Meu jogador preferido era o Marco van Basten. Minha mãe é holandesa, então ela me falava sobre ele. Depois, veio George Weah. Quando éramos mais jovens, morávamos na Normandia e o grande clube mais próximo era o PSG. Então, com meus irmãos, crescemos como torcedores do clube. Teve o título em 1994, com Raí, Weah… Aos 17 anos, também assinei com o PSG Basket, então assisti a muitos jogos no Parc des Princes”

O talento com a bola quando criança

“Não posso julgar minha qualidade como atacante porque joguei no Dieppe dos seis aos nove anos de idade. Corria por toda a parte, mas não dá para dizer se era bom ou não. Eu já era muito rápido, com as mesmas qualidades que tinha no basquete. Eu adorava correr e, com o tempo, encontrei muitos movimentos semelhantes entre os dois esportes. Essa velocidade, o gosto pelo esforço e por correr constantemente, começou no futebol. E me ajudou no futuro. Gostava da sensação de correr, de defender e subir depois até o ataque”

A ideia de ser jogador e a motivação de Henry

“Se o basquete não tivesse entrado na minha vida, acho que poderia ter tentado a carreira no futebol profissional, com certeza. Quando tinha seis anos, era o que eu queria. O futebol inspirou minha carreira em termos de mentalidade. Por minha amizade com Henry, nos inspiramos mutuamente em nossas carreiras. Nós nos elevamos juntos”

O gosto por jogar futebol e acompanhar depois de adulto

“Mesmo na NBA, eu continuava jogando futebol sempre. Tenho um pequeno campo em minha casa em San Antonio, onde jogo com amigos. Na Asvel, durante o almoço, podemos jogar futebol juntos. Está sempre na minha vida. Também acompanhava amplamente os campeonatos. Sendo próximo de Henry, via o Arsenal, depois o Barcelona. Segui doente por futebol. A Champions passava na TV. Com o fuso horário, os jogos passavam antes da soneca da tarde. Era perfeito. Era mais fácil do que faziam os jogadores de futebol, que sacrificavam noites para ver a NBA”

Seus times favoritos

“Na última década, o que realmente me impressionava era o jogo do Barcelona. Controlavam a bola e o adversário, graças a jogadores formidáveis como Iniesta, Xavi ou Messi. Era lindo de ver. Mas também admiro o Real de Zizou. Ganhar três vezes a Champions é algo incrível. Em qualquer esporte, manter o sucesso de maneira regular é muito complicado”

O Football Manager influenciou os rumos como dirigente

“Quando era mais jovem, era viciado em Fifa, mas acabou. Adorava jogar Fifa ou games como Football Manager. Passei tantas noites em claro, com meu irmão mais novo ou com Ronny Turiaf [outro veterano francês da NBA]. FM era meu jogo. Eu acelerava as partidas, o que mais interessava era a parte de administrar um clube e fazer transferências. Não é exatamente como na vida real, mas fornece boas ideias e traz esse gosto pela função. Gerir o dinheiro, os salários, o marketing… O jogo é muito completo. Isso me deu o básico e me fez querer seguir na carreira. Por fim, sempre soube que estava mais atraído pela liderança e pelo gerenciamento do que em ser treinador. Nunca quis ser técnico. Adoro o lado esportivo, é claro, mas também o negócio, a bilheteria, como melhorar a experiência do torcedor, como conseguir patrocinadores…”

Seu perfil como presidente

“Não sou o tipo de presidente que grita por gritar. É mais como sinto a equipe. No entanto, não quero me intrometer no trabalho do treinador. Ele deve manter sua autoridade. Mas, se sinto que posso ajudar falando no vestiário, isso também é papel de um presidente. Existem muitas semelhanças entre o futebol e o basquete, algumas coisas são realmente diferentes, mas ambos ainda são esportes. Você gerencia humanos e depende de você unir todos em torno de um objetivo comum. Se eu pudesse ter o melhor dos dois mundos, seria enorme”

A proximidade com Jean-Michel Aulas

“Nossa maneira de pensar nos aproxima o suficiente. Somos duas pessoas positivas, que amam olhar para frente, que desejam avançar. Temos uma visão bastante semelhante sobre o futuro: como construir uma equipe, quais pessoas colocar nos lugares, quais estratégias adotar para fazer os projetos avançarem. Jean-Michel sempre foi um visionário e eu tento, guardadas as devidas proporções, fazer o mesmo com meu time de basquete. São qualidades necessárias para fazer crescer o clube. Existem coisas que fizemos na Asvel que nunca tinham sido realizadas na história do basquete francês”.

Como conheceu Aulas

“Conheci Jean-Michel há 15 anos. Fomos apresentados em um evento da EA Sports, através de Henry. Foi assim que nossa amizade começou. Também tínhamos muitos amigos em comum, mantivemos contato, começamos a nos ver todos os anos. Ele estava sempre nos eventos da minha fundação. Durante a Euro 2008, ele me colocou no avião para ver a seleção. Em 2009, comecei a participar da Asvel como acionista minoritário e, em 2014, me tornei acionista majoritário. Ele sempre esteve disponível para me aconselhar. Desde o ano passado, decidimos nos aproximar mais, sabendo que a fusão entre Lyon e Asvel pode avançar projetos globais”

O tamanho do sucesso do Lyon

“Na minha opinião, o Lyon é um dos clubes com melhor estrutura da Europa. O que Jean-Michel colocou em prática é algo bastante singular. Quando ele pagou todos os investimentos iniciais, para tirar o clube do vermelho, o Lyon pode reinvestir ainda mais no lado esportivo. Seria incrível para Jean-Michel terminar com um título europeu ou outro de campeão francês. Na minha opinião, é completamente possível. A diferença em relação ao PSG é grande, mas a beleza do esporte é que tudo é possível. Você pode ter o maior orçamento e não ganhar. Além disso, o Paris ainda não venceu a Champions, apesar dos investimentos”

A relação com o esporte na França

“Sempre gostei de investir na França. Comecei no basquete, mas meu objetivo é investir no esporte francês em geral. Na minha academia, já temos os departamentos de e-sports e tênis. Sou um amante de esportes. Os negócios ainda são negócios, mas o futebol sempre teve um lugar especial para mim. Não é como seu eu estivesse investindo em algo completamente novo”