“Uma vez eu estava voltando de lesão e jogava pelos reservas, contra o Preston, em Anfield. Eu fui abordado por um homem com sua esposa quando deixava o estádio. Eu perguntei em que poderia ajudar e eles simplesmente me agradeceram por não ter chutado o filho deles. Ele jogava como atacante pelo Preston. Eu não tinha intenção de fazer alguma coisa com aquele garoto, mas minha reputação havia obviamente chegado não apenas a ele, mas aos seus pais também”.

A preocupação da família do jogador do Preston não era por acaso. Tommy Smith inspirava medo nos adversários. Esforçou-se para cultivar a reputação de ser um defensor que desarmava os adversários com firmeza – às vezes, com muita, muita firmeza. Recebeu o apelido de “Anfield Iron”, o “Ferro de Anfield”, em tradução livre. Seu antigo técnico, Bill Shankly, um dia afirmou que ele não nasceu: foi extraído de uma pedreira. Após anos lutando contra a demência, morreu nesta sexta-feira, aos 74 anos, depois de ter disputado 638 jogos pelo Liverpool, do qual chegou a ser capitão no fim da passagem de Shankly, com quatro títulos ingleses, dois da Copa da Inglaterra, dois da Copa da Uefa e a Copa da Europa de 1977, quando marcou um dos gols da vitória por 3 a 1 sobre o Borussia Monchengladbach.

Smith nasceu nos arredores de Anfield e chegou ao Liverpool aos 15 anos, em 1960. O pai havia morrido há pouco tempo. A família recebia ajuda do governo para comprar comida. E dois de seus dentes haviam sido retirados. Foi levado pela a Shankly pela mãe, que pediu ao treinador que cuidasse bem do seu filho, o que ele fez em termos. Claro que deu a Smith a oportunidade de ter uma carreira no futebol profissional. Mas também o enviava a campo como um general envia um soldado à guerra.

Smith (à direita) com a taça da Copa da Inglaterra de 1974 (Foto: Getty Images)

Especialmente porque a religião de Shankly o impedia de acreditar em lesões. Smith teve que literalmente rasgar a perna do joelho ao tornozelo para ser retirado de um jogo contra o Servette, pela Recopa Europeia. A cicatriz permaneceu em sua perna para sempre, como uma lembrança dos sacrifícios que fez pelo Liverpool – ele também teve que inserir reforço de metal nos joelhos, no quadril e em um cotovelo, o que eleva a novas proporções o seu apelido.

“Se eu não fizesse um sacrifício para o Liverpool, quem faria? Naqueles dias, pelo que você ganhava, você tinha que colocar o seu corpo na linha de tiro. O futebol me deu minha vida. Ser parte do Liverpool por 18 anos, ganhando tantas coisas, e fui capitão do time, eu não me arrependo. Eu passaria por tudo isso novamente”, disse, em entrevista ao Telegraph, em 2008.

Tommy Smith começou sua carreira pintando áreas de Anfield e fazendo jardinagem no gramado. Quando passou de quebra-galho a jogador, atuou ao lado do herói Billy Liddel no time reserva. Em 1960, assinou termos profissionais com o Liverpool, momento em que a senhora Smith voltou à cena: “Ao fim da reunião, minha mãe levantou e disse: ‘senhor Shankly, vocês nunca venceram a Copa da Inglaterra, certo?’ Shankly respondeu: ‘Não, nunca’, e minha mãe emendou: ‘Vou lhe dar um conselho: quando Tommy jogar no time, vocês vencerão a copa!”.

Smith ficou, claro, envergonhado. “Você não diz coisas assim para os treinadores! Você apenas obedece o que eles dizem!”, disse à mãe. Com muita personalidade, o jovem batia frequentemente na porta de Shankly pedindo uma vaga entre os titulares e finalmente a conseguiu em 1964/65, quando atuou em 40 partidas. E adivinha o que aconteceu naquela temporada? O Liverpool venceu a Copa da Inglaterra pela primeira vez em sua história. “Shankly me abraçou e disse: ‘Smithy, sua mãe deve ser uma das melhores videntes do mundo!’”, relembra.

A polivalência ajuda a explicar a sua longevidade de 18 anos. Depois de ser pintor e jardineiro, começou jogando como atacante. Ainda usando a camisa 10, foi deslocado para a defesa, o que naquela época de escassez de informação confundia adversários estrangeiros que o Liverpool enfrentava em competições europeias. Também atuou no meio-campo e na lateral direita, até Phil Neal assumir a posição, nos anos setenta.

Como capitão, Smith levantou a taça da Copa da Uefa de 1973 (Foto: Getty Images)

Apesar da fama de violento, era descrito como alguém que entrava duro, mas com lealdade, tanto que foi expulso apenas uma vez na carreira – e por reclamação. E ele tinha a cortesia de avisar os adversários que acertaria suas canelas. “Quando Jimmy Greaves veio a Anfield uma vez, eu lhe entreguei um pedaço de papel. Ele disse: ‘O que é isso?’. ‘Apenas abra’. Era o cardápio da enfermaria do Liverpool”, disse. “Do jeito que falam, era como se eu saísse por aí cometendo assassinatos. Eu nunca comecei uma briga na vida. Eu não ficava andando por aí chutando as pessoas e nunca fui expulso por uma entrada violenta. As outras entradas, eu ia na bola e, se isso significava machucar as pessoas no processo, bem, acontece. Significava que na próxima vez que eu fosse atrás da bola, o adversário não estaria lá. Eu o avisava. Era futebol, um jogo para adultos, não para crianças”.

Smith tinha qualidade com a bola nos pés. Sua coleção de gols pelo Liverpool chega a 48, mas nenhum deles foi mais importante do que o de 1977, em Roma. Smith havia passado dos 30 anos e vinha perdendo espaço no time. Havia anunciado que aquela seria sua última temporada. Atuou apenas 27 vezes, a menor marca da sua carreira desde que se firmou no time principal. Foi titular na final da Copa dos Campeões, fazendo dupla de zaga com Emlyn Hughes, seu desafeto no elenco e o homem que o substituiu como capitão. O adversário era o Monchengladbach, o mesmo da Copa da Uefa de 1973, quando teve a honra de levantar o troféu.

O Liverpool saiu na frente, mas levou o empate, no começo do segundo tempo. Aos 19 minutos, Steve Heighway cobrou escanteio pela esquerda. A jogada treinada era Smith desviar na primeira trave para Keegan. Mas, desta vez, o zagueiro cabeceou direto às redes do Borussia Monchengladbach e fez 2 a 1 para os ingleses. Phil Neal cobrou pênalti sofrido por Keegan para fechar o placar do primeiro título europeu dos Reds.

O título fez com que Smith estendesse a carreira por mais um ano. Ele ainda ajudou o Swansea a subir da quarta para a terceira divisão antes de pendurar as chuteiras. “Quando eu cheguei ao Liverpool, Shankly me disse: ‘Não aceite desaforo de ninguém’. E, daí em diante, eu não aceitei. Se era preciso dar uma entrada, eu dava. Tudo valeu a pena. Pela camaradagem, pelos torcedores, pelo sucesso que tivemos. Eu me senti perdido quando deixei o Liverpool”, encerrou.