Celtic é o time a ser batido na Escócia há alguns anos. Para ser preciso, há exatamente nove temporadas. Em todas elas, o time verde e branco da Escócia terminou com o troféu de campeão. O desafio do time será repetir o feito, enquanto o grupo dos demais, liderados pelo Rangers, tentam quebrar a hegemonia da equipe fundada por irlandeses católicos.

A temporada na Escócia será histórica, seja qual for o resultado. Se o favorito Celtic confirmar o título, será a primeira vez que um clube consegue 10 títulos seguido. O Rangers conseguiu nove de 1989/90 a 1996/97. O próprio Celtic fez uma sequência de nove títulos de 1965/66 a 1973/74.

Alguns chamam, não sem razão, que o Campeonato Escocês é um dos campeonatos mais previsíveis do mundo. Uma espécie de estadual da Europa. Alguns diziam que era uma espécie de Gauchão que fala inglês, mas até o Gaucho teve um campeão diferente recentemente, o Novo Hamburgo, campeão em 2017.

Na Escócia, a última vez que o título ficou fora dos dois gigantes, Celtic e Rangers, foi na longínqua temporada 1984/85. Naquela temporada, o Aberdeen, de Alex Ferguson, era bicampeão escocês. Um feito fantástico que o levou ao Manchester United em 1986 – e o resto é história.

O técnico do Celtic, Neil Lennon, acredita que a pressão sobre o seu time, nesta temporada, será menor, mesmo com a questão dos 10 títulos sendo a história da temporada. “Eu não diria que não há pressão, mas é certamente não tão intensa”, disse o treinador depois da confirmação do título na temporada passada. “Eles igualaram nove agora e buscar o 10º é algo muito especial e algo que todos estamos ansiosos para fazer”.

“A conversa sobre os 10 títulos seguidos ou se o Rangers poderá interromper isso será constante. Será toda semana. Os jogadores, o técnico e a comissão técnica terão a oportunidade de escrever seus nomes na história. É claro, tem um pouco de pressão, há pressão toda semana, mas nas últimas temporadas eles mostraram que podem lidar com isso”, disse o comentarista da Sky Sports, Andy Walker.

“Apesar que será totalmente diferente sem torcedores, mas há um nível de profissionalismo que você vê no Celtic, especialmente quando você olha para as primeiras rodadas, ter um bom início”.

Odsonne Edouard, do Celtic (Divulglação/Celtic)

É uma temporada com um caráter histórico para o Celtic, que tenta desesperadamente manter o atacante Odsonne Edouard, destaque na temporada passada. Comandados pelo capitão Scott Brown, de 35 anos, o Celtic busca um feito. O time é o mais ajeitado e larga, mais uma vez, como favorito por uma longa margem. Jogadores como Callum McGregor, Ryan Christie e James Forrest tornam o elenco do time o mais bem equipado para o Campeonato Escocês e para escrever um capítulo histórico.

No cenário atual, será preciso uma improvável série de problemas para que o Celtic não seja mais uma vez campeão. O time tem elenco, tem um técnico experiente e que já se acostumou a vencer no clube, Neil Lennon, é um time com a mentalidade perfeita para conquistar pontos mesmo quando não está no seu melhor e lida bem com a pressão.

Gerrard e a imensa pressão no Rangers

Gerrard no Rangers (Foto: Getty Images)

Se de um lado Neil Lennon diz que a pressão sobre os seus jogadores não será tão grande quanto antes, no Rangers é o inverso. O ex-jogador terá uma missão árdua pela frente e enfrentará uma lista de problemas para conseguir superar o que vem pela frente. Não é pouca coisa que precisa ser feita para que a sequência enfim seja interrompida.

Entre os problemas que Gerrard enfrenta é justamente ter um elenco curto, que não tem muita qualidade para além do time titular. Se tiver lesões, ou quando a sequência de jogos vier, será preciso ir além. O técnico já pediu mais dinheiro para contratações, o que ainda não foi possível.

“O mais importante para os Rangers será continuar a forma que eles mostraram. Muitas pessoas irão olhar em volta e dizer: ‘O que Steven Gerrard tem eu fazer?’ Bem, começar a temporada exatamente da mesma forma que começaram na temporada passada. Quando você olha na temporada passada, a diferença era de 13 pontos quando foi interrompida. Com os mesmos jogadores e a mesma comissão técnica, é muito difícil mudar, porque você estabeleceu seu jeito de fazer as coisas”, analisou Kris Boys, ex-jogador do Rangers, à Sky Sports.

O desafio para o Rangers será manter a regularidade. O time mostrou capacidade competitiva, inclusive na Europa. Jogando a Liga Europa, conseguiu vitórias sobre o Midjylland, que seria o campeão norueguês na temporada, Legia Varsóvia, que também seria campeão polonês, além de vencer, e bem, o Porto, que seria o campeão português, e o Braga, terceiro colocado na liga portuguesa.

Ao mesmo tempo, na liga local, o Rangers sofreu. Perdeu pontos cruciais contra o Hearts, por exemplo, que acabaria rebaixado como lanterna no Escocês. Também acabou tropeçando em times como o Kilmarnock e o Hamilton, lutando contra o rebaixamento. Tudo isso pesou para que a diferença, no momento que o Escocês foi interrompido, já estivesse praticamente inalcançável.

O campo é uma questão, mas vai além disso. A mentalidade é um ponto que o Rangers precisa aprender a lidar e é onde o Celtic tem se destacado ainda mais. “Quando qualquer um coloca um pouco de pressão sobre nós na Escócia, ou fica na nossa frente, parece que nos afeta muito. Nós não fomos bons o bastante domesticamente para reagir a isso”, escreveu o capitão do Rangers, James Tavernier, no programa do jogo contra o Hamilton, ainda na temporada passada. É um problema que os jogadores sabem e a comissão técnica também. Resta saber como o clube irá reagir para lidar com o problema.

Um dos jogadores contratados para reforçar o elenco do Rangers foi Ryan Kent, atacante inglês de 23 anos que veio do Liverpool por £ 7 milhões. “Nós somos melhores como azarões”, disse o jogador. O problema é que o Rangers precisará assumir uma postura mais agressiva se quiserem estar efetivamente na disputa pelo título.

Ser a zebra não será o bastante: será preciso ser altivo. Nas duas últimas temporadas, a campanha do clube degringolou depois da virada no ano. O mental terá um papel importante, que Gerrard precisará trabalhar nos seus jogadores. E o técnico ainda precisará lidar com a situação de Alfredo Morelos, que ainda pode deixar o clube – há quem diga que basta uma boa proposta para o Rangers vender o jogador e fazer caixa. Jermaine Defoe foi contratado em definitivo, mas com 37 anos, deve ser uma opção menos constante.

O primeiro teste foi superado pelo Rangers na estreia. Vitória por 1 a 0 sobre o Aberdeen neste sábado, gol de Ryan Kent. Um jogo que o Rangers foi melhor, poderia ter matado mais cedo, marcado mais gols, mas acabou vencendo mesmo assim.

Depois de dois anos entrando em colapso depois da virada do ano e vendo o Celtic disparar, será que chegou a hora do Rangers enfim dar um passo além de brigar pelo título de forma mais próxima? É o que estamos prestar a começar a ver.

Para além de Celtic e Rangers

Dois times estiveram logo na sequência de Celtic e Rangers na tabela na temporada passada: Aberdeen e Motherwell terminaram em quarto e terceiro na temporada e tentarão repetir a boa temporada.

David Turnbull, do Motherwell (Reprodução/Twitter)

Uma das armas será o retorno do meio-campista David Turnbull, estrela do Motherwell. Aos 21 anos, o jogador é considerado uma das promessas do futebol escocês. Meio-campista, é um talento na criação de jogadas e que pode servir para dar um salto de qualidade ao time. Até porque ele sofreu uma grave lesão em julho de 2019 que o deixou afastado até o dia 24 de fevereiro. O que significa que mal jogou na temporada passada. Com o seu craque inteiro, o Motherwell certamente ganha um reforço importante.

O Aberdeen, por sua vez, pretende ter uma maneira mais ofensiva de jogar. O problema é que o seu principal atacante, Sam Cosgrove, se machucou. A lesão no joelho tirar o jogador, de 1,94 metro de altura, dos gramados até outubro. O time contratou Ryan Edmondson, emprestado pelo Leeds, e espera poder ter um pouco mais de força no ataque.

O Livingston tem uma grande vantagem: grama sintética. Foi jogando no seu estágio, com grama artificial, que a equipe conquistou 28 pontos na última temporada. Fora, conseguiu apenas 11 pontos e só uma vitória. Ou seja: será que o time consegue jogar bem em grama natural e, assim, ser ainda mais perigoso?

O Hibernian tenta encontrar mais equilíbrio. Na temporada passada, o time foi o terceiro melhor ataque, com menos gols apenas que Celtic e Rangers. Em compensação, foi a quarta pior defesa, melhor apenas que os últimos três colocados, Ross County, Hamilton e Hearts. Uma das tentativas para melhorar o sistema defensivo foi a contratação de Alex Gogic. O zagueiro, que também joga como volante, chegou para melhorar o nível de defesa do time. Com 26 anos, o cipriota de origem sérvia jogava pelo Hamilton na temporada anterior e chegou a custo zero ao final do seu contrato.