Quem não tem seu vestido azul? Quem não almoça e não pega o bonde com seu cigarro contado e sua dor de bolso? Eu que tão só nasci! Eu que tão só nasci!

Quem não escreve uma carta? Quem não fala de um assunto importantíssimo, morrendo de costume e chorando de ouvido. Eu que somente nasci! Eu que somente nasci!

Quem não se chama Carlos ou qualquer outra coisa? Quem ao gato não diz gato gato? Ai, eu que só nasci somente! Ai, eu que só nasci somente!

(Cesar Vallejo)

O escritor Cesar Vallejo, protagonista da literatura modernista peruana, é também o patrono do flamante campeão da Copa Inca. Cesar Vallejo, considerado o maior nome da poesia do país andino, deu nome a Universidad privada de Trujillo, no noroeste do Peru, que viu o seu time de futebol, fundado em 1996, alcançar a primeira divisão nacional apenas em 2004.

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O título conquistado no último domingo frente ao Alianza Lima, no estádio Nacional, é o primeiro da curta história do conjunto trujillano. Vitória contundente por 3 a 1 de um elenco repleto de ex-jogadores do Alianza Lima: o lateral Guillermo Guizasola, o goleiro Salomón Libman e o atacante Victor Cedrón tiveram o gostinho da revanche contra a torcida mais popular do Peru. Cedrón, que foi agredido pela Comando Sur (a barrabrava do Alianza Lima) após a derrota por 4 a 0 contra o Huracán na primeira fase da Libertadores, foi cedido a Los Poetas no último mês, definindo ironicamente o título em favor do Cesar Vallejo ao anotar o terceiro gol na final.

El Torneo del Inca foi criado em 2011 para suprir o calendário confuso do futebol peruano. O primeiro campeão foi o modesto José Galvez. O torneio só voltaria a ser disputado em 2014, quando o Alianza Lima levou o troféu mais peculiar do futebol sul-americano para o bairro de La Victoria. A popular Copa Inca é composta pelos 17 clubes da primeira divisão, que são divididos em três grupos. O campeão de cada grupo e o melhor segundo fazem as semifinais em jogos de ida e volta. A final, disputa em confronto único e em campo neutro, define o representante peruano na primeira fase da Copa Libertadores.

A campanha do Cesar Vallejo foi contundente: 10 vitórias em 13 jogos e o ataque mais positivo com 29 gols. Um processo exitoso capitaneado por Franco Navarro, ex-centroavante da seleção peruana e do Independiente de Avellaneda, que fez parte da última grande geração do Peru ao lado de Cubillas, Oblitas e Cesar Cueto. Franco Navarro disputou a Copa de 1982 na Espanha, na última participação peruana nos Mundiais, sendo reserva de Guillermo La Rosa, a grande referência goleadora daquela seleção dirigida pelo brasileiro Elba de Pádua Lima, o popular Tim.

No ano passado o Cesar Vallejo já havia dado sinais positivos com a grande campanha na Copa Sul-Americana, onde chegou até as quartas de final vencendo Millonarios de Bogotá, Universitário de Sucre e o Bahia. Pararia apenas no Atlético Nacional, de Medellín, com duas derrotas magras diante do tricampeão colombiano. O time tem alguns jogadores com passagens pela seleção: o goleiro Libman e os atacantes Willian Chiroque e Mauricio Montés. No começo do ano, o Cesar Vallejo contratou o meia Rinaldo Cruzado junto ao Nacional do Uruguai. O meia armador faz parte dos planos de Ricardo Gareca em seu começo de ciclo à frente da seleção blanquiroja. Cruzado, com sua qualidade acima da média atual do futebol peruano, faz com que o time de Trujillo se candidate junto aos três grandes clubes do país – Alianza Lima, Universitário de Deportes e Sporting Cristal – ao favoritismo do Torneio Apertura que se inicia no próximo sábado.

Los poetas, com a pluma afiada de Cesar Vallejo e a batuta de Franco Navarro, sonham com um destino doce e fugaz tal qual a poesia de seu patrono, buscando escrever um novo soneto e trazer o futebol peruano de volta à grandes instancias continentais, quem sabe, já na próxima edição da Copa Libertadores.