Quando o lance decisivo estava prestes a acontecer, Marcos Rocha tentou demover a ideia de Gustavo Scarpa. O meia sofrera a falta, tão importante ao Palmeiras, em um momento no qual a equipe penava para avançar ao campo de ataque. E, nada mais justo em sua cabeça, também queria batê-la diretamente ao gol. O lateral sabia que era difícil. Aconselhou que, daquela distância, as probabilidades de balançar as redes seriam mínimas. Mas Scarpa foi insistente, confiava no seu taco, sabia que um chute bem dado poderia fazer a diferença na Arena do Grêmio. Realizou aquilo que todo grande jogador precisa num jogo deste calibre: apostou suas fichas na virtude mais fulgurante. E, dos muitos chutaços de sua carreira, acertou o maior de todos. Afinal, acertou. Um petardo que rompeu os ares em Porto Alegre e que abriu caminhos não só ao gol, mas também à empreitada palmeirense em busca das semifinais da Libertadores.

O gol de Gustavo Scarpa merece muitos adjetivos por sua beleza, por sua potência, pela felicidade – seja do meia em sua tentativa, seja aquela que proporcionou à torcida do Palmeiras. E, tão qualificador quanto os elogios, é o instante em que o tento acontece. Não há predicado maior do que ocorrer durante as quartas de final continentais, dentro da Arena, contra um adversário tão copeiro e tarimbado quanto o Grêmio. O contexto sempre vai valorizar os grandes momentos do futebol e não poderia ser diferente com o relâmpago de Scarpa, diante das condições especiais de temperatura e pressão. O palmeirense forjou sua obra-prima em fogo escaldante, num estádio inflamado e contra um adversário que mandava no duelo até então. Com um só chute, implodiu uma montanha para seus companheiros seguirem em frente.

E talvez Paulo Victor pudesse mesmo fazer melhor no lance. Foi uma bomba, mas que não seguiu exatamente ao canto de sua meta. Desviada ou não, há também que se ponderar que a bola descaiu um tanto quanto de repente, após surgir no meio da barreira humana que se desmanchou quando o cético Marcos Rocha deu um voto de confiança e rolou para o companheiro. O caminhar do jogo, porém, conferiu ao Palmeiras a certeza de que aquele arremate realmente tinha que entrar. Em uma atuação impecável do time de Felipão na defesa, e com seus contornos heroicos durante os 20 minutos finais, o gol precisava representar uma marca inquestionável. Assim foi.

O Palmeiras criou chances para mais. Não foi tão dominante quanto o Grêmio, mas soube encurtar o caminho até a meta de Paulo Victor e viu Dudu, o melhor da equipe ofensivamente, beirar a comemoração ao menos três vezes. Faltou um pouco mais de contundência aos alviverdes em outros lances. Faltou asseverar o talento, algo que Gustavo Scarpa conseguiu tão bem. Em um rompante, o estalo do meio-campista rendeu daqueles gols para serem contados por muito tempo na Libertadores – especialmente se, de fato, ele valer tudo aquilo que prometeu aos palestrinos em Porto Alegre e permitir também a classificação em São Paulo.

Enquanto aguarda o desfecho de seu lampejo, Gustavo Scarpa ao menos desfruta o reconhecimento ao seu protagonismo. Sua espera, no fim das contas, já tinha sido bem maior até chegar à jogada que premia o Palmeiras por tanto persistir na contratação do meia. Scarpa já leva mais de 20 meses com a camisa alviverde, após estourar pelo Fluminense. Precisou se adaptar ao novo clube, mas antes fosse apenas isso. Teve também que superar as pendências na justiça. E, quando não mais, as incômodas lesões. E, quando não mais, a falta de sequência. E, quando não mais, as reticências ante aquilo que ainda não havia se confirmado por todos os problemas anteriores. Como se fosse simples, mas que dependeu de um esforço, de uma jornada. Dependeu de treino e confiança, como o tal chutaço que também fez tudo parecer mais simples depois que entrou.

Scarpa, embora não preponderasse no Brasileirão ou em outras competições nacionais, mostrava como se sentia à vontade na Libertadores. Pagava-se ao marcar a diferença ao Palmeiras no torneio continental. Se os alviverdes gastam tanto dinheiro em jogadores renomados, é também para ver alguns deles se bancarem em jogos grandes. O meio-campista já tinha feito isso com cinco gols nas fases anteriores, contra os quatro adversários que cruzaram os caminhos palestrinos ao longo do certame. Mas não com o lastro que sua pintura ofereceu dentro da Arena do Grêmio.

A real consequência do lance ainda fica à mercê dos 90 minutos que acontecerão no Pacaembu. O que não fica mais é a consideração do palmeirense àquilo que Gustavo Scarpa representa a esta campanha. Valeu a pena aos alviverdes esperarem até este momento, assim como o meia ganhou uma grande recompensa por seu empenho no clube. Afinal, poucas recompensas são maiores que um golaço decisivo num jogo difícil de mata-mata fora de casa. Seja lá o que ocorrer na volta, Scarpa já deixou a memória de uma alegre noite ao Palmeiras. É isso que garante a reverência de toda uma torcida e, com mais no futuro, quem sabe um dia também a idolatria. O camisa 14 tem bola e um quê de predestinação, como notado em Porto Alegre, para almejar isso.