O Palmeiras chegou ao final da década de noventa sem um time tão estrelado quanto no auge do patrocínio da Parmalat. O dinheiro do leite iria embora no futuro próximo, deixando o clube sedento por títulos, em uma seca que durou muitos anos. Na Libertadores de 1999, os paulistas eram um dos candidatos, mas havia o Corinthians, com um dos melhores times de sua história, o atual campeão Vasco e outros potenciais desafiadores do resto do continente.

Mas o Palmeiras tinha a bola parada de Arce e a vitalidade de Júnior. Tinha zagueiros como Júnior Baiano, Cléber e Roque Júnior. Tinha o coração de Galeano e a classe de César Sampaio. A experiência de Zinho e Evair e o entrosamento da dupla Paulo Nunes e Oséas. Tinha a velocidade de Euller e, em Alex, um projeto de craque que estava prestes a se concretizar. Tinha Luiz Felipe Scolari, que soube tirar o melhor dessas qualidades, comandando a campanha com maestria, apertando os botões certos nos momentos certos para motivar seus jogadores, e tomando a decisão que mudaria todo o rumo da competição.

Tomou a decisão que fez com que o Palmeiras também tivesse Marcos e, com ele, a ajuda dos céus, essencial para o título da Libertadores que completou 20 anos no último domingo.

Primeiro, o campeão da América

A Libertadores, naquela época, ainda tinha aquele formato com quatro equipes de apenas dois países. O Palmeiras caiu ao lado do arquirrival Corinthians e dos paraguaios Cerro Porteño e Olímpia. Também particularidade daquele regulamento, os integrantes sabiam que o segundo colocado enfrentaria o então detentor do título, o Vasco, nas oitavas de final. E ninguém queria fazer isso.

O Palmeiras começou com vitória sobre o Corinthians, gol de Arce, e emendou 5 a 2 contra o Cerro Porteño. O problema é que não ganhou as três partidas seguintes. Levou uma bela pancada no retorno ao Defensores del Chaco, 4 a 2 para o Olímpia, e ficou no 1 a 1 com esse mesmo time no Palestra Itália. Perdeu a volta para o Corinthians, por 2 a 1. E ainda levou um susto do Cerro Porteño, na rodada derradeira, em casa, quando Gauchinho abriu o placar, no começo do segundo tempo. Os dois times estavam empatados em sete pontos. Júnior Baiano e Arce concretizaram a virada alviverde. Mas não deu para fugir do Vasco.

Era a reedição da final do Campeonato Brasileiro de 1997, e o Vasco era teoricamente favorito. Tentava defender o seu título, enquanto o Palmeiras havia chegado à competição por meio da Copa do Brasil do ano anterior. O resultado da ida foi ótimo para os cariocas, 1 a 1 no Palestra Itália. O Palmeiras precisaria de uma grande vitória em São Januário, missão dificultada pelo gol de Luizão, que abriu o placar. Paulo Nunes e Alex viraram para os paulistas, e Ramón empatou. No comecinho do segundo tempo, Alex e Arce ampliaram para 4 a 2, e o Palmeiras, recuperado da oscilação da fase de grupos, provava que falava a sério sobre a briga pelo título sul-americano. Havia, afinal, eliminado o atual campeão.

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Nasce o Santo

“Mesmo assim, não nos considerávamos prontos. A imprensa nos dava ainda menos bola. E enchia a do Corinthians, então campeão brasileiro. Mas, nas quartas de final, tudo começou a mudar. Viramos o jogo. E eu virei algo que não sou: santo”, escreveu Marcos em sua autobiografia Nunca fui santo – o livro oficial do Marcos. “Até um tempo atrás, eu não gostava muito do termo. Gerava muita responsabilidade. Depois, comecei a gostar. É como ‘Animal’ para o Edmundo, ‘Matador’ para o Evair. O pessoal cria, fica legal e pega. Não tem como fugir. É só a turma não achar que eu tenho de ser santo o tempo todo. Aliás, não sou em tempo algum… Mas, naqueles jogos, estava mesmo iluminado”.

Marcos teve que esperar sua vez. Estreou em 1996 e ainda era reserva de Velloso quando a Libertadores, aquela Libertadores, começou. Depois de algumas atuações vacilantes nas primeiras partidas da fase de grupos, Velloso sofreu uma lesão contra a União Barbarense e abriu espaço para o garoto que vestia a camisa 12. Quem bancou foi Carlos Pracidelli. “Quando Velloso se machucou gravemente, Felipão virou para mim e perguntou o que a gente iria fazer. Na hora, virei para ele e falei: coloca o Marcos. Ele está preparado para ser nosso novo titular. Como Felipão confiava muito em mim e sabia das qualidades do Marcos, resolveu apostar nele”, disse o preparador de goleiros, ao Globo Esporte, em 2008.

Mesmo sem a lesão contra o União Barbarense, Marcos ganharia uma chance em breve. Velloso contou ao Estado de S. Paulo, em 2012, que renovou seu contrato no começo de 1999 a pedido de Felipão, e a ideia era sair do Palmeiras quando a Libertadores terminasse. “Aquela seria minha última competição pelo clube”, disse. Mas, sem a lesão contra o União Barbarense, talvez o Palmeiras não fosse campeão. Certamente não venceria o Corinthians por 2 a 0 no jogo de ida das quartas de final. Por melhor que Velloso fosse, o Palmeiras não teve um goleiro naquela noite no Morumbi. Teve uma extraterrestre.

O Palmeiras começou com um gol de Oséas, aos 19 minutos do primeiro tempo, no rebote de Nei. O Corinthians, favorito em teoria àquela eliminatória, pressionou para não ir aos vestiários perdendo. Marcelinho soltou uma daqueles seus chutes capciosos, e Marcos caiu para espalmar. Aos 44, Ricardinho saiu livre pela esquerda e tentou colocar a bola entre a trave e o goleiro. Marcos defendeu com o pé. Na sequência, Edílson pegou de primeira da entrada da pequena área. Marcos defendeu novamente. Dois minutos depois, Marcelinho soltou a perna de fora da área e buscou o ângulo. Marcos voou e colocou para escanteio. Antes do árbitro, por misericórdia, encerrar o primeiro tempo, Marcos ainda mostrou reflexos ao barrar a cabeçada de Fernando Baiano na primeira trave.

O jogo seguiu, e os milagres também. Sylvinho apareceu livre dentro da área, e Marcos saiu para abafar. No contra-ataque, Rogério ampliou a vantagem palmeirense. Estava tudo a favor do goleiro, até a sorte. Um lindo chute de Fernando Baiano acertou o travessão e pegou nas costas de Marcos. A bola rolou lentamente na direção da linha de fundo e fez uma curva de última hora que a levou para fora. Marcos ainda relou na bola antes de ela explodir na meta do Morumbi. “Largo demais”, contou, em sua autobiografia. “Ao final, depois de 30 finalizações deles e 14 defesas minhas (quem contou foi o Datafolha, não eu), comemoramos muito o 2 a 0. (…) A Folha de S. Paulo publicou no dia seguinte que eu ‘rezara e virara estrela’. Não era estrela. Nem santo. Nem rezava muito. Mas tinha de orar cada vez mais, mesmo. Sentia a mão de Deus junto com a minha em cada defesa”.

No jogo de volta, não teve o que fazer. O Corinthians fez 2 a 0, no começo do segundo tempo, e fundamentou a decisão por pênaltis. O Palmeiras quase estragou esse plano, aos 37 minutos, em uma bela jogada de Euller pela esquerda. Evair recebeu na entrada da pequena área, mas, pressionado, rolou para Paulo Nunes, de frente. O atacante tinha o gol inteiro na frente, mas bateu rasteiro. Maurício fez uma linda defesa. A partir da marca do cal, Rincón e Arce converteram, mas Dinei mandou no travessão. O Palmeiras ampliou, com Evair. E, então, Marcos fez a primeira defesa da sua carreira em uma disputa de pênaltis. “Ele olhava para baixo, eu só para a bola. Quando ele bateu, de perna direita, já imaginava o canto. E foi nele que eu fui. Ele bateu à meia altura, à direita. Eu fui com tamanha vontade que já estava quase passando da bola. Espalmei para longe e só lembro de me ajoelhar e erguer os dedos para cima. Sabia que Deus estava me ajudando, mas não sabia como agradecê-lo”, disse.

Era bom agradecer mesmo. Porque Rogério e Zinho fizeram seus pênaltis e, na semifinal, Marcos precisaria de Dele mais uma vez.

O carimbo de Alex

O Palmeiras abriu um novo pacote de milagres para sobreviver ao Monumental de Núñez, contra o River Plate de Sorín, Gallardo e Saviola. Marcos, outra vez, os entregou e ainda contou com a ajuda da trave, mesmo no gol de Berti: os argentinos carimbaram-na duas vezes antes de fazer o único tento da partida. Com a expulsão de Júnior Baiano no segundo tempo, o Palmeiras ficou feliz de ter perdido por apenas 1 a 0. A definição ficaria para o Palestra Itália, onde Alex faria uma de suas maiores partidas.

O jogo de volta contra o Vasco já havia sido importante para a carreira de Alex. Como ele próprio admite em sua biografia, até aquele momento, ele era um “bom jogador que tinha ajudado o time em vários momentos, mas fracassava em jogos decisivos”. Contra o detentor do título, Alex marcou duas vezes e teve uma grande atuação. Foi decisivo na hora que o Palmeiras precisava. E precisaria dele novamente contra o River. A outra semifinal era disputada por Deportivo Cali e Cerro Porteño. Quem saísse vencedor entre brasileiros e argentinos despontaria como grande favorito.

O River ainda começou acertando novamente a trave de Marcos. Mas Alex, aos 16 minutos do primeiro tempo, matou no peito na entrada da área e abriu para a perna esquerda. Desferiu chute certeiro para fazer 1 a 0. Dois minutos depois, Roque Júnior ampliou, de cabeça. No segundo tempo, Marcos fez duas grandes defesas, enquanto o Palmeiras perdia gols no outro lado. Acertou uma par de chances na trave, inclusive uma com Euller, que se embananou um pouco antes de finalizar. O alívio saiu nos acréscimos. Alex dominou pela direita da grande área e, com uma tacada de sinuca, bateu colocado no canto de Bonano: 3 a 0 e a vaga na final.

“O jogo de volta, para mim, individualmente falando, foi um dos mais espetaculares de toda a carreira. Tudo deu certo, do primeiro domínio ao último minuto. Fiz o gol que abriu o placar e o que selou os 3 a 0. Ainda dei duas ou três bolas para Oséas e o Euller ampliarem, mas eles desperdiçaram. Foi perfeito, não tenho do que reclamar. Foi o carimbo que marcou para sempre a minha importância no talvez maior título da história do Palmeiras”, afirmou, no livro Alex, a Biografia.

Festa no chiqueiro

O Palmeiras perdeu o jogo de ida por 1 a 0. Como na semifinal. O Deportivo Cali não tinha grandes jogadores, mas era um time arrumado. Exigiu defesas de Marcos e fez o único gol, com uma cabeçada de Bonilla. O Palmeiras acertou a forquilha, com Arce. Os colombianos também balançaram a trave alviverde. Não era o resultado esperado, mas mantinha o Palmeiras vivo. Bastava vencer por dois gols de diferença no caldeirão do Palestra Itália.

A preparação de Felipão para aquela partida foi tentar manter a calma dos jogadores, passar a mensagem de que os gols sairiam naturalmente, para que ninguém se desesperasse diante das adversidades. Júnior perdeu grande chance, logo no começo, e Alex quase marcou de cabeça. Dudamel fez outra grande defesa em chute de frente de Paulo Nunes.

Aos 17 minutos do segundo tempo, um pênalti a favor do Palmeiras, no gol do placar eletrônico. Embora àquela altura Evair não fosse a estrela do time, mais próximo de um veterano que sempre entrava nos jogos, foi dele a responsabilidade de cobrar. Naquela situação, a lembrança era inescapável. É claro que o homem que bateu o pênalti contra o Corinthians no fim da fila tinha que ser o homem que cobraria o pênalti na final da Libertadores. “O que me surpreendeu foi Zinho e Alex darem de repente a bola na minha mão”, contou, ao UOL. “Eu não era o batedor oficial, eles eram. Isso me marcou. Mas não tive dificuldades, já estava acostumado com situações como aquela”. Com a frieza de sempre, Evair fez 1 a 0.

Mas o Deportivo Cali empataria, em pênalti cometido por Júnior Baiano e cobrado por Zapata – guarde esse nome. Marcos não teve chance. Aos 30 minutos, a bola foi enfiada para Júnior, e o cruzamento rasteiro encontrou Oséas, outro predestinado. “Eu não pipocava em decisão. Nunca tive medo de decidir. O gol da Copa do Brasil (que valeu a vaga ao Palmeiras na edição de 1999 da Libertadores) e o da final da Libertadores estão entre os mais importantes da minha carreira. Fico arrepiado só de falar”, disse o centroavante ao site oficial do Palmeiras. Pênaltis.

E, a partir daqui, acho que podemos deixar Marcos contar o que aconteceu:

“Nós começamos as cobranças, no gol de fundo do Palestra. O Zinho encheu o pé, e a bola bateu no travessão. Aquele silêncio… O goleiro deles, o Dudamel, fez o primeiro. Eu de um lado, a bola do outro. Não parecia o dia. O Júnior Baiano bateu o nosso segundo pênalti. Confesso que, quando zagueiro vai cobrar, eu… Bem, eu fico daquele jeito igualzinho ao torcedor. E ele bateu fraco, no meio do gol. Mas a bola entrou. O problema é que o Gaviria também fez o segundo deles. A bola também foi no meio do meu gol. Eu relei nela com a mão e a perna esquerda. Mas não teve jeito. 2 a 1 para eles.

O Roque Júnior bateu o terceiro e fez. Mas ele fez muito mais. Celebrou a cobrança botando fogo no estádio. A torcida veio junto. O Yepes bateu o terceiro pênalti. Acertei o canto, não a bola. 3 a 2 para eles. O Rogério mandou no ângulo do Dudamel o nosso quarto pênalti. 3 a 3. Para eles, era só não errar. Ou eu defender. Mas não parecia ser meu dia. Contando com o pênalti do tempo normal, eu não tinha conseguido defender quatro cobranças. Eles estavam chutando melhor que a gente. Só não ganhariam a Libertadores se chutassem mal.

E a torcida entrou de vez no jogo. Não apenas incentivava a todos nós – e a mim, em especial -, mas passava a jogar contra os caras. O estádio começou a berrar ‘Fora! Fora! Fora!’. Não era só pelo São Marcos que oravam. Rezavam pros santos gandulas pegarem a bola bem longe do meu gol. Gandulas que, aliás, estavam fazendo corrente lá debaixo da meta das piscinas. Nunca vi tamanha torcida junta. Tanto pensamento positivo. E deu certo.

O Bedoya mandou uma bomba na minha trave esquerda. Acertei o canto e, por isso, quase fiz contra no rebote da bola. Continuou tudo igual, 3 a 3. O Euller bateu muito bem e virou o placar: 4 a 3. Agora, era comigo e com o Zapata, um dos melhores do time do Deportivo.

O Zapata bateu de pé direito, no meu canto direito. Pulei pro esquerdo. Não vi onde foi a bola. Só a ouvi batendo na placa de publicidade. Milhões de palmeirenses viram a bola para fora, outros nem conseguiram ver, de tanto nervosismo. Eu talvez tenha sido o único que ouviu o pênalti indo pra fora e que não o viu. Fez aquele PÁ! De barulho e eu fui pro abraço da torcida, naquela correria louca. Nunca corri tanto na minha vida. Nunca fiquei tão feliz. O Palmeiras era campeão da Libertadores”.