O Stuttgart vive a expectativa de um final de semana para comemorar. No domingo, os suábios recebem o Würzburger Kickers na Mercedes-Benz Arena, podendo confirmar o retorno à Bundesliga um ano após sua queda. Conquista merecida, para um time que se manteve o campeonato todo brigando pelas primeiras posições e disparou nas última rodadas. A celebração dos alvirrubros, no entanto, já começa com uma ótima lembrança. Nesta sexta, completam-se 10 anos de seu quinto e último título no Campeonato Alemão. Um feito um tanto quanto surpreendente, que premiou uma geração forjada no próprio clube e alguns talentos que serviram bastante à seleção nos anos seguintes.

Força na antiga Oberliga durante os anos 1950, o Stuttgart se colocou regularmente como um postulante aos primeiros lugares da tabela a partir do fim da década de 1970, após seu primeiro rebaixamento. Assim, ergueu a Salva de Prata em 1984, em time capitaneado por Karlheinz Förster, e repetiu a dose em 1992, com forte equipe estrelada por Guido Buchwald, Matthias Sammer, Maurizio Gaudino e Fritz Walter. Além disso, os suábios foram por duas vezes vice-campeões nas copas europeias. Mesmo com Jürgen Klinsmann voando, não foram páreos ao Napoli na Copa da Uefa de 1989, enquanto caíram para o Chelsea na decisão da Recopa de 1998, em tempos comandados por Joachim Löw.

A virada do século não foi tão afável com o Stuttgart, ameaçado pelo rebaixamento. Ao menos, no início dos anos 2000, os alvirrubros recuperaram um papel digno na parte de cima da tabela. Foram vice-campeões em 2003 e se classificaram à Copa da Uefa nas duas edições seguintes da Bundesliga. Até a queda de nível em 2005/06, terminando na nona colocação. Resultado ruim, mas compreensível pelos jogadores importantes que deixaram a Mercedes-Benz Arena, assim como pelos reforços que não deram certo. Por isso mesmo, a temporada de 2006/07 começou com uma renovação massiva no elenco, com os suábios investindo em quantidade. Indo além, o grupo recebeu diversos prodígios que despontavam na base.

cacau khedira gomez

Diante do cenário, pouquíssimos apostavam no Stuttgart como candidato a uma boa campanha. O início do campeonato, inclusive, foi claudicante. Ganharam apenas três jogos nas primeiras oito rodadas, passeando pela zona de rebaixamento e não passando da oitava posição. A partir de novembro, o time engrenou. E em uma temporada aberta, na qual o Bayern de Munique vivia um momento ruim com Felix Magath, a briga pela Salva de Prata se abria. Werder Bremen e Schalke 04 pareciam os times mais maduros para colocar a faixa no peito. Os Verdes tinham um time bastante completo, com vários jogadores do Nationalelf. Tim Wiese, Per Mertesacker, Tim Borowski, Torsten Frings e Miroslav Klose formavam a espinha dorsal. Já o grande talento era Diego, gastando a bola aos 21 anos. Mas os Azuis Reais não ficavam atrás. Manuel Neuer, Mesut Özil, Lincoln, Rafinha e Gerald Asamoah apareciam entre os protagonistas. E ainda haviam Bordon e Kevin Kuranyi, antigos ídolos do próprio Stuttgart.

Enquanto Werder e Schalke se digladiavam pela liderança durante a maior parte da competição, o Stuttgart se colocou como um concorrente alternativo. Até ocupou a primeira posição na 12ª rodada, após uma sequência de vitórias, mas ficaria como sombra no terceiro posto. No início do segundo turno, um aviso com a goleada por 4 a 1 sobre o Werder Bremen na Mercedes-Benz Arena. Contudo, os alvirrubros seguiriam oscilando. Seu grande momento só veio nas últimas oito rodadas. Oito vitórias, que lançaram os suábios rumo à glória, tirando uma diferença de sete pontos para o Schalke.

Nesta caminhada final, chegaram a bater o Bayern de Munique por 2 a 0. No fim de abril, após o triunfo sobre o Borussia Mönchengladbach, superaram o Werder Bremen na classificação e assumiram a segunda colocação. Já a chegada definitiva à liderança aconteceu no penúltimo compromisso. De virada, derrotaram o Bochum por 3 a 2 e viram o Schalke 04 sofrer uma das maiores vergonhas de sua história, ao perder o dérbi para o Borussia Dortmund no Westfalenstadion. Ajuda providencial dos aurinegros, que botou a Salva de Prata no colo dos alvirrubros. Desta maneira, o Stuttgart só dependia de si para voltar a ser campeão na última rodada. Recebeu o Energie Cottbus na Mercedes-Benz Arena. E não decepcionou sua torcida, buscando a virada por 2 a 1.

Os gols do Stuttgart naquela jornada decisiva, aliás, foram especiais. O primeiro saiu aos 27 do primeiro tempo. Thomas Hitzlsperger acertou um chute espetacular de fora da área, para elevar a confiança de seus companheiros atrás da vitória que necessitavam. Já aos 18 da etapa complementar, o herói seria um garoto que os alemães se acostumariam a admirar. Semanas depois de completar 20 anos, Sami Khedira foi o predestinado a concluir a bola para as redes. Coroação gigantesca para o seu primeiro ano na equipe principal dos suábios.

Sem grandes figurões, o Stuttgart contava com um time basicamente formado em casa e com outros jogadores trazidos sem tanto alarde. Timo Hildebrand vivia excelente fase sob as traves. Serdar Tasci e Matthieu Delpierre eram as opções principais no miolo de zaga, com a alternativa do capitão Fernando Meira. Já nas laterais, entravam o suíço Ludovic Magnin e o mexicano Ricardo Osório. O meio-campo de muita pegada via Sami Khedira e Christian Gentner ascendendo, além de contar com a consistência de Pavel Pardo e Thomas Hitzlsperger. E havia o brasileiro Antônio da Silva, pouco conhecido por aqui, mas importante no sistema.

Por fim, o ataque merece destaque a parte, com dois protagonistas em ótimo momento. Aos 20 anos, Mario Gómez se colocava como um dos melhores centroavantes de sua geração. Formado no próprio clube, não demorou a ganhar confiança. Anotou 14 gols, mas também contribuiu à construção do jogo, com sete assistências. Ao seu lado, Cacau estava no grupo desde 2003, após ser descoberto pelo Nuremberg. Voluntarioso e intenso, o brasileiro pavimentou seu caminho na Bundesliga, logo despontando para a seleção. Balançou as redes 13 vezes na campanha, incluindo dois tentos diante do Bayern. Já no banco de reservas, Armin Veh era um técnico com passagens por clubes menores, que chegara aos alvirrubros justamente em agosto de 2006. Para alcançar seu maior feito.

Nos meses seguintes, aquele título do Stuttgart se mostraria como um ponto fora da curva. A equipe não saiu da lanterna em seu grupo na Champions, em chave complicada contra Barcelona, Lyon e Rangers. E, na Bundesliga, o sexto lugar acabou de bom tamanho, em caminhada que no máximo flertou com a Copa da Uefa. Pouco a pouco, o elenco se desmanchou. Mario Gómez ainda ampliou seus números por mais duas temporadas, até ser levado a peso de ouro pelo Bayern de Munique. Khedira, firmado na seleção, rumou ao Real Madrid após a Copa de 2010. No máximo, os suábios conseguiram uma terceira colocação, carregados por Super Mario em 2008/09, antes de se transformarem em um mero time de meio de tabela. Até caírem na temporada passada, o que não acontecia desde a década de 1970. Por isso mesmo, aquela Salva de Prata de 2007 é tão valorizada. Obra do acaso? Talvez. Mas também o símbolo do sucesso de uma geração tratada com carinho pela torcida.

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