A taça do Campeonato Argentino vive uma rotatividade imensa nos últimos quatro anos. Desde que o Arsenal de Sarandí conquistou o título inédito no Clausura de 2012, o torneio teve oito campeões diferentes. O cenário pode até retratar a falta de regularidade de tantos clubes grandes, lidando com problemas organizacionais enraizados. Mas, por outro lado, também ressalta acertos de quem ascendeu no período. Ao longo da última década, o Lanús se sustentou como um exemplo de gestão no futebol argentino. Tornou-se participante costumeiro da Copa Libertadores e faturou a Copa Sul-Americana de 2013. Já neste domingo, o Granate levou de maneira categórica o Torneo Transición – cujo regulamento previa uma decisão entre os líderes de seus dois grupos. Goleou o San Lorenzo por 4 a 0 no Monumental de Núñez, em vitória que fala muito sobre o presente do clube, mas não deixa de ter o seu pé nos méritos que o levaram ao topo pela segunda vez em nove anos.

Até 2007, o troféu do Campeonato Argentino faltava no museu do Lanús. O tradicional clube de Buenos Aires tinha boas campanhas na liga nacional, mas nada o suficiente para leva-lo à glória. No entanto, a geração comandada por Ramón Cabrero mudou a história do Granate. Mais do que isso, deixou em evidência tantos méritos no comando do clube. Desde a década de 1990, quando o Lanús ressurgiu na elite nacional, as diretrizes em seu trabalho sempre foram muito bem definidas.

A gestão financeira é feita de maneira bastante consciente, trabalhando dentro das perspectivas de um time médio e readequando as contas depois da grave crise atravessada sobretudo nos anos 1980. Já no futebol, a diretoria sempre deu preferência à continuidade entre seus técnicos. E lapidando sempre as categorias de base, além de manter no elenco jogadores com raízes firmes. Se muitos veteranos argentinos optam por encerrar a carreira no clube de coração, em Lanús isso se tornou política de contratações, até para fortalecer a própria identidade. Impossível encontrar uma escalação recente sem uma referência local.

Assim, o elenco atual não surpreende em nada quando se notam os principais nomes. Lautaro Acosta chegou ao time profissional em 2006 e, depois de rodar por clubes como Sevilla e Boca Juniors, retornou a La Fortaleza em 2013. O capitão é Maximiliano Velázquez, outro que também fez parte das principais conquistas do Granate na última década. Já o artilheiro é o mesmo de 2007: José Sand. O veterano de 35 anos parecia no fim da carreira, após passagens por Aldosivi e Boca Unidos. Entretanto, voltou ao Lanús para mostrar que seu faro de gol não estava perdido. Terminou o Torneo Transición como uma gratíssima surpresa, autor de 15 gols em 17 partidas. Balançou as redes inclusive na final contra o San Lorenzo.

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Durante a fase de classificação, o Lanús manteve uma campanha impecável no Grupo B. Foram apenas duas derrotas em 16 partidas, com a vaga na final assegurada com antecedência. O time começou disparando com cinco vitórias nas primeiras seis rodadas. Já entre março e o início de maio, o Granate emendou sete vitórias consecutivas. Os tropeços nos dois últimos compromissos até poderiam gerar desconfianças. Totalmente dissipadas com a atuação arrasadora na decisão contra o San Lorenzo. Óscar Benítez abriu o placar no primeiro tempo, enquanto o time treinado por Jorge Almirón engoliu o Ciclón com três gols na etapa final. Sand e Acosta balançaram as redes, enquanto Velázquez serviu uma assistência. Partida tão notável que todos os jogadores mereceram nota máxima do jornal Olé.

Se o ataque se sobressaiu na rodada final, a defesa também merece créditos por aquilo que conquistou ao longo da campanha. O time só sofreu 10 gols, terminando 11 de suas 17 partidas com a meta invicta, muito graças ao goleiro Fernando Monetti. E, dentro das premissas da diretoria granate, a aposta em jovens jogadores seguiu como tônica. Quatro titulares têm 23 anos ou menos, entre eles Miguel Almirón – o “Di María paraguaio”, com vem sendo chamado, de ótima atuação na finalíssima. A juventude é garantia não apenas de energia dentro de campo, mas também opções de negócio para o clube manter a sua sustentabilidade. Todavia, não espere um desmanche em Lanús. Outra virtude do clube nos últimos ciclos vitoriosos foi justamente saber segurar quem ascendia rumo às principais competições. Agora, os objetivos já se colocam na Copa Sul-Americana de 2016 e na Libertadores do próximo ano.

A principal competição continental, aliás, tornou-se uma constante para o Lanús. Considerando já os participantes confirmados em 2017 (à Argentina, só falta definir o classificado a partir da copa nacional), o Granate possui seis participações em 10 edições – um número só igualado por Boca Juniors, Estudiantes e San Lorenzo. Para quem sequer havia marcado presença na competição antes disso, o número destaca o feito respeitável. E enfatiza um trabalho que mesmo sem conquistar títulos sempre, merece elogios rasgados.