O River já tinha voltado a ser River com o título do Torneo Final, em junho deste ano. Se para alguém ainda restava dúvida sobre isso, a conquista da Sul-Americana contra o Atlético Nacional, a primeira continental desde 1997, foi para tornar a análise unânime. Assim como foi com alguns times brasileiros, como Atlético Mineiro e Corinthians, cujas quedas para a segunda divisão foram apenas os primeiros capítulos das histórias de seus principais títulos, o River Plate precisou ir até o calvário da B antes de voltar a ser potência na América do Sul. E quem ganha com isso não são apenas os torcedores Millonarios, mas o futebol do continente – e a Libertadores do ano que vem – como um todo.

VEJA TAMBÉM: Povos sudacos, uni-vos nesta campanha: Mundial de Clubes precisa vir à terra da Libertadores

O rebaixamento na Argentina ocorre apenas após a soma da pontuação média de três campeonatos, portanto a queda do River em 2011 foi fruto não de um semestre ruim, mas de um momento que já durava mais que deveria para um clube do porte dos Millonarios. A diretoria foi então buscar resgate no seu passado, em figuras que já haviam provado seu valor dentro do Monumental de Núñez, e essa foi uma decisão que, passados alguns anos, ficou provada como muito acertada.

Ramón Díaz, técnico da conquista da Libertadores em 1996, voltou ao comando 12 anos após sua saída e, sem questionamentos quanto ao merecimento, deu sequência ao trabalho de Matias Almeyda após o acesso na segunda divisão. Já neste ano, deu ao River seu primeiro título de Campeonato Argentino em seis anos. A festa foi proporcional ao tempo de espera pelas glórias, e, embora tenha sido importantíssimo ao reerguer o time, Díaz não seguiu na equipe por ter pedido um salário maior que o que a diretoria se dispunha a pagar. Como carta na manga, o River tinha uma aposta similar, só que mais arriscada: Marcelo Gallardo, ídolo millonario e treinador há pouco mais de três anos.

Título da Sul-Americana é o primeiro de Gallardo no comando do River (Foto: AP)
Título da Sul-Americana é o primeiro de Gallardo no comando do River (Foto: AP)

Campeão uruguaio pelo Nacional em sua primeira temporada como comandante, em 2011/12, Gallardo mostrou mais uma vez ter uma carreira promissora pela frente. O título do Torneo Final já está quase garantido pelo Racing, com o River na cola, contando com um pequeno milagre na rodada deste fim de semana para tomar para si a taça. Entretanto, a conquista da Copa Sul-Americana, da maneira como aconteceu, faz o ano de 2014 terminar de maneira especial, para o clube e para ele. Se, em junho, o River tinha deixado claro à Argentina que havia voltado, agora foi a vez da América do Sul ouvir o grito de retorno. São apenas pouco mais de cinco meses, mas dá para dizer que a aposta em Gallardo foi tão certeira quanto a feita em Díaz.

O primeiro título continental importante em 18 anos ganha ainda mais peso tendo a participação que teve da torcida, como personagem ativa, e diante de uma semifinal contra o maior rival, o Boca Juniors. Simbólica ao máximo, a conquista encontra também respaldo técnico. O River não é apenas um time de vontade. É um elenco qualificado, capaz de fazer barulho na Libertadores do ano que vem, e nesse momento não há quem conteste a volta dos Millonarios como potência ao cenário sul-americano.

Confira os lances da decisão no Monumental de Núñez:

O adversário desta final é outro fator que acrescenta valor à taça. O Atlético Nacional é a maior potência colombiana há alguns anos. Atual tricampeão nacional, tinha potencial para ir mais longe na Libertadores deste ano do que o que conseguiu, caindo nas quartas logo após eliminar o Atlético Mineiro. Demonstrou sua qualidade nesta decisão oferecendo um ótimo desafio sobretudo no primeiro tempo, mas sucumbiu ao melhor time do duelo no segundo tempo. Depois de uma primeira etapa de movimentação e boa atuação de ambos os goleiros, o River, de maneira bem sul-americana, decidiu a vitória com dois gols de cabeça quase idênticos de Mercado e Pezzella, no segundo tempo, em cobranças de escanteio de Pisculichi. Superiores em quase toda a etapa final, os Millonarios não viram sua conquista ameaçada.

Assim como o Torneo Final de junho recolocou o River entre os times mais fortes da Argentina, o título desta Sul-Americana é a forma encontrada pela equipe para dizer a toda a América do Sul que está de volta e que deve ser temido. Marca o fim de uma seca de títulos longa no continente e abre também caminho para uma nova era, que pode ter começado com um capítulo negro na história do clube, mas cujo potencial é enorme. O futuro se projeta cheio de expectativas para o torcedor millonario, mas, mais do que isso, a hora é de comemorar o retorno definitivo à grandeza.