Roberto Baggio teve uma carreira de altos e baixos. Mudou demais de clubes, sem criar identificação forte com nenhum. Teve relações conturbadas com torcidas, diretores e técnicos. O excesso de lesões impediu rendimentos estáveis. Mas, entre tudo isso, foi indubitavelmente o jogador italiano mais talentoso da sua geração, o único que conquistou a Bola de Ouro durante o período dourado da Serie A e o primeiro desde Paolo Rossi, em 1982. A conquista que o impulsionou ao prêmio foi a Copa da Uefa de 1993, cuja final completa 25 anos, neste sábado. 

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A Juventus passou por um período de seca no final dos anos noventa. Depois de dominar a Itália com Giovanni Trapattoni no banco de reservas e Michel Platini em campo, conquistando seis scudettos em dez possíveis, passou a ter dificuldades no âmbito doméstico, graças à ascensão do Milan e ao Napoli de Maradona. Conseguiu dois títulos na temporada 1989/90: a Copa da Itália e a Copa da Uefa, contra a Fiorentina do próprio Roberto Baggio. Mas mal conseguia se aproximar do topo da Serie A e, em 1990/91, foi sétima colocada. 

Vittorio Chiusano assumiu a presidência em fevereiro de 1990 e começou a mudar a história do clube. Abriu os cofres para trazer jogadores internacionais, como Jürgen Koehler, Andreas Möller e David Platt, além de talento italiano: Dino Baggio, Antonio Conte, Gianluca Vialli e Roberto Baggio, com sua já conhecida e conturbada saída da Fiorentina. A cereja no bolo foi o retorno de Trapattoni, que havia deixado a Juventus em 1986 para treinar a Internazionale. 

A Juventus teve um salto de qualidade dentro do Campeonato Italiano e conseguiu ser vice-campeã duas vezes com seu antigo treinador. Mas, sem recuperar o scudetto, o projeto seria interrompido, em 1994, para a chegada de Marcelo Lippi. Foi com Lippi, desafeto de Baggio, que a Velha Senhora recuperou a hegemonia nacional e disputou três finais seguidas de Champions League, com o título de 1995/96. Mas deu tempo para Trapattoni aumentar a sua prateleira de troféus com a conquista da Copa da Uefa de 1993, o único título da sua segunda passagem por Turim. 

Ainda na época em que apenas campeões nacionais disputavam a Champions League, a Copa da Uefa daquela temporada recebeu fortes equipes. Havia o Napoli, sem Maradona, mas ainda com Careca. O Borussia Dortmund que floresceria nos anos seguintes. O Paris Saint-Germain de George Weah e Ginola. O Ajax já com Overmars, Davids e Bergkamp. Além do Real Madrid, que dispensa comentários. 

A Juventus não teve dificuldades na primeira rodada. Aplicou 10 a 1 no placar agregado contra o Anorthosis Famagusta, do Chipre. A fase seguinte foi muito mais tensa. Um gol de David Platt, aos 23 minutos do segundo tempo do jogo de ida, foi o único do confronto contra o Panathinaikos. A Velha Senhora voltou a sobrar contra o Sigma Olomouc, da República Tcheca: 2 a 1 fora de casa e 5 a 0 em Turim. Nas quartas de final, despachou o Benfica, revertendo a derrota por 2 a 1 em Lisboa. 

Baggio era o maestro da equipe, mas começou a colocar seu nome no placar a partir da semifinal. E uma vez que começou, não parou mais. A primeira vítima foi o Paris Saint-Germain, que saiu na frente com Weah, aos 23 minutos. Baggio empatou depois do intervalo, com um chute cruzado de fora da área. E virou com um dos seus característicos golaços de falta. Foi também o autor do único tento da partida de volta, completando a boa jogada de Vialli. 

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O adversário da decisão seria o Borussia Dortmund. E os Baggios brilharam. Dino anulou o gol de Michael Rummenige, com um chute de esquerda no canto do goleiro. Roberto virou e acrescentou o terceiro com cirúrgico chute cruzado. A Juventus levou a vantagem de 3 a 1 para o jogo de volta. Mas nem precisava de tanto. Em casa, ganhou novamente, agora por 3 a 0. Vialli deu de calcanhar para Dino Baggio abrir o placar. De cabeça, ele também marcou o segundo. Roberto, com a braçadeira de capitão no braço, também usou o calcanhar para criar a jogada do terceiro gol. Recebeu dentro da área e emendou de primeira. A defesa do Dortmund tentou cortar, a bola bateu em Möller e entrou. 

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Dos nove gols que a Juventus marcou entre a semifinal e a decisão daquela Copa da Uefa, Roberto Baggio marcou cinco. O craque, que já havia sido o artilheiro da Velha Senhora no Campeonato Italiano, com 21 gols (no geral, ficou atrás apenas de Giuseppe Signori, da Lazio, que fez 26), colocou-se como favorito para conquistar o renomado prêmio da France Football. Venceu de lavada: recebeu 142 pontos, à frente de Dennis Bergkamp (83) e Eric Cantona (34). O ainda novato prêmio da Fifa também ficou com ele, à frente de Romário e Bergkamp. Baggio marcou história na sua melhor fase pela Juventus e entrou com moral na temporada que levaria à Copa do Mundo de 1994. Mas essa é uma história bem diferente.