O Liverpool tem 19 vitórias e um empate nas 20 primeiras rodadas da Premier League, 13 pontos de vantagem para o segundo colocado, com um jogo a menos. A espera pelo título inglês que não conquista desde 1990 parece próxima do fim. Poderia ter terminado na temporada 2013/14, quando os Reds tiveram ótimas condições de gritar campeão, mas uma sequência de tropeços contra Chelsea e Crystal Palace sepultaram as suas chances.

Evidentemente, a derrota por 2 a 0 para o Chelsea ficou marcada pelo escorregão de Steven Gerrard que permitiu a Demba Ba avançar sozinho até abrir o placar. Uma ferida que ainda assombra o capitão, mas que vem sendo lentamente curada à medida em que o Liverpool se desenvolve sob o comando de Jürgen Klopp. Em longa entrevista ao podcast do ex-companheiro Jamie Carragher, o atual treinador do Rangers falou que o título da Champions League em Madri foi um “momento de cura” e que, obviamente, um possível caneco da Premier League ajudaria ainda mais.

“Um time do Liverpool ganhar a liga ajudaria a me sentir melhor, com certeza. Quando o Liverpool venceu a Champions League ano passado, eu estava sentado lá olhando os torcedores e pensando: ‘eles estão todos felizes novamente’. Fez com que eu me sentisse bem de novo. Foi um momento de cura para mim e acho que vencer a liga sem dúvida teria influência também”, disse.

Embora muitas pessoas tenham dito a Gerrard que a perda do título não foi inteiramente culpa dele, o escorregão segue sendo um momento muito doloroso.

“Foi difícil. Mais difícil do que as pessoas pensam, provavelmente. A única vez em 20 anos de carreira que eu me senti entorpecido, meu corpo entorpecido. Foi ruim. Quando eu analiso, claro que entendo que não foi apenas naquele momento, mas ainda parte da minha cabeça pensa que foi. As pessoas dizem para fazer com que eu me sinta melhor ‘foi ao longo de 38 jogos’, mas eu ainda sei que, por trás do que dizem, aquele momento foi grande”.

“Naquele momento, contra aquele time. Isso ainda está por trás de todas as pessoas tentando suavizar para mim. Eu penso nisso quase todos os dias”.

Saída do Liverpool

Gerrard, como técnico do Rangers, contra Rodgers, técnico do Celtic (Foto: Getty Images)

Gerrard saiu do Liverpool pouco depois do incidente. Deixou o clube ao fim da temporada 2014/15 e, na época, muitos responsabilizaram o então técnico Brendan Rodgers por ter permitido que uma lenda fosse embora. Refletindo sobre o momento, ele isentou Rodgers de culpa e afirmou que se arrepende de não ter ficado pelo menos mais um ano para poder sentir o gostinho de ser comandado por Klopp.

“Foi uma decisão da qual me arrependi porque eu poderia ter trabalhado com Klopp e talvez jogado umas 20 partidas com ele. De um ponto de vista futebolístico, um milhão por cento (que gostaria de ter ficado)”, disse. “Eu ainda sinto um pouco por Brendan porque certas pessoas ainda provavelmente o culpam por me ter mandado embora. Mas eu não acho que foi isso que aconteceu porque ele me ofereceu mais um ano de contrato. Ele definitivamente queria que eu ficasse”.

O problema, segundo Gerrard, foi mais acima na hierarquia, uma proposta de contrato que não o agradou. “De repente, eu recebi uma proposta baseada no número de partidas e de titularidades e gols na Premier League. Naquela idade, eu senti que não estava certo. Essa é a parte que me incomoda”, contou.

Mas Gerrard teve discordâncias com Rodgers em sua última temporada, partidas em que achava que deveria ter sido titular e não foi. Ele realizou 41 jogos, 36 desde o início, naquele período. “Real Madrid fora de casa, ou Manchester United em casa. Eu achei que eu era uma opção melhor do que certos jogadores que ele escolhia. Eu tenho isso contra Rodgers, alguns jogos específicos”, contou.

Sucessor de Jürgen Klopp

Gerrard e Klopp antes da final da Champions em Kiev, em que o Liverpool foi derrotado pelo Real Madrid (Foto: Getty Images)

Klopp disse recentemente que Gerrard deveria ser seu sucessor como técnico do Liverpool, mas o atual comandante do Rangers ainda não se considera pronto para a missão, embora, evidentemente, a tenha como um dos seus sonhos.

“Eu não aceitaria trabalhar no Liverpool apenas pelo que Jürgen disse. Sou maduro o suficiente para saber que preciso estar pronto para isso. Fico lisonjeado pelo que ele disse, e há muitas pessoas que naturalmente pensam que, se Jürgen sair em um ou dois anos, sou o próximo. Eu não sou e há alguns motivos para isso”.

“Se eu receber a proposta, é uma situação completamente diferente porque estariam me oferecendo o cargo de técnico do Liverpool. Mas, aqui onde estou agora, fazendo o que estou fazendo, estou bem, estou calmo e feliz. Se ficar no Rangers por dois, três ou quatro anos, estou ok – significa que estou fazendo alguma coisa certa. Não tenho pressa”.

“Se Jürgen ficar no Liverpool por mais quatro ou cinco anos, brilhante. Se o Liverpool decidir que há outra pessoa mais adequada para o trabalho depois de Jürgen, que há um candidato melhor do que eu naquele momento, sem problemas”.

“Para mim, o importante é tentar ser o melhor que posso ser se e quando esse momento chegar. Se chegar em dois anos ou 10 anos, sem problemas. Não trabalharei por 20 ou 30 anos. Quero a experiência de treinar no topo da Premier League em algum momento. Obviamente, a situação perfeita seria o meu time, o Liverpool, mas não sou burro de pensar que vou conseguir o emprego apenas porque fui um bom jogador do Liverpool”.

“Tenho que provar que posso fazer um bom trabalho, primeiro no Rangers. Mas, meu objetivo, meu sonho, é treinar o Liverpool. Claro que sim, eu estaria mentindo se dissesse que não”.

Quando quase trocou de clube

Torcedores do Liverpool levam faixa para provocar o Chelsea por não ter contratado Gerrard (Photo by Mike Egerton – PA Images via Getty Images)

Ao longo da sua longa passagem pelo Liverpool, Gerrard atraiu o interesse de diversos clubes que estavam em melhores situações, e parte da idolatria que a torcida nutre por ele vem do fato de que ele nunca trocou Anfield por títulos fáceis em outros lugares. Não que não tenha chegado perto. Em 2005, sem clima com Rafa Benítez, ficou muito próximo de assinar com o Chelsea de José Mourinho, que também tentou levá-lo ao Real Madrid, alguns anos depois.

“Tenho que aceitar minha parte de responsabilidade pelo flerte com o Chelsea e do ego e da frieza da minha relação com Rafa. Talvez com mais maturidade ou experiência pudéssemos ter evitado algumas das merdas que vazaram ou ao quão longe a situação chegou. Mas, ao mesmo tempo, eu provavelmente tive que fazer aquilo com o Liverpool para que eles percebessem o que tinham”.

“É sempre legal saber que outros clubes gostam de você como jogador. Acho que penso mais em um ou dois anos com Mourinho no Real Madrid do que um ou dois anos com Mourinho no Chelsea. Não me arrependo de não ter ido para o Chelsea, nenhum arrependimento. Eu posso levar meu garoto para os jogos, fui convidado para trabalhar nas categorias de base e é essa relação que eu quero ter com o Liverpool”.

“Acho que se toda a situação do Chelsea não tivesse acontecido, quando Mourinho me procurou por volta de 2010, talvez um ano ou dois, imaginando jogar pelo Real Madrid, jogar com Mourinho na Champions League pelo Real Madrid, uma experiência incrível, mas não aconteceu. O Real Madrid queria que eu causasse uma guerra no Liverpool para sair, era a única maneira de acontecer”.

Ele também contou que teve uma oportunidade de jogar no Bayern de Munique. “A carreira de Schweinsteiger estava chegando ao fim e tivemos várias conversas por telefone. Você pensa no Bayern, o quão grande é o Bayern de Munique, imagina uma experiência lá, mas então pensa: ‘espera um pouco, sou o capitão do Liverpool, por que mudar? Já estou em um clube gigante’. Eu não acho que tinha essa maturidade aos 24 ou 25 anos”.

Aquela foto com a camisa do Everton

A famosa foto de Gerrard com a camisa do Everton

Uma imagem famosa de Steven Gerrard é uma foto, quando era criança, vestindo o uniforme do Everton, o que alimenta especulações de que, na infância, ele era torcedor do lado azul da cidade. Não é o caso, e Gerrard contou a Carragher a história por trás daquela foto:

“Havia uma competição. Eu a venci, depois de uma disputa de pênaltis. Um ano era em Goodison Park, no outro era em Anfield. Era um torneio local, mas o prêmio era ir a Goodison e ganhar um uniforme completo do Everton. Aparece a cada dois dias no Instagram. Eu costumava ganhar vários uniformes diferentes de Natal. Eu tinha do Tottenham, tinha do Norwich. Essas imagens nunca aparecem, ainda bem, mas a do Everton continua aparecendo”.

Seu quinteto ideal

Gerrard cobra pênalti contra Buffon durante a Euro de 2012 (Foto: Getty Images)

Gerrard foi questionado sobre quais jogadores formariam um time de cinco ideal. Começou com Buffon no gol, Paolo Maldini na contenção, Zidane, Ronaldinho Gaúcho e Messi à frente. “Maldini era meu herói. Um jogador de um clube só, várias Copas da Europa e bonito para cacete também”, disse. “Buffon, o melhor goleiro contra o qual joguei. No ataque, vou com os três melhores jogadores que enfrentei”.

“O que Zidane conseguia fazer. Suas pernas estavam sempre no controle da bola. Ele era simplesmente um Deus. Ronaldinho teve dois ou três anos em que estava sozinho. Ele fazia coisas no gramado que faziam você pensar: ‘como ele faz isso?’.