As piadas eram insuportáveis. O Corinthians tinha títulos considerados menores pelos rivais (apesar de pelo menos um deles ter causado alegrias interplanetárias) e, segundo eles, não poderia ser considerado tão grande sem transcender as fronteiras. Mas, enfim, depois de muita espera, e com uma campanha épica, libertou-se de tudo isso e finalmente conquistou o troféu que tanto queria. Refiro-me à Libertadores, certo? Curioso, mas não: ao título brasileiro de 1990.

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Se a piada sobre a ausência de títulos internacionais, principalmente depois de o Palmeiras ser campeão, em 1999, na sequência do bicampeoanto do São Paulo, era que o corintiano não tinha passaporte, com a escassez de troféus nacionais era que se tratava de um clube estadual. Havia conquistado quatro edições do Rio-São Paulo, mas a grande parte da sua grandeza vinha da quantidade de campanhas vitoriosas no Campeonato Paulista – 20 – e, evidentemente, da paixão da sua torcida e da qualidade de seus ídolos, como Sócrates e Rivellino.

Depois de quebrar a fila com o Paulista de 1977, porém, a grande angústia era vencer um título nacional. A torcida havia invadido o Maracanã e empurrado o Corinthians rumo à decisão contra o Internacional, a única disputada antes daquela de 1990. Mas o time de Falcão e Figueroa era forte demais.

Nos anos sessenta, não disputou a Taça Brasil e foi duas vezes terceiro lugar do Robeto Gomes Pedrosa, o embrião do Brasileirão. Em 1969, precisava apenas bater o Cruzeiro, em Belo Horizonte, na última rodada do quadrangular final, para se sagrar campeão, mas perdeu por 2 a 1. Com a vitória do Palmeiras sobre o Botafogo, o maior rival acabou levando o título.

Mas em 1990 a história seria diferente. Por pouco. Classificou-se para as quartas de final com derrota para o Internacional, na última rodada, porque o Goiás também foi derrotado, pela Portuguesa. Enfrentou o Atlético Mineiro e passou graças a Neto, que marcou os dois gols da virada, no Pacaembu. Um empate por 0 a 0 na volta garantiu a passagem às semifinais contra o Bahia, que havia sido campeão brasileiro dois anos antes.

Contra os baianos, mais uma vitória por 2 a 1, novamente com Neto sendo decisivo, deram a vantagem para o Corinthians. Outra partida sem gols em Salvador garantiu a passagem para a decisão, contra o rival São Paulo, de Telê Santana, Zetti, Raí e Leonardo.

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O Corinthians mais uma vez não foi brilhante. Mas foi novamente competente. Wilson Mano, o polivalente, fez o gol da vitória por 1 a 0 no jogo de ida. E Tupãzinho, o talismã, marcou o tento decisivo na volta, que terminou com o mesmo placar, em um Morumbi abarrotado com mais de 100 mil pessoas.

Tupãozinho era a mística, o goleiro Ronaldo, o paredão, que executou várias defesas importantes, e o ídolo foi Neto. Marcou nove gols ao longo da campanha, o terceiro maior artilheiro, muitos em cobranças de faltas indefensáveis. Foi o torneio da vida dele, o mais importante da sua carreira, e até agora, quando o atual apresentador de TV se lembra daquele, fica muito animado.

Mais do que isso, o Corinthians quebrou o tabu nacional. Libertou-se das piadas e da angústia. Deu início a uma quantidade de conquistas impressionantes em apenas 25 anos, que culminou com o hexacampeonato brasileiro este ano. Somou ainda três Copas do Brasil, dois Mundiais de clubes e uma Libertadores, que pode ter sido o título mais significativo para o corintiano jovem, mas, aquele que cresceu nas décadas de setenta e oitenta ouvindo que seu time nunca conquistaria o Brasil, lembra do Brasileirão de 1990 com o mesmo tanto de carinho.