Um time que toca a bola de primeira, em direção ao campo adversário, com velocidade, movimentação e vontade de marcar gols. O Corinthians, hexacampeão brasileiro nesta quinta-feira após o empate por 1 a 1 contra o Vasco, não foi apenas o time da defesa intransponível que marcou os títulos de 2011 e 2012 e, apesar das glórias, com frequência irritava o torcedor. Foi o melhor ataque do Campeonato Brasileiro, marcando mais de três vezes em quase um terço das partidas, e grande o mérito disso tudo cabe a Tite.

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Aqueles jogos modorrentos, em que o Corinthians abre o placar e se defende até dizer chega, não desapareceram, mas caíram muito de quantidade. Tite passou um ano sabático buscando conhecimento, estudando maneiras de tornar o seu time mais ofensivo e conseguiu aplicá-las. Além da parte tática, soube principalmente navegar com segurança pela tempestade que começou a cair no CT Joaquim Grava depois da eliminação para o Guarani, do Paraguai, na Libertadores.

O descontentamento pelo atraso de pagamentos combinados pelo clube – e admitidos pelos jogadores e diretoria – era evidente. Não adiantou os esforços do presidente Roberto de Andrade para saldar parte das dívidas antes das oitavas de final da Libertadores contra o Guarani. Houve, além disso, aquela declaração atrapalhada do diretor de futebol Sérgio Janikian, que agradeceu a Deus pelo adversário desse duelo. O cenário da derrota foi montado, e ela se concretizou, com requintes de crueldade: duas derrotas e a queda da invencibilidade no Itaquerão.

As semanas seguintes foram complicadas para o clube, que se viu na obrigação de negociar jogadores ao mesmo tempo em que mantinha o reserva Cristian no elenco, com salário alto, e tinha que explicar a contratação de Love, que chegou da China fora de forma e demorou para engrenar. Lodeiro e Petros também foram embora, mas as principais perdas foram Emerson e Guerrero, dois titulares importantes. Tite teve que encaixar novas peças no time com a temporada em andamento.

Nessas horas, sua personalidade calma, seus critérios de merecimento e oportunidade e a capacidade de olhar no olho do jogador e ser sincero ajudam a enfrentar as tormentas. Os frutos disso foram vistos principalmente com Love. O atacante começou mal o Campeonato Brasileiro e perdeu a vaga para Luciano. Às vezes, até Danilo atuava na sua posição, mas ele não desanimou ou se sentiu traído pelo treinador. Continuou trabalhando e conseguiu dar a volta por cima depois que o artilheiro dos Jogos Pan-Americanos se machucou.

Da mesma maneira, ele deixou Jadson à vontade para escolher o seu destino, em fevereiro, quando uma proposta cheia de dólares do Jiangsu Sainty, da China, foi quase tentadora demais para ser recusada. Tite não prometeu titularidade ao meia, nem implorou que ficasse. Disse apenas que ele deveria decidir onde seria mais feliz. E Jadson parece ter feito a escolha certa: tem 13 gols, 12 assistências e caminha para ser o craque do Campeonato Brasileiro.

Tite (AP Photo/Natacha Pisarenko)
Tite (AP Photo/Natacha Pisarenko)

Ainda mais porque a grande chave da conquista e da profusão de gols foi mais tática e coletiva do que individual, com um esquema montado em cima de Jadson e de outros dois meias: Renato Augusto e Elias. Love, Luciano e Malcom foram importantes complementando o setor. Tanto que Jadson, com 13 gols, é o artilheiro do Corinthians no Brasileirão. Com Love entre eles, Renato Augusto e Elias aparecem na sequência, com cinco. O trio deu 24 assistências no torneio e pelo menos um deles participou diretamente (marcando, dando o passe final, chutando, cavando pênaltis, etc) de 65% dos 64 tentos do Timão no torneio (42).

O esquema tático foi o 4-1-4-1, com Ralf à frente dos zagueiros (Bruno Henrique no primeiro turno do Brasileiro), Elias ao lado de Renato Augusto, Jadson pela direita e Malcom pela esquerda. O centroavante Vagner Love tem mais a missão de se movimentar e abrir espaços do que de finalizar para o gol. Tite já utilizava essa formação como uma variação ao 4-2-3-1 na sua segunda passagem pelo Corinthians, entre 2010 e 2013, assim como o adiantamento das linhas para pressionar a saída de bola adversária. A diferença está na postura dos jogadores quando estão com a bola no pé.

Tite afirmou a Mauro Cezar Pereira, da ESPN Brasil, que analisou durante o seu ano sabático a maneira como os grandes times chegam ao campo de ataque, sempre com pelo menos seis jogadores. Estudou como compactar o setor ofensivo, aproximando os jogadores e melhorando as triangulações, e ser mais vertical em busca do gol. “Sistematicamente, passei a adotar mais jogadas de infiltração depois do intercâmbio. Tocar a bola e infiltrar a toda hora. Estou praticando uma ofensividade maior de quem vem de trás”, disse, em entrevista à TV Gazeta.

Isso se vê em campo, como na grande temporada do trio dos meias, e se traduz nos números. O Corinthians começou claudicante o Campeonato Brasileiro, naquele período turbulento pós-eliminação para o Guarani. Marcou apenas 17 gols nas 15 primeiras rodadas, uma média baixíssima de 1,1 tento por partida. O ataque começou a engrenar a partir da vitória por 3 a 0 justamente contra o Vasco, no primeiro turno: nas 20 rodadas seguintes, contando o jogo do título, foram 47 gols, média alta de 2,3 por jogo. Em 35 rodadas, marcou mais de três vezes em 11 partidas. Para se ter uma ideia, no título de 2011, o primeiro brasileiro do Corinthians sob o comando de Tite, houve apenas quatro duelos em que o Timão mandou pelo menos três bolas para as redes do adversário.

A discrepância entre o número de gols marcados pelo Corinthians na primeira e na segunda metade do campeonato se deu mais por fatores externos do que propriamente de bola e campo. O 4-1-4-1 consagrado por Tite com o hexacampeonato brasileiro é o mesmo esquema utilizado no começo do ano, quando seu time encantou a todos e parecia imbatível. É, também, o que ele usou na derrota para o São Paulo e na eliminação para o Guarani, o estopim da crise, com alguns nomes diferentes. Basicamente, Fábio Santos, Emerson e Guerrero foram trocados por Uendel (Guilherme Arana e Yago também jogaram), Malcom e Vágner Love.

Com 339 jogos, Tite é a segunda pessoa que mais vezes assinou a súmula como técnico do Corinthians, atrás apenas de Oswaldo Brandão (439). Conquistou a tão sonhada Libertadores e o segundo título mundial. O único treinador bicampeão brasileiro pelo Timão. E dessa última glória pode se gabar com propriedade. Teve a humildade e a dedicação de aprimorar os seus conceitos. Montou e remontou a equipe com o torneio em andamento. Administrou um elenco insatisfeito e conseguiu mantê-lo concentrado. É, no final das contas, o principal responsável pelo destino da taça, a sexta que ele dá para a Fiel Torcida, ser o Parque São Jorge.