A Copa América da seleção brasileira começou no frio do Morumbi. Nem tanto climático, mas da indiferença da torcida com o que acontecia no gramado. Foi o início de um torneio complicado para Tite, pressionado e questionado, com dificuldades que começaram ainda na preparação. Precisou encontrar um time ideal sem seu principal jogador e, no fim das contas, embora não tenha conseguido fazer o Brasil desempenhar um futebol brilhante, navegou entre os problemas e entregou a Copa América, seu primeiro título pelo time nacional, mas sabe, ou deveria saber, que a sua equipe precisa melhorar.

A competição sediada pelo Brasil carregou uma sensação de ultimato para Tite. Caso não conseguisse vencê-la, em casa, no mínimo balançaria no cargo. Surgiram rumores de que, independente do resultado, ele estava considerando deixar a Seleção. A quebra do jejum brasileiro de 12 anos na Copa América deve estabilizar a situação, e não foi nada fácil chegar a ela.

O primeiro desafio de Tite foi lidar com Neymar. Depois de tudo que aconteceu, nem parece que a preparação começou com a discussão em torno da agressão do jogador do Paris Saint-Germain a um torcedor na final da Copa da França, que acabou por lhe tirar a braçadeira de capitão, sem que o treinador ou a CBF deixassem claro que aquele havia sido o motivo. Surgiram a acusação de estupro, a lesão que gerou o corte e a presença do pai e agente de Neymar nos vestiários do amistoso contra o Catar.

Não houve uma melhora significativa na maneira como Tite tratou Neymar e tudo que o envolve, mas esse problema pelo menos ficou para trás, ao mesmo tempo em que outro foi criado. Com todas suas questões, o ponta-esquerda ainda é a principal fonte de criatividade e qualidade técnica da seleção brasileira. Willian, seu substituto, foi recebido por críticas quase unânimes. Jogou bem quando entrou em campo, mas nem de longe conseguiu suprir a ausência do craque brasileiro.

Até porque, no time titular, quem ocupou a vaga de Neymar foi Everton Cebolinha, o principal acerto de Tite na Copa América. O jogador do Grêmio, amado pelas arquibancadas, ganhou a posição na terceira rodada da fase de grupos, depois de ter ido bem nos dois primeiros jogos. Acabou artilheiro, com três gols, ao lado de Guerrero, e em um patamar acima ao que estava quando começou a Copa América.

A outra alteração do treinador que deu certo foi o deslocamento de Jesus à ponta direita, com Firmino de centroavante. Os frutos surgiram especialmente na semifinal contra a Argentina, quando um deu assistência para o outro nos dois gols. O atacante do Manchester City terminou o torneio expulso, mas foi decisivo nas duas partidas mais difíceis, retribuindo a confiança que Tite sempre depositou em seu futebol.

Os questionamentos à convocação foram respondidos com resultados mistos. Daniel Alves acabou sendo eleito o craque da Copa América, Willian entrou bem e Fernandinho começou titular, saiu contra a Venezuela e uma lesão atrapalhou o resto do seu torneio. Lucas Paquetá teve apenas seis minutos contra o Paraguai e merecia mais chances, enquanto a ausência de Marcelo segue sem explicação.

Pouco a pouco, a seleção brasileira conseguiu ganhar mais apoio da torcida, culminando em uma atmosfera vibrante contra a Argentina, impulsionada pela rivalidade entre as duas seleções. O futebol melhorou o suficiente para que o Brasil fosse o melhor time da Copa América, um pouco por exclusão, porque o resto decepcionou, em uma competição de nível baixo, mas ainda está longe do ideal, o que até certo ponto é normal nesse estágio do ciclo, ao fim do primeiro ano pós Copa do Mundo.

A defesa foi um destaque incontestável. O único gol sofrido pelo Brasil foi marcado pelo Peru, em um pênalti mal marcado pelo árbitro. Isso é uma constante do trabalho de Tite: em 42 jogos, seu time foi vazado apenas 11 vezes. O problema foi no ataque. Até as quartas de final, a Seleção havia feito gol no primeiro tempo apenas contra o Peru, em bola parada e em um erro crasso de Gallese. Depois, com Everton.

Houve problemas para furar a defesa boliviana no primeiro tempo, e o jogo contra a Venezuela terminou 0 a 0. Contra o Paraguai, os pênaltis foram necessários. O drible ajudou a abrir o caminho diante de Argentina e Peru, mas em ambos os jogos houve momentos de apuros. O time de Messi dominou o jogo entre os gols de Jesus e Firmino, e o de Guerrero começou melhor no Maracanã e chegou a ser superior em períodos do segundo tempo.

Com tantos problemas, e por ser um começo de trabalho, o Brasil fez uma Copa América aceitável, mas não deixa de preocupar a sensação de que o desempenho do time foi melhor quando Tite assumiu do que nas últimas semanas. Seu próximo desafio é inverter essa tendência de queda e voltar a evoluir, pensando nas Eliminatórias Sul-Americanas e, acredite se quiser, na reedição do torneio sul-americano ano que vem.