Todos estão sujeitos a erros, mas são raros os que têm a oportunidade de cometê-los em uma Copa do Mundo, perder o título e continuar no comando da seleção brasileira para colocar em prática o que talvez tenham aprendido com eles. Um desses será Tite. Como era esperado, o seu contrato com a CBF foi renovado até o Mundial do Catar, assim como o do coordenador de seleções Edu Gaspar.

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Segundo os dados do site RSSSF, Tite é apenas o quinto a ser mantido após um infortúnio na Copa do Mundo. Os dois primeiros foram na década de trinta: Píndaro de Carvalho (1930) ficou mais três jogos, e Luis Vinhaes (1934), mais oito. Depois de ser eliminado do Mundial de 1954, Zezé Moreira foi mantido por uma partida. O último foi há 40 anos. Cláudio Coutinho, o “campeão moral” de 1978, ficou mais um ano e dez confrontos à frente da seleção brasileira, antes de dar lugar a Telê Santana. Nenhum chegou à Copa seguinte.

Fato tão raro serve para ressaltar a avaliação positiva do trabalho de Tite, em um contexto geral. Ela existe não apenas na cúpula da CBF, mas também na torcida e na imprensa. Os cartolas não arriscariam tomar uma decisão impopular, uma vez que contrataram o ex-treinador do Corinthians, entre outros motivos, como ele ser muito bom, também para servir de escudo às críticas que recebiam na reta final da segunda passagem de Dunga.

A avaliação não está errada. Tite fez um bom trabalho. Assumiu uma colcha de retalhos que estava em sexto lugar nas Eliminatórias Sul-Americanas, fora da zona de classificação à Copa do Mundo da Rússia, e confirmou a vaga em menos de um ano, com a terceira maior antecedência da história da Seleção. Bem ao seu estilo, organizou a equipe, montou uma boa defesa e teve atuações dominantes contra os rivais do continente.

O primeiro sinal de problema foi em um amistoso contra os reservas da Inglaterra, quando o Brasil teve muitas dificuldades para furar a defesa adversária. No entanto, chegava à Rússia como um dos principais favoritos ao título. O que foi um trabalho praticamente impecável de preparação, a mais tranquila dos últimos tempos, a que parecia mais em sintonia com o que fazia o mundo do futebol atualizado, começou a degringolar à medida em que o Mundial se aproximava.

A convocação foi quando Tite passou a receber as primeiras contestações sérias, principalmente pela presença de Taison e as ausências dos gremistas Arthur e Luan. Poucos imaginavam uma situação em que o atacante do Shakhtar Donetsk entraria em campo, e aparentemente um deles era o próprio Tite, que não o escalou um minuto sequer.

Algumas sobrancelhas também foram levantadas pela convocação de Fágner. Uma falha séria do treinador ao longo do ciclo foi não preparar um reserva para Daniel Alves, que acabou se machucando às vésperas da Copa do Mundo e não teve condições de ir à Rússia. Tite apostou na confiança que tinha no lateral direito com o qual trabalhou no Corinthians e que, no fim das contas, realmente não comprometeu durante o torneio.

Com a seleção já reunida, apareceram os problemas físicos. Renato Augusto não treinou nos primeiros dias da preparação, o que causava ainda mais preocupação pelo seu histórico de lesões. Fred machucou-se durante os treinamentos. Apesar de ambos serem da mesma posição, Tite decidiu não os cortar. Renato foi reserva em algumas partidas, e importante na tentativa de reviravolta contra a Bélgica, mas Fred sequer entrou em campo, e o treinador admitiu, em entrevista coletiva, que ele não tinha condições de jogar.

Ao longo da campanha, o comandante insistiu demais com jogadores de sua confiança que não estavam atuando bem, como Paulinho e Gabriel Jesus, e demorou muito para perceber a estratégia de Roberto Martínez nas quartas de final. Quando o fez, e rearranjou suas peças, conseguiu equilibrar o jogo e até ser superior à Bélgica, mas era tarde demais.

Em linhas gerais, esses foram os principais erros de Tite na condução da seleção brasileira à Copa do Mundo. Sua permanência no cargo é merecida, mas ele precisa transformar o que deu errado em experiência para não cometer os mesmos equívocos novamente. Pelo perfil do treinador, é provável que isso aconteça: quando retornou ao Corinthians, depois de um ano de 2013 em que sua equipe era absolutamente enfadonha, mostrou novos recursos e ideias que construíram um time campeão brasileiro.

No entanto, quem irá fazer essa cobrança? A permanência de Edu Gaspar indica que a hierarquia da seleção brasileira continuará a mesma que não funcionou durante a Copa do Mundo. Gaspar tem bom relacionamento com o técnico, talvez bom demais para dar as broncas que são necessárias, e tamanho de menos para bater de frente com ele. Quem irá dizer, por exemplo, que não pega bem Tite empregar o seu próprio filho?

A CBF poderia fazer isso. Seu próprio código de ética proíbe o nepotismo. O chefe oficial da entidade é o melancólico Coronel Nunes, mas o homem forte é o presidente eleito Rogério Cabloco, justamente quem anunciou a renovação. Mas Cabloco já era chefe da delegação na Rússia, enquanto as coisas davam errado, e, se ele tentou intervir para corrigi-las, não foi bem-sucedido.

Até porque existem pouquíssimos nomes mais bem preparados para comandar a seleção brasileira, a permanência de Tite é uma boa notícia. Seria pior se a CBF interrompesse um trabalho promissor que precisa de ajustes para dar chance a outro aventureiro, como foi Dunga, ou a um profissional ultrapassado. No entanto, seria loucura adotar as mesmas práticas novamente, cometer os mesmos erros, e esperar resultados diferentes.


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