O calendário é um dos pontos mais discutidos do futebol brasileiro e talvez seja um dos maiores problemas atuais. É o problema mais grave causado por dois atores poderosos do futebol brasileiro, CBF e federações estaduais. A discussão tem se dado muito por causa das convocações de jogadores que atuam no Brasil e desfalcam seus times nas datas Fifa – uma situação que a CBF prometeu acabar para 2020, mas mentiu e os problemas continuam. O técnico da seleção brasileira, Tite foi questionado nesta quarta-feira, em Singapura, sobre isso. Criticou o calendário, como fazia na época de clubes, que é o óbvio. Faltou só outra parte da obviedade: que a CBF e o próprio técnico são parte do problema.

“Quando a Seleção joga não tinha que ter jogo de time. Continuo convicto. Isso para mim não vai mudar ao longo do tempo. Eu faço as convocações e faço com bastante pesar. Porque eu não queria. Continuo com a mesma opinião”, disse o treinador da seleção brasileira, que tratou de falar sobre a sua empregadora, CBF, que anunciou com pompa ter acabado com o problema das Datas Fifa para 2020, sendo que apenas jogou a sujeira para baixo do tapete.

“Eu sei que o Manoel Flores (diretor de competições da CBF) está tentando ajustar. Mas vocês sabem mais que eu e eu não quero entrar nestes aspectos. Mas esse problema aconteceu com todos os clubes, quase todos os clubes. Eu tenho isso claro e continua igual”, disse Tite, que como treinador de clubes, especialmente do Corinthians, foi bastante crítico com essa questão das Datas Fifa prejudicarem os clubes.

O problema da fala de Tite é que ele comete alguns equívocos. O primeiro é se eximir da responsabilidade. Sim, ele é o técnico da CBF e é ele quem convoca, com pesar ou não. Pelo que ele acredita, poderia e deveria brigar mais pelo calendário, para não prejudicar os clubes. Neste momento, por exemplo, o futebol de clubes é mais importante e, por isso, convocar jogadores que atuam no Brasil é um prejuízo grande para os clubes.

E olha que não é assim como o técnico diz, que prejudica todos os clubes. Prejudica mais uns que outros, até porque uns tem mais convocáveis que outro, ou, ao menos, uns têm jogadores que o técnico prefere em relação a outros. Seria melhor podermos debater as convocações apenas pelos nomes em sim, e não por prejudicarem seus clubes. Assim como outros atores dessa peça dramática que é o futebol brasileiro, parece se resignar a apenas lamentar, como se nada pudesse ser feito. Todos lavam as mãos.

A responsabilidade do calendário é, antes de tudo, da CBF. É ela quem deveria ter como prioridade o futebol jogado no país e, ao mesmo tempo, poder dar à Seleção uma importância maior, sem que atrapalhasse os clubes e fizesse com que os jogos fossem relevantes e os torcedores quisessem ter seus jogadores convocados, o que nem sempre acontece atualmente. Só que sabemos que não é assim que a CBF age.

A CBF se preocupa com Seleção acima de tudo, patrocinadores acima de todos. Por isso, dá de ombros para o Brasileirão. É capaz que na sede da CBF sequer tenha o Premiere para assistir aos jogos do principal torneio do país, tal parece ser o descaso com o futebol brasileiro. Futebol jogado por aqui parece ser mais um peso nos ombros da CBF do que sua missão, como deveria ser. O próprio secretário-geral da entidade, o ex-político (ex?) Walter Feldman, já disse para quem quisesse ouvir que o Brasileirão dá prejuízo para a CBF. E se esse fosse o caso, porque a CBF não incentiva os clubes a criarem uma liga e a administrarem de forma independente e que fosse, então, lucrativa?

Dito isso, há uma responsabilidade que passa também pelos clubes. A CBF os alija com as eleições com peso maior às federações, driblando resolução da legislação brasileira que obriga participação de clubes e atletas. Mesmo assim, os clubes não se mexem para mudar isso. Aceitam, porque parece que nenhum clube é capaz de realmente peitar a CBF em relação a isso e menos ainda capaz de se unir com seus pares para atuarem de forma firme.

Como já escrevemos, a CBF é essa bagunça porque o seu clube permite. O ex-presidente do Atlético Mineiro, Alexandre Kalil, já falou que “não tem cabimento os clubes serem mandados por alguém”. O problema é que os clubes só querem usar a CBF para barganhar.

A força do futebol está nos clubes, que é quem tem torcedores. Em todos os países com campeonatos nacionais relevantes, quem comanda o futebol do país são os clubes. A federação nacional cuida apenas da seleção e de um torneio, como as copas nacionais. Os clubes já tomaram a frente uma vez, em 1987, com o Clube dos 13, que explica bem o Brasil por todo o caos que veio daí, em uma disputa mesquinha.

Mesmo após o imbróglio jurídico que persiste até hoje, o Clube dos 13 permaneceu existindo e funcionava como um coletivo dos clubes para negociar os direitos do Campeonato Brasileiro. Chegaram a ter um modelo de venda de direitos que previa até mesmo transmissões pela internet como algo separado das demais modalidades, TV aberta, TV fechada e pay per view, algo que poderia fazer muita diferença em aumentar a arrecadação dos clubes.

Esse item estava previsto para a negociação de 2011, o que deixou empresas como UOL e Terra empolgadas na época com a possibilidade de transmitirem online o Campeonato Brasileiro – o Terra faria, no ano seguinte, uma cobertura marcante da Olimpíada de 2012, em Londres.

Só que essa negociação coletiva não aconteceu O Clube dos 13 tinha muitos problemas, havia uma disputa interna e a distribuição do dinheiro, em maior quantidade muito maior para os grandes, já era discutida. Havia uma disputa pelos direitos, que só poderiam ser comprados a partir do Clube dos 13. Isso morreu em 2011, em um movimento que envolvia outra parte que tem certa culpa: a TV.

Insatisfeitas com as condições que o Clube dos 13 colocava, Record e Globo, que disputavam os direitos do Brasileirão, se retiraram, o que criou a situação ridícula: a RedeTV foi a única que sobrou na disputa e ganhou a licitação. Claro, como sabemos, isso não significou nada. Foi quando a Globo negociou diretamente com os maiores clubes do país, conseguindo Flamengo e Corinthians para o seu lado, prometendo muito mais dinheiro. A resistência inicial de muitos clubes, que prometeram brigar, acabou sendo dissuadida. E a Globo passou a ter, pouco a pouco, contrato com todos os times do Brasileirão.

Sem uma mesa de reuniões dos clubes, sem uma entidade que os representasse e com a CBF usando picuinhas como o título do Brasileiro de 1987 e a Taça das Bolinhas, manipulava os interesses dos clubes. Como foi também com o reconhecimento de Copa Brasil e Robertão como Campeonatos Brasileiros – que poderia ter sido feito por outros motivos, com uma análise técnica e uma maior discussão, mas foi feito por política. E, assim, a CBF rachou os clubes de tal forma que até hoje são incapazes de se unir.

A Globo tem a sua parte neste latifúndio, porque foi quem atiçou a quebra do Clubes dos 13. Em um primeiro momento, vendeu a ideia de que todos ganhariam mais, o que foi verdade, mas que obviamente tinha um problema: todos ganhariam mais, mas a diferença aumentaria muito entre os que ganham mais e os que ganham menos. E desembocou no que vimos neste ano, com alguns clubes fechados com uma emissora, SporTV na TV fechada, e outros fechados com outra, o Esporte Interativo.

Curiosamente, quando se fala em calendário, é a Globo que pensa em mudar o calendário. Como reportado por Rodrigo Mattos no UOL, a Globo irá reduzir o número de transmissões em TV aberta para 2020. O calendário atual do futebol brasileiro não atende aos interesses da emissora, que vê quedas de audiência no início do ano, com os estaduais gerando cada vez menos interesse do público – e, claro, por consequência, dos patrocinadores.

O executivo da Globo, Fernando Manuel, defende que haja uma readequação dos estaduais – leia-se o seu enxugamento. Para a Globo, não tem sido interessante que os estaduais durem tanto. Há uma perda de receita no seu pay per view, o Premiere. Como o Campeonato Brasileiro acaba em dezembro, muitos cancelam seus planos nesse mês e só voltam a assinar em maio, quando recomeça o Brasileirão.

Por isso, é mais interessante para a Globo que o Campeonato Brasileiro dure de fevereiro a novembro. Só que essa vontade da emissora esbarra em um problema sério:  as federações estaduais que, claro, querem manter a sua parte desse latifúndio da CBF. A entidade que comanda o futebol brasileiro dá poder e, principalmente, dinheiro nas mãos das federações, que retribuem mantendo o poder como está.

Diante desse cenário, quem poderia quebrar esse ciclo? Sim, isso mesmo: os clubes. E vejam só: justamente com o apoio da TV. Exatamente como aconteceu em 1987: com o apoio da TV, o Brasileirão, então Copa União, se tornou realidade. Hoje os clubes poderiam fazer isso. Mas querem? Parece que não.

Enquanto isso, vemos esses discursos escapistas de CBF, Tite e todos os envolvidos, que lamentam que nada pode ser feito. Isso, claro, até que a Globo decida fechar as torneiras dos estaduais, especialmente dos quatro principais centros do país, São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Rio Grande do Sul. Sem o dinheiro, os clubes milagrosamente dirão que os estaduais são prejudiciais e brigarão por mudanças. Algo que já acontece em outros lugares, como no Nordeste, onde os clubes buscaram a Copa do Nordeste e foi uma solução interessante diante de uma situação de calamidade dos estaduais, que chegavam ao absurdo de dar prejuízo aos clubes, mesmo os grandes, como o Bahia.

Tite lamenta, como lamentaram os clubes no momento da convocação, como lamentou Manoel Flores, diretor da CBF, ao dizer que a situação “é um cobertor curto” e por isso não foi possível parar o Brasileirão durante a Copa América. Todo mundo lamenta, ninguém faz nada (a CBF, porém, diz que faz, embora saibamos que é mais um jogo de palavras do que uma ação efetiva). As federações estaduais seguem engordando suas contas e com um poder político desproporcional. Técnicos e jogadores seguem pisando em ovos ao falar do assunto. Os clubes seguem reclamando das convocações, sem fazer nada além disso, só servindo como satisfação aos seus torcedores.

No fim, a CBF tem feito o que sempre pareceu: muda para que tudo continue como está. Com o aval de todos os envolvidos.

NA TV
Brasil x Senegal
Quinta, 10 de outubro, 9h
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