“Foi um pouco frustrante porque todo mundo estava me dizendo: ‘não chute, não chute’. Eu conseguia ouvir. E foi chato para mim. E eu disse: ‘pera lá, eu não cheguei tão longe na minha carreira para jovens jogadores me dizerem se posso ou não chutar uma bola’. E eu simplesmente chutei”. A desconfiança dos jovens do Manchester City não era injustificada. Vincent Kompany havia dado 36 chutes de fora da área na Premier League sem fazer um gol. O último que pelo menos acertara o alvo foi em dezembro de 2013.

Também foi justificada a decisão da defesa do Leicester de dar espaço para o zagueiro. Ela provavelmente não tinha esses números em mente, mas, calculando as probabilidades, era menos provável que Kompany causasse perigo a Schmeichel daquela distância do que se a bola fosse passada à entrada da área ou às pontas. Mas o futebol tem momentos em que o racional é atirado pela janela.

Aos 25 minutos do segundo tempo, o capitão do Manchester City recebeu na intermediária, avançou um pouco e colocou a bola onde nenhum Schmeichel, nem Kasper, nem Peter, conseguiria alcançar. Ao fazer isso, garantiu a vitória do time de Pep Guardiola por 1 a 0, a 31ª em 37 rodadas da Premier League. Para alcançar o bicampeonato, tudo que ele precisa é derrotar o Brighton no próximo domingo.

 

Não importa quem seja campeão, o Liverpool precisa agradecer o Leicester do seu velho conhecido Brendan Rodgers. Não havia muita coisa em jogo para as Raposas, além de uma pequena chance de ser sétimo colocado e conseguir vaga na Liga Europa. Mesmo assim, os visitantes venderam caro a derrota, como se o empate também valesse um título a eles. E, quando havia passado 70 minutos da contagem regressiva de 90 que os torcedores dos Reds faziam, Kompany tirou da cartola um gol improvável.

E a apropriado. Faz sentido que tenha sido Kompany. Mais do que isso: só poderia ter sido Kompany. O zagueiro que chegou em 2008, no começo do projeto milionário dos Emirados Árabes, mas sem ser uma contratação de renome. Tinha 22 anos e custou menos de € 10 milhões. Resistiu às baciadas de contratações milionárias e famosas, rapidamente tornando-se uma rocha na defesa, um líder em campos e vestiários, bandeira da mais vitoriosa época da história do Manchester City, com direito a outros gols emblemáticos, como aquele em 2012 no dérbi decisivo contra o Manchester United.

Resistiu, também, ao tempo. Está com 33 anos e enfrenta problemas físicos há pelo menos sete temporadas. Alguns de menor gravidade, outros que o limitaram a apenas 14 rodadas da Premier League em 2015/16 e a 11 na temporada seguinte, a primeira de Pep Guardiola em Manchester. Ele atuou em 17 na campanha anterior e chegou a apenas 16 nesta Premier League contra o Leicester. Ainda não havia feito nenhum gol.

Lendo os números, era uma chance de mais ou menos 50% que ele sequer estivesse em campo contra o Leicester. Lendo a história, era claro que ele estaria, como sempre esteve nos momentos decisivos. Para, por exemplo, jogar-se com as costas para bloquear o chute rasteiro de Tielemans, no começo do primeiro tempo, único momento em que a partida foi equilibrada.

Não é à toa que a maioria das análises aponta que o Leicester pode dar um salto na próxima temporada, se mantiver seus principais jogadores e fizer boas contratações. Tem jogado bem desde a chegada de Brendan Rodgers, no começo de março, com cinco vitórias, duas derrotas e um empate pela Premier League.

O que mais chamou a atenção no primeiro tempo no Etihad foi como conseguiu fugir da pressão intensa dos donos da casa à saída de bola visitante, com toques de primeira e tranquilidade, ao mesmo tempo em que chegava bastante pelos lados. Mas a partir da metade da etapa, o City encurralou o Leicester no campo de defesa, sem criar grandes chances. A mais clara foi em uma cabeçada de Agüero na primeira trave, após cobrança de escanteio, que explodiu no travessão e ainda exigiu uma espalmada providencial do goleiro dinamarquês, em cima da linha.

A troca de passes do City não fluía como é habitual. O Leicester defendia recuado e bem compacto, sem espaços para infiltrações pelos lados da área. Mas a pressão aumentava a cada instante. E quando um time fica em cima do outro por tanto tempo, a tendência de eventualmente alguma coisa acontecer aumenta a cada minuto. As pernas cansam. A concentração diminui.


O primeiro lance foi quando Jonny Evans deixou a bola passar entre suas pernas e permitiu a Agüero finalizar caindo, para linda defesa de Schmeichel. A segunda foi a bomba de Kompany, que pode ter sido improvável pelo autor do chute, mas não pela maneira como o Manchester City estava e vem atacando.

Era comum em trabalhos passados tirarem sarro dos times de Guardiola porque eles não chutavam. Preferiam trocar passes até entrar na pequena área. Brincadeira ou não, este City tem recursos. Com 13 gols, é ao lado do Tottenham o time da Premier League que mais marcou de fora da área na Premier League. Como estava difícil quebrar a barreira montada por Rodgers, o City tentava de longe. Das 19 finalizações na partida, 13 foram de fora da área.

Um desses foi o de Kompany. Na gaveta. Para a vitória. E para o título. “Eu fiz gols assim nos treinamentos. Faz 15 anos que eu ouço meias me dizendo ‘não chute! Passe a bola para o lado’. Faz 15 anos que eu digo ‘um dia eu vou dar um chute de fora da área, e vou fazer o gol, e vocês vão ficar felizes’. “ E, nesta segunda-feira, eles certamente ficaram.