Tiffeny Milbrett, a primeira heroína entre as mulheres do futebol olímpico

A baixinha pode não ser tão famosa como Mia Hamm, Abby Wambach ou Michele Akers, mas coube a ela marcar o gol do ouro na primeira edição feminina, em 1996

Daqui a um ano, começam os Jogos Olímpicos de Tóquio-2020 (sim, esse será mesmo o nome). Para marcar a data, a Trivela inicia esta coluna em parceria com o OlimpCast, que trará toda semana um texto relembrando algum fato marcante dos torneios olímpicos de futebol.

Os esportes coletivos demoraram a ser coisa de mulher nos Jogos Olímpicos. O primeiro foi o vôlei, que estreou em Tóquio-1964 já com competições para homens e mulheres. O basquete esperou 40 anos – começou em Berlim-1936, mas as mulheres só entraram em só em Montreal-1976, mesmo ano da estreia delas no handebol. O hóquei só teve torneio feminino em Moscou-1980.

Mas ninguém esperou como o futebol. As mulheres só tiveram a chance de disputar a medalha de ouro no centenário dos Jogos, em Atlanta-1996, quase um século após a entrada dos homens, na longínqua e confusa disputa de Paris-1900. Na prática, até hoje não há igualdade: no ano que vem, em Tóquio, teremos mais uma vez 16 seleções masculinas e apenas 12 femininas. A estreia, contudo, teve momentos épicos: estádios cheios, festa da torcida da casa e a consagração de uma atacante baixinha, rápida e, acima de tudo, persistente: Tiffeny Milbrett, a autora do gol que deu a medalha de ouro à seleção da casa na estreia da competição.

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Nascida em Portland, a pequena Tiffeny se interessou por esporte desde cedo – era uma atração para fugir do tédio enquanto ficava com seu irmão em casa enquanto a mãe saía para trabalhar. Como lá o futebol na infância não tem gênero, a aproximação do futebol foi natural. Foi crescendo e se aprimorando, colecionando gols e prêmios em seu time no ensino médio e garantindo assim uma bolsa para a Universidade de Portland, que tentava reformular seu time de soccer. O tamanho não veio: Tiffeny tem 1,58 m. Mas nunca lhe fez falta.

Ao colecionar gols na NCAA, a liga universitária norte-americana, Milbrett chamou a atenção da seleção e ganhou sua primeira convocação em 1991 – mas, ainda com 19 anos incompletos, não foi selecionada para o time que, na China, disputou e venceu a primeira Copa do Mundo Feminina. Sua estreia na seleção aconteceria somente no ano seguinte. Depois disso, tornou-se nome certo para o segundo Mundial, na Suécia, em 1995. Logo na estreia, fez um gol no empate por 3 a 3 com a China. Ao todo, foram três gols e uma frustrante terceira posição.

No ano seguinte, Milbrett seguiu no time para a Olimpíada. Dentro de casa, era o momento de retomar o domínio do futebol feminino mundial. E ela já começou bem: fez o gol que fechou a vitória por 3 a 0 sobre a Dinamarca, na estreia. No jogo seguinte, 2 a 1 sobre a Suécia. Depois, um 0 a 0 com a China nada animador: no saldo, as donas da casa ficaram com o segundo lugar do grupo e a tarefa de enfrentar a Noruega, campeã da outra chave, nas semifinais.

Era um adversário indigesto: no ano anterior, fora a Noruega que, com uma vitória por 1 a 0, tinha tirado as americanas da final da Copa. A vingança veio com requintes de crueldade: Linda Medalen abriu o placar para as visitantes no primeiro tempo. Por orientação da psicóloga Colleen Hacker, a seleção dos Estados Unidos não desceu para os vestiários no intervalo, mas ficou em campo para sentir o calor da torcida. Funcionou, e a estrela Michele Akers, de pênalti, empatou. Na prorrogação, coube a Shannon MacMillan, que havia acabado de entrar no lugar de Milbrett, levar à loucura os quase 65 mil presentes no estádio de Sanford, em Athens, com um gol de ouro aos 10 minutos do primeiro tempo, em seu primeiro toque na bola.

A arena, da Universidade da Geórgia, foi o principal palco do futebol, que se espalhou pela Flórida e até pela capital Washington, mas não foi à cidade-sede daquela estranha Olimpíada que teve pela primeira vez o uso de arenas provisórias, desmontadas ao fim do evento. A final feminina foi disputada em 1º de agosto, um dia depois do vexame do Brasil masculino diante da Nigéria do “ele é perigoso” Kanu, e opôs novamente norte-americanas e chinesas – que, na semifinal, venceram por 3 a 2 um jogo duro contra o Brasil de Roseli e Pretinha, que vencia até os 37 minutos do segundo tempo.

Mais de 76 mil pessoas viram, na preliminar, a Noruega levar o bronze fazendo 2 a 0 no Brasil. E vibraram quando MacMillan, desta vez titular, abriu o placar aos 19 minutos de jogo. Mas Sun Wen empatou ainda aos 32 da etapa inicial. No segundo tempo, em meio a um jogo tenso e truncado, eram 21 minutos quando Joy Fawcett escapou pela direita, invadiu a área e, diante da indecisão da goleira chinesa, só rolou para Milbrett, que entrava livre pelo meio. Praticamente em cima da risca da pequena área, a pequena Tiffeny só precisou empurrar para o gol, abrir os braços e comemorar. Ela saiu logo depois para dar lugar à quase xará Tiffany Roberts, zagueira, que entrou para fechar a casinha. Voltou ao campo para receber a merecida medalha de ouro.

A dona da camisa 16 seguiu no USWNT por um bom tempo, mas sem novos títulos nas competições de elite. Jogou as Copas de 1999 (vice) e 2003 (terceiro lugar) e a Olimpíada de Sydney-2000, quando fez dois gols na final contra a Noruega – que desta vez levou a melhor no gol de ouro, por 3 a 2. Milbrett não esteve no elenco campeão em Atenas-2004 e despediu-se da seleção no ano seguinte, com a ótima marca de 100 gols em 206 jogos – quase meio gol a cada partida. Em 2018, foi selecionada para o Hall da Fama do futebol na terra do Tio Sam, com direito a elogio de várias colegas (veja o vídeo abaixo). E poderá contar para sempre que fez um país inteiro festejar uma medalha de ouro.

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