Os sinais de fim de ciclo estavam dados. Tiago Nunes havia tornado público o quanto estava cansado, ao entrar nos meses finais do seu contrato com o Athletico Paranaense, e, pelo trabalho que fez, ficou merecidamente cobiçado no raso mercado brasileiro de treinadores. O Furacão tentou mantê-lo, mas era hora de encarar um novo desafio, e Nunes será o comandante do Corinthians, a partir do ano que vem.

Embora o Athletico Paranaense seja um dos clubes mais estruturados do Brasil, não é propenso a fazer loucuras financeiras. Ofereceu uma renovação com reajuste salarial e contrato mais longo, mas não chegou ao patamar financeiro proposto pelo Corinthians, com um pacote de R$ 850 mil mensais para ele e sua comissão técnica. E não podemos descartar a possibilidade de que houve uma sensação de que sua missão estava cumprida na Arena da Baixada.

Tiago Nunes rodou 22 clubes em nove estados brasileiros antes de aterrissar no Athletico Paranaense para trabalhar na base. Em 2018, assumiu o time principal no lugar de Fernando Diniz e conseguiu ajustar os conceitos do antecessor para melhorar os resultados. Melhorou tanto que conquistou dois dos três títulos mais importantes da história do clube: a Copa Sul-Americana e a Copa do Brasil.

Com os troféus do Campeonato Paranaense e da Copa Ex-Suruga, é o treinador mais vitorioso da história do Athletico Paranaense e também a mais longevo neste século, embora seu trabalho tenha meramente superado os 500 dias, o que diz alguma coisa sobre a rotatividade de técnicos no futebol brasileiro.

Apesar de todo esse sucesso, e de assumir o Corinthians apenas ano que vem, quando seu vínculo com o Athletico Paranaense já teria expirado, a diretoria liderada por Mario Celso Petraglia ficou contrariada. Encerrou o contrato de Nunes imediatamente e emitiu uma nota bem infeliz, na qual acusou o treinador de “ingratidão” e expressou decepção com a abordagem paulista. “O que prevaleceu foi a força imbatível dos números”, disse. “A memória é curta. Tiago Nunes esqueceu muito rápido que poucos meses atrás treinava o sub-19 do Furacão”.

Para o técnico, é ótimo poder assumir o Corinthians apenas ano que vem. Ganha alguns meses para recarregar as energias e terá a pré-temporada para inserir suas ideias. Além disso, melhor não arriscar pegar o bonde andando nestas rodadas finais do Campeonato Brasileiro porque, na prática, bastaria uma sequência de três ou quatro jogos ruins para chegar à próxima temporada desgastado.

O que ele pode fazer no Corinthians?

Tiago Nunes foi anunciado pelo Corinthians (Foto: divulgação)

O grande mérito de Nunes no Athletico foi a maneira como alcançou os resultados. No momento em que treinadores são colocados em caixinhas, os reativos e os da posse de bola, os estudiosos e os medalhões, ele mostrou capacidade de se adaptar ao que o jogo pedia, sabendo o momento de pressionar, o momento de contra-atacar, o momento de trocar passes e o momento de se segurar na defesa, e isso o torna um nome muito interessante para fazer o que o Corinthians quer e precisa.

Não é que o Corinthians sempre jogou da mesma maneira há dez anos. Há diferenças entre os principais times do período, o treinado por Mano Menezes, os dois de Tite e o campeão brasileiro com Fabio Carille. A constante entre eles era a prioridade por uma defesa muito sólida e um ataque mais vertical e, quando as coisas estavam dando errado, ou havia pouco material humano, a memória muscular levava os treinadores a uma retranca que tornava o Corinthians chato para burro.

Ou seja, quando bem executada, a ideia de jogo gerava um time equilibrado, com mecanismos ofensivos diferentes de acordo com os atletas à disposição – um extra-classe como Ronaldo e André Santos voando, a qualidade de Guerrero, a energia de Emerson Sheik e muita intensidade na pressão, as combinações entre Jadson, Renato Augusto e Fagner, o pivô de Jô e as subidas de Guilherme Arana, etc, etc.

Quando mal executada, houve aquela temporada cheia de empates com Tite ou a atual, cujos resultados e desempenhos levaram o Corinthians a demitir Carille. Nesses momentos de baixa, as tentativas de bruscas rupturas não deram certo, e a torcida corintiana parece com a paciência esgotada com essa filosofia que resultou em tantas glórias, mas também em tantos jogos enfadonhos. No entanto, não é exatamente com a filosofia que ela está insatisfeita: é com a sua má aplicação.

Nesse cenário, o que Tiago Nunes e sua capacidade de adaptação podem oferecer é uma espécie de meio-termo. O Athletico Paranaense tem uma saída qualificada a partir da defesa, com passes curtos, e mantém a posse de bola. Antes da saída de Nunes, ou seja, antes da rodada deste meio de semana, era o quarto índice do Campeonato Brasileiro (55,2%). Mas não depende desse mecanismo para chegar ao campo de ataque. Tanto que era também o time que mais acertava lançamentos na primeira divisão (31,3 em média). O Furacão de Nunes produziu o terceiro maior número de finalizações por partida (15,6), além de ter sido o líder em chutes certos (5,2).

Tinha o quarto melhor ataque do Campeonato Brasileiro e havia sofrido apenas cinco gols a mais do que o Corinthians,  sofrendo uma finalização a menos em média por partida, o que demonstra equilíbrio – e lembrando que o Athletico Paranaense atuou várias vezes neste Brasileiro com equipes reservas, priorizando a Copa do Brasil.

Em sua primeira temporada, Nunes armou o Furacão com um trio de meias mais leves – Bruno Guimarães, Lucho González e Raphael Veiga – e abria a defesa adversária com laterais colados às linhas do gramado. Na segunda, precisou fazer algumas adaptações. Com a perda de Renan Lodi, os pontas ofereceram a tal da amplitude e os laterais criaram por dentro. E Wellington, um volante, foi inserido para dar mais equilíbrio ao meio.

Conseguir ajustar o time às peças que tem à disposição será importante para o trabalho de Nunes no Corinthians porque o clube paulista não está em condições financeiras de contratar quem quiser e precisará recorrer ao terrão e a apostas. E uma análise do elenco do Athletico Paranaense confirma que o treinador sabe tirar o melhor desse perfil de jogador, seja de jovens da base ou promessas que, por diversos motivos, nunca explodiram.

Tiago Nunes não deve chegar ao Corinthians em janeiro e revolucionar tudo que vinha sendo feito. O mais provável é que busque o equilíbrio, como nos melhores momentos com Tite e Carille, um time mais ofensivo que não abre mão da segurança defensiva, que sabe atacar em velocidade e com a bola, porque conseguiu fazer isso no Athletico Paranaense e porque é justamente o que o Corinthians precisa no momento.

Embora tenha rodado bastante em busca de experiência, Nunes ainda é jovem e tem apenas um grande trabalho de destaque na carreira. Pode dar errado, mas, diante de um mercado que oferece poucas opções, e sem querer assumir o risco de um profissional estrangeiro, dificilmente haviera escolha melhor para o Corinthians. Ele pode representar um passo à frente em relação ao time deste ano, não apenas em termos de desempenho, o que seria muito fácil, mas também de ideias.