Tiago Nunes era um mero desconhecido à maior parte dos torcedores brasileiros até uns meses atrás. Exceção feita àqueles que acompanham o Gauchão com mais afinco, àqueles habituados às categorias de base ou àqueles que viram sua conquista no Campeonato Acreano de 2010, as chances de reconhecerem o treinador eram raríssimas. O Atlético Paranaense, no entanto, confiou no já recheado currículo do jovem ao levá-lo para o seu time sub-23. Viu a aposta dar resultado, com a conquista do estadual em 2018. E agora pode bradar: acertou em cheio. O técnico revelação do futebol brasileiro nesta temporada transformou a realidade na Arena da Baixada. Não só superou as dificuldades quando assumiu o cargo, como também elevou clube de patamar. Independentemente do que acontecer nos próximos anos de sua carreira (e, aos 38 anos de idade, há muito para acontecer), o nome incógnito agora está registrado nos livros de história rubro-negros.

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A missão de Tiago Nunes, afinal, era bastante delicada. Fernando Diniz até criou certa repercussão quando chegou ao Atlético, mas se afundou nas próprias teimosias. O time podia tratar bem a bola, embora se mostrasse extremamente improdutivo. Enroscava-se na falta de ímpeto ofensivo e se limitou a poucos resultados realmente bons. No momento em que a situação no Brasileirão degringolava, sob os claros riscos de rebaixamento, Tiago Nunes assumiu como um bombeiro. Tentava desarmar a bomba que pintava na Arena da Baixada, com a vantagem de já conhecer boa parte dos jovens do elenco e respaldado pelo sucesso no Paranaense. Confiança que logo se pagou.

Porque, afinal, o Furacão não apenas deixou o Z-4 para trás. O time ascendeu na tabela do Brasileirão e flertou seriamente com a classificação à Copa Libertadores. Tudo isso lidando com o desafio de conciliar a competição nacional com sua jornada na Copa Sul-Americana. Tiago Nunes soube gerir muito bem o grupo e seus garotos para aguentar a maratona. A equipe avançou com autoridade na maior parte das fases na competição continental. Despachou Newell’s Old Boys (este, ainda com Diniz), Peñarol, Caracas e Fluminense sem dar qualquer margem à derrota. Sofreu contra o Bahia, em duelo no qual os erros de arbitragem beneficiaram os rubro-negros, mas também passou. E que as atuações contra o Junior de Barranquilla tenham feito os torcedores suarem frio, com todos os riscos corridos, a vitória nos pênaltis coroa a caminhada do Atlético. Foi realmente o time que apresentou o melhor futebol da competição – e, de uma maneira geral, do Brasil neste segundo semestre.

O grande mérito de Tiago Nunes, afinal, foi aprimorar o ambiente que encontrou na Baixada. O Atlético Paranaense contava com um time técnico, mas pouco eficiente? O novo treinador não perdeu esta qualidade e esta intensidade, adicionando muito mais objetividade nas ações. Sem a bola, nota-se uma equipe bastante concentrada e insistente para recuperar a posse. Com a bola, é um conjunto direto e incisivo. O típico trabalho em que as atividades realizadas durante os treinamentos repercutem em campo, especialmente pela capacidade na movimentação dos jogadores, conscientes de seus papéis. Um time agradável não precisa ser aquele que mantém o controle do jogo por mais tempo, e sim o que melhor sabe o que fazer com a bola quando a tem. Pois este Furacão tantas vezes soube, entre suas jogadas bem construídas e as exibições imponentes.

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A solidez se atingiu através de uma mescla. O Atlético Paranaense de Jonathan, Thiago Heleno e Lucho González, três medalhões essenciais para transmitir confiança, também se valeu de um punhado de jovens em ascensão. Santos impôs respeito sob as traves, respaldado há tempos no CT do Caju. Léo Pereira fez bom papel no miolo de zaga, enquanto Renan Lodi desponta como um dos melhores laterais do país – aparições ruins nas decisões à parte. Bruno Guimarães foi um fenômeno na cabeça de área, excelente na condução e nas coberturas. Raphael Veiga surgiu como o maestro de bolas decisivas. Já na frente, Pablo se encaixou na engrenagem para fazer a roda girar, com seus gols e seus passes. Isso sem contar Marcelo Cirino, regresso para exibir seu melhor futebol novamente, e Nikão, que por vezes soou como uma promessa perdida por questões extracampo, mas assume o fardo da responsabilidade neste time. Além, é claro, de reservas úteis e frequentes – Rony, Marcinho, Bergson, entre outros.

Que a final deixe uma impressão agridoce à análise fria sobre conquista do Atlético, embora a dose cavalar de dramaticidade a eternize ainda mais este jogo na memória dos torcedores, não é isso que apaga também os muitos méritos da equipe. E os méritos de Tiago Nunes em recuperar o moral dos jogadores, bem como de aprimorar o estilo de jogo dos atleticanos. Tantas vezes o clube toma atitudes ousadas na escolha de seus treinadores, seja apostando em gente de fora, seja confiando em brasileiros sem grande histórico nos principais clubes. Desta vez, errando com um nome “óbvio” como Fernando Diniz, chegou ao acerto com seu substituto. Alguém para ganhar muita confiança nos corredores da Baixada. Depois de chegar sob um processo seletivo rigoroso em 2017, abrindo mão de seu cargo no Veranópolis, e de galgar degraus rapidamente nos bastidores do clube, precisa ser mais imune na fogueira de vaidades que rege os empregos dos técnicos no Brasil.

Tiago Nunes, formado na Universidade Federal de Santa Maria, pode até atender o perfil de “estudioso”. O educador físico não foge disso, mas seria simplista limitá-lo a um molde, a um estereótipo. Afinal, a formação do comandante vai além de enfiar as caras nos livros para estudar tática ou se fechar em uma sala de vídeo para assistir aos taipes dos adversários. Seu conhecimento evoluiu por desempenhar diferentes funções dentro dos clubes nos quais trabalhou. Por, em sua formação, não se dedicar apenas a estudar aspectos da preparação física ou da análise de desempenho, mas também da gestão humana. Algo que se percebe no trato deste Atlético e ganha elogios de diversos comandados.

Tiago não é apenas o rapaz educado e inteligente das entrevistas. É o cara que sabe falar com os seus jogadores e tirar o melhor deles. Um aspecto realmente fundamental em um esporte que depende demais deste trato humano, e que vê treinadores promissores se perderem pelo caminho por não saberem falar com as novas gerações. O rubro-negro demonstra, além de leitura de jogo, uma leitura aprimorada dos vestiários. É como se o contrassenso dos cabelos brancos e de sua pouca idade servissem também como uma metáfora de sua conduta: tarimbado nos meandros do futebol e respeitado pelos comandados, ao mesmo tempo em que tem a sede jovial para buscar novos conhecimentos e para trabalhar suas ideias.

Obviamente, a vida de técnico guarda ingratidões, especialmente àqueles de ascensão meteórica. A cobrança imediatista é inerente. Ao longo dos últimos anos, alguns treinadores que começaram bem a carreira acabaram se queimando pouco depois. Mas em um ambiente extremamente resultadista, Tiago Nunes demonstrou virtudes que fogem disso, seja por seu tato com as promessas que despontaram no Atlético ou mesmo pelos reflexos de seus trabalho no dia a dia dentro de campo. É um profissional para a diretoria manter por perto, independentemente do que acontecer no próximo ano – até porque alguns jogadores correm sérios riscos de sair. De qualquer forma, o presente já é suficiente para reconhecer o que realizou Tiago. Com o brilho da taça, com o ouro no peito.