Os comentários de Leonardo Bonucci sobre o racismo de torcedores do Cagliari contra Moise Kean, seu companheiro de Juventus, repercutiram mal em muitos lugares do mundo, inclusive no Líbano, onde estava Lilian Thuram, ex-jogador francês. Ele tem uma fundação (Thuram.org) que tem como objetivo “Educação contra o racismo”. Thuram condenou as declarações de Bonucci sobre Moise Kean, que disse que a responsabilidade pelos insultos racistas era 50% dele por ter provocado.

“Kean sabe que quando ele marca um gol, ele tem que focar em comemorar com seus companheiros. Ele sabe que ele poderia ter feito diferente também”, disse Bonucci logo depois do jogo, à Sky Sport Italia. “Houve gritos racistas depois do gol, Blaise ouviu e estava furioso. Eu acho que a culpa é 50% a 50%, porque Moise não deveria ter feito isso e a Curva não deveria ter reagido daquela forma”, continuou Bonucci. “Nós somos profissionais, nós temos que dar o exemplo e não provocar ninguém”.

A reação contra Bonucci foi forte. Raheem Sterling publicou no Instagram que “Só dá para rir” com as declarações do zagueiro. Mario Balotelli, que já viveu muito na pele enquanto jogou na Itália e até hoje onde joga – defende o Olympique de Marseille, na França -, disse que “a sorte de Bonucci é que eu não estava lá”. Ian Wright, ex-jogador inglês que marcou época no Arsenal, também condenou. Foram muitas reações negativas e o Le Parisien conseguiu falar com Thuram, alguém muito engajado na luta contra o racismo há tantos anos.

Lilian Thuram foi um dos grandes nomes do futebol europeu no final dos anos 1990 e início dos anos 2000. Formado pelo Monaco, em 1991, jogou também pelo Parma, de 1996 a 2001, pela Juventus, de 2001 a 2006, e encerrou a carreira no Barcelona, de 2006 a 2008. Foi campeão do Mundo pela França, em 1998, além do título da Eurocopa de 2000. Depois de encerrar a carreira, passou a se dedicar a uma atividade que já estava presente em sua carreira, o ativismo contra o racismo, uma causa que ele sempre lutou, desde os tempos de jogador.

“O árbitro parou o jogo? Alguma coisa foi feita? Estamos todos em completa hipocrisia. Isso tem acontecido há anos. Todo mundo diz que nós iremos parar o jogo na próxima vez e isso não acontece. A observação é que as autoridades do futebol não se importam. Se isso realmente os incomodassem, a partida seria paralisada, acredite em mim. O time deveria ter deixado o campo e nós encontraríamos uma solução”, afirmou Thuran, um ativista que combate o racismo.

Quando perguntado especificamente sobre a reação de Bonucci, Thuram foi ainda mais enfático. “Isso é interessante. Ele basicamente disse o que muitas pessoas pensam, que as pessoas negras merecem o que acontece a elas. Isso evoca uma responsabilidade compartilhada em 50% entre torcedores e Kean. Quando você pensa a respeito, o próprio companheiro de time de Kean diz que ele merece os gritos de macaco e aos torcedores que eles podem continuar”, disse Thuram.

“A pergunta certa para Bonucci deveria ser: o que Kean fez para merecer os gritos de macaco? Para merecer tanto desprezo? Ele nunca disse aos torcedores que eles estão errados em agir desse modo, mas que o jogador buscou isso. A reação de Bonucci foi tão violenta quanto os gritos de macaco. É como quando uma jovem mulher é estuprada e algumas pessoas olham para a forma como ela estava vestida. É por causa dessas pessoas que as coisas não avançam”, declarou o ex-jogador.

O repórter pergunta se Thuram acha que Bonucci é estúpido. “Não, Bonucci não é estúpido, ele tem alguma ideia da sociedade. O que pode ser dito de Bonucci é que ele fez comentários de uma incrível violência contra seu próprio companheiro de time. Porque Kean marcou um gol e comemorou em frente à torcida rival é normal que ele seja insultado por sua cor de pele? Os comentários de Bonucci são uma vergonha. Nós temos que concordar sobre racismo. Os gritos de macaco, o desprezo às pessoas negras, incluindo todas as crianças que têm a cor de Kean…”, disse o ex-defensor, campeão do mundo pela França em 1998.

Foi pedido que desse uma mensagem para Kean, a vítima de racismo no caso. “Que ele fez muito bem de ficar orgulhoso e aumentando a diversidade. Eu peço a todos os negros que façam o mesmo e exijam respeito quando pessoas como Bonucci quiserem que eles desçam pelo ralo”, disse o francês, com palavras fortes.

O repórter pergunta então o que pode ser feito para mudar esse cenário. “O contrário do que Bonucci fez. Os jogadores que não sofrem com racismo devem ser solidários com seus companheiros de time que sofrem. É sabido que os jogadores de futebol estão sendo abusados no campo, que essa violência está sendo enviada a milhões de pessoas. Deve ser dito que temos que acabar com isso, que esse jogo nós não jogamos. É um negócio, então nada virá das autoridades. Se eles quisessem parar jogos, eles teriam um enorme número de oportunidades para fazer isso. Ninguém quer parar os jogos, na verdade”, disse Thuram.

Quando perguntado se o problema era mais grave na Itália, Thuram fez o alerta sobre a questão. “Não se engane. Isso é mais visível nos estádios italianos, mas o problema do racismo não se limita a estádios e nem apenas à Itália. Sterling encontrou problemas em outros lugares que não a Itália, certo?”, afirmou Thuram, citando o episódio de racismo sofrido por Sterling atuando pela Inglaterra contra Montenegro, em Pogdorica.