Criador de uma fundação cujo objetivo é “educar contra o racismo”, Lilian Thuram se pronunciou sobre os casos mais recentes de discriminação racial no futebol, envolvendo sobretudo Romelu Lukaku. O belga foi alvo de cantos racistas da torcida do Cagliari no último final de semana, e Thuram apontou que os dirigentes que poderiam resolver a questão não consideram o problema sério o bastante para combatê-lo.

Em entrevista ao jornal italiano Corriere dello Sport, Thuram afirmou que os torcedores não aprenderão a respeitar jogadores negros porque “tudo que acontece é muito papo e nenhuma ação. “Se nada é feito, você dá a eles o direito de continuar se comportando de certa maneira. Evidentemente, os responsáveis não consideram abuso racial um assunto tão sério.”

O campeão do mundo em 1998 pela França reclamou da falta de ação daqueles que tanto falam da necessidade de mudança. “A meu ver, aqueles que não fazem nada estão no mesmo nível dos que fazem os barulhos racistas. Algumas pessoas podem se zangar com as minhas palavras, mas é assim que eu vejo”, afirmou.

Thuram toma como exemplo as ações recentes no futebol francês de interromper partidas que têm cantos homofóbicos para apontar uma possível solução e vai além: “Tirar os dois times de campo é uma maneira de educar as pessoas. Não me lembro de algo do tipo acontecendo na Itália”.

Para o ex-jogador, no entanto, é preciso ver o problema do racismo além do futebol – e além do isolamento da Itália como única culpada: “Não se trata do esporte. Existe racismo nas culturas italiana, francesa, europeia e, em geral na cultura ‘branca’. Alguns brancos decidiram que eram superiores aos negros e que, portanto, podiam fazer o que quisessem com eles. Infelizmente, isso acontece há séculos, e não é fácil mudar uma cultura tão enraizada”.

“A Itália é tão machista, homofóbica e racista quanto qualquer outro país. Qualquer um que diga que existe mais racismo na Itália em comparação com a França ou outros países está simplesmente errado. Amo a Itália, fui feliz lá, ainda tenho amigos lá e fico sempre feliz em voltar ao país.”

“Há quantos anos vemos esse tipo de reação? No final das contas, todos dizem que é sério, mas ninguém acha uma solução. Isso significa que existe uma hipocrisia extraordinária, e ninguém quer resolver o problema.”

A falha em como lidar com o problema de racismo no futebol passa por várias esferas, uma delas a dos clubes. Thuram acredita que eles deveriam encontrar maneiras de combater a situação que acontece dentro de suas próprias casas. “Os clubes precisam se responsabilizar pelo que acontece dentro de um ambiente fechado como um estádio de futebol. E quando eu digo ‘se responsabilizar’, isso não quer dizer ‘serem os culpados’ – os clubes precisam dizer: essas pessoas estão em nossa casa, então o que podemos fazer? Se ninguém se sente responsável, nada é feito.”

Thuram lembra que existem regras que permitem que os árbitros interrompam as partidas em caso de cantos racistas, mas afirma que eles “fingem não ouvir”.

Um argumento muitas vezes presente nesta discussão é de que o racismo no esporte é um problema do futebol e que não acontece em outras modalidades, mas Thuram enfaticamente rechaça isso: “Não se trata apenas do futebol, e é hipocrisia fingir que isso é puramente um problema dos torcedores de futebol”.

Ainda que vítimas, muitas vezes os jogadores negros é que são colocados sob os holofotes para criarem uma solução ao problema, exigidos que se posicionem e liderem a luta. Thuram lembra, no entanto, que o problema não está neles, e sim nos racistas.

“É bom que jogadores negros se posicionem por Lukaku e por outros, mas os jogadores negros não são quem têm problema. Precisamos que as pessoas brancas encontrem uma solução para seu problema. Se eles se consideram mais importantes e expressam isso com barulhos de macaco, isso significa que eles têm um complexo de inferioridade.”

Depois de uma brilhante carreira nos gramados, Thuram passou a se dedicar ao ativismo contra o racismo, algo que já era presente em sua trajetória como atleta, como quando, mesmo em meio à concentração da seleção francesa, rebateu comentários racistas do então presidente Nicolas Sarkozy durante protestos que pipocavam nas periferias de Paris.
 

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