Alvo de racismo na última rodada da Serie A, Mario Balotelli se irritou com as ofensas, chutou a bola em direção à arquibancada e tentou abandonar a partida do Brescia contra o Verona. O presidente do clube, o prefeito da cidade e o técnico do Verona, Ivan Juric, negaram o incidente, por mais evidente que tenha sido. E Lilian Thuram, ex-jogador e voz importante antirracismo no futebol, agora pede responsabilização pelas afirmações do treinador.

Em entrevista à Radio 24, Thuram disse que a negação de Juric é perigosa e que o técnico deveria ser punido por isso.

“Ele disse que não ouviu nada de errado, esse é o perigo. Quando alguém é atacado, os outros têm que vir em seu auxílio, não esperar que a pessoa atacada se defenda”, argumentou o francês.

“É muito perigoso pensar em sons de macaco como zoeira. Não é algo normal de se fazer. Precisamos que todos apontem isso, que isso é inaceitável. É por isso que eu digo que o técnico do Verona é uma pessoa muito perigosa e que deveria ser suspenso pelo que disse”, cobrou.

Thuram discorda dos que argumentam que racismo é ignorância. Ele reforça que os racistas sabem bem o que estão fazendo e o fazem por uma razão.

“Temos que dizer às pessoas que existe um histórico por trás do racismo, e não é verdade que ele vem da ignorância. A história prova que as pessoas racistas verdadeiramente acreditam nesses ideais, assim como é o caso do sexismo. Se alguém acredita na inferioridade de uma outra raça ou gênero, essa pessoa não é burra, ela realmente acredita nisso.”

Por ora, além do fechamento parcial dos portões do estádio do Verona, a única punição consequente do episódio foi o banimento imposto pelo clube ao líder de seus ultras, Luca Castellini, até junho de 2030, por afirmar posteriormente em entrevista a uma rádio que, entre outras coisas, “Balotelli não era completamente italiano”. A liberdade com que Castellini disse o que disse é alerta suficiente para Thuram: “Este rapaz diz essas coisas porque existe um histórico por trás disso. Ele acredita que a nacionalidade vem da cor da sua pele”.

O ex-jogador da Juventus e do Parma ainda criticou o discurso de quem defende que os próprios jogadores negros tenham que carregar o fardo da luta contra o racismo no futebol. O episódio com Balotelli, aliás, é um bom lembrete do que costuma acontecer quando um jogador negro se revolta sozinho contra o racismo em um jogo. Em vez de ser acompanhado por seus companheiros para o vestiário, o atacante foi dissuadido pelos colegas de time.

“Qual jogador branco já foi a seus torcedores e disse a eles que parassem (as ofensas racistas)? Ninguém. O único técnico (branco) que conheço que abertamente disse que abandonaria o campo é o Carlo Ancelotti. São os jogadores e treinadores brancos que devem se levantar e ter a coragem de dizer basta”, cravou Thuram. “Quando todos os jogadores abandonarem o campo juntos, é aí que as coisas vão mudar rapidamente. Racismo é violência.”

Thuram sempre se posicionou contra o racismo no futebol, desde a época em que ainda era jogador, rebatendo declarações racistas mesmo de políticos franceses, como o ex-presidente Nicolas Sarkozy. Ultimamente, no entanto, tem ganhado as manchetes com frequência cada vez maior, diante da repetição dos episódios de racismo em quase todos os fins de semana de futebol italiano.