Desde seus tempos como jogador, Lilian Thuram demonstrava sua consciência política e social acima da média. O astro da seleção francesa se manifestava publicamente contra o racismo e a discriminação, batendo de frente com políticos por conta de seus ideais. E logo depois que pendurou as chuteiras, o defensor criou sua própria fundação, que combate o racismo através da educação. Nos últimos dias, o veterano participou de uma ação para auxiliar refugiados sírios. Sobre o assunto, concedeu uma entrevista ao jornal Marca, em que apresenta um pouco de suas ideias e de sua luta. Abaixo, destacamos os principais trechos:

As crianças refugiadas

“Vejo nos meninos refugiados a mesma coisa que vejo nas outras crianças do mundo: eles sonham. Querem ser alguma coisa, desejam um futuro melhor. O mais importante a estas crianças é que brinquem. Quando brinca, você sorri, está com amigos, tem um momento feliz. E quando se brinca e se é feliz, ganha confiança. Essa confiança te faz pensar em um futuro melhor. Por isso o futebol funciona, porque é um veículo perfeito para conseguir isso. É o número 1 do mundo. Quando você dá a bola para uma criança, ela joga e então pode sonhar”.

A consciência sobre a desigualdade

“Não é fácil explicar a uma criança o problema dos refugiados. Normalmente, ninguém deseja sair do lugar onde vive, de seu país, de seu entorno, de seu círculo familiar. Quando você vai embora, é porque há pobreza e guerra. E por isso é que existem países ricos e pobres. Aqui é onde começa a reflexão. Os países ricos são tão ricos que nem eles mesmos sabem. Poderíamos encher três planetas com sua riqueza. Acreditamos que, se há outros que não vivem bem, é por sua própria culpa, não pela nossa. O sistema social que produz a pobreza é o mesmo que põe em perigo o mundo, como pode ser por exemplo o aquecimento global. Temos que nos dar conta de que todos estamos no mesmo barco”.

A consciência sobre o racismo

“O racismo me acertou sem querer. Quando cheguei a Paris com nove anos, eu me dei conta que era negro. E quando você percebe isso, imediatamente depois entende que o negro é menos que o branco. Com o tempo, entendi que esse ódio vem da história. É algo cultural. É preciso explicar às crianças que não é natural”.

Treinadores negros

“Felizmente, há cada vez mais treinadores negros. Não é fácil. O futebol aceita os jogadores de cor, mas ver um negro que mande já não é fácil. Assim como não é fácil ver uma mulher que mande no futebol. Custa aceitar para grande parte da nossa sociedade. E no caso dos treinadores negros, há muitos que já nem se formam, porque consideram que têm poucas probabilidades de chegar longe. Veem como uma perda de tempo”.

Machismo no futebol

“O futebol é um reflexo da sociedade e vivemos em um mundo machista. O poder masculino sobre o poder físico da mulher. Clubes como o Barcelona, o PSG e muitos outros têm agora suas equipes femininas. É uma mensagem muito potente e muito importante”.

Homofobia no futebol

“A maioria das pessoas não aceitam a homossexualidade, por isso poderia ser perigoso. O futebol é um grande negócio e, se um jogador declara sua homossexualidade, sabe que poderia ser rejeitado. Mas este não é um problema do futebol. É da sociedade”.