Depois de sua aposentadoria, Lilian Thuram se tornou um notável ativista contra o racismo, frequentemente se posicionando diante de episódios de discriminação no futebol. Esta sua faceta já era latente mesmo nos tempos de jogador, e em uma entrevista ao jornal inglês Guardian, ele revelou como suas experiências ainda quando criança moldaram sua personalidade.

Nascido nas Índias Ocidentais, Thuram se mudou com sua família para a periferia de Paris ainda quando criança, em 1981, e logo se deparou com a dura realidade da discriminação racial. Ele relembra como sua mãe tinha dificuldades de lhe explicar as situações pelas quais ele passava.

“O que me impressionou quando eu cheguei à França foi que alguns dos meus colegas de classe me julgavam por causa da minha cor. Eles fizeram eu acreditar que a cor da minha pele era inferior à deles e que ser branco era melhor. Eram crianças de nove anos de idade. Elas não nasceram racistas, mas já haviam desenvolvido um complexo de superioridade. A partir daquele momento, comecei a me questionar: ‘Por que eles estão me provocando? De onde vem isso?’ Minha mãe não conseguia me oferecer as respostas. Para ela, era simplesmente assim que as coisas eram. Havia racistas, e isso não mudaria”, conta.

Descrevendo uma realidade que se assemelha bastante à experiência brasileira de formação de jogadores com um passado no futebol de rua, Thuram explica por que tantos jogadores saem das periferias de Paris para brilhar mais tarde pela seleção francesa. O pano de fundo social é inevitável.

“A melhor maneira de ser bom em alguma coisa é fazê-la bastante. Quando você vive nos subúrbios, você joga muito futebol. Você não tem acesso a aulas de piano ou violino. Durante as férias escolares, você não viaja, você fica em casa e joga futebol o dia inteiro. É por isso que tantos jogadores surgem dessas áreas.”

Esse fenômeno pôde ser visto com clareza pelo mundo todo pela primeira vez em 1998, quando a França conquistou sua primeira Copa do Mundo, jogando em casa, com uma equipe repleta de jogadores de diferentes origens étnicas. À época, cunhou-se o termo “black-blanc-beur”, ou “negro, branco e árabe”, com cada uma das raças representada por uma das cores da bandeira da França. Thuram lembra com carinho daquele período.

“O símbolo black-blanc-beur que criamos era positivo, e eu gostava. Não era apenas uma referência à seleção, era sobre toda a sociedade. Não sou inocente, sei muito bem que, fora do futebol, as pessoas não são tratadas da mesma maneira. Não lhes é permitido sonhar com as mesmas coisas. Dependendo da cor da sua pele, dependendo das suas origens, você não tem acesso às mesmas oportunidades. Então, é por isso que estou muito feliz que, por um período pelo menos, houve esse reconhecimento”, comenta.

Mesmo mais de 20 anos depois daquela que poderia ser uma conquista icônica para celebrar a pluralidade racial da sociedade francesa, a questão do racismo no país segue forte. Em entrevista neste ano ao Corriere dello Sport, comentando os seguidos casos de racismo no futebol italiano, Thuram afirmou que este era um problema de toda a sociedade europeia, e seus comentários foram alvo de repercussão negativa entre algumas personalidades do futebol, mais notavelmente o comentarista Pierre Menès, bastante popular na França, que afirmou que o “verdadeiro problema” no país seria “o racismo contra os brancos”.

Thuram vê a repercussão daquelas falas como algo relativamente positivo, um sinal de que algo está em curso. “O fato de que o assunto do racismo está sendo cada vez mais debatido é bom. E se estou sendo atacado, então significa que, de alguma maneira, minhas ações estão deixando certas pessoas desconfortáveis. Elas se sentem em perigo, o que, novamente, é um bom sinal. Não se esqueça que Mandela foi acusado de ser um racista antibrancos. O mesmo com o Martin Luther King.”

O ex-jogador considera-se sortudo por ter logo cedo entendido as raízes do preconceito racial, que, para ele, podem ser atreladas a outros tipos de discriminação. “Historicamente, nós ranqueamos pessoas. Criamos hierarquias de acordo com a cor da pele. Educamos a pessoa branca a pensar que é dominante sobre os outros, da mesma maneira que educamos os homens a se sentirem dominantes sobre as mulheres. Isso são mecanismos intelectuais e ideológicos que foram construídos para explorar outras pessoas.”

“Tive sorte que, desde cedo, entendi o mecanismo por trás do racismo. Então, quando eu ouvia cantos de macacos, não havia dúvida na minha cabeça de que as pessoas com um problema eram aquelas fazendo os sons de macaco, não eu. Não ficava com raiva, eu tentava entender por que eles faziam aquilo”, comenta.

“O racismo vem de um sentimento de que você é superior a outra pessoa. Você pensa que você é ‘normal’ e elas não são. É a mesma coisa com a homofobia. Os heterossexuais foram educados a pensar que eles são normais e as pessoas gays não são. Bom, precisamos explicar muito bem a essas pessoas que elas não são ‘a norma’. Não existe norma. Entendi isso muito cedo, e, quando você entende o racismo, você sabe que não é você que tem um problema”, completa.

Desde 2008, o campeão do mundo trabalha mais ativamente sobre a questão racial, tendo criado a Fundação Lilian Thuram para educar os mais jovens sobre as raízes do racismo e os seus problemas.